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25-Jul-2008
'Da Arte do Mostrar' ao silêncio do azul | PERPLEXIDADES PDF Imprimir e-mail

By Risoleta da Conceição Pinto Pedro, on 12-05-2008 23:00


 Diálogo entre dois sábios…

 

…apaixonados pela obra.

 

Há muitas formas de visitar uma exposição, mas esta a que tive privilegiado acesso há dias, é rara e antes, para mim, inimaginável.

Alguma vez se perguntaram como é possível ver ao mesmo tempo o cimo e o fundo de uma peça sem nos virarmos do avesso? Eu também não.

Esse é o oculto trabalho do designer da exposição: mostrar. Com rigor, esteticamente e sem que apanhemos um torcicolo, esta é a sua arte, a arte de dar a olhar o fundo sem virar do avesso. Entre outras coisas.

Poderíamos talvez chamar a este trabalho um jogo de equilíbrios, ou a arte de bem planar sobre os pontos cardeais.

É sempre maravilhoso entrar num mundo em que o olhar é grande e amplo mas também sabe descer ao muito pequeno. Neste mundo, um milímetro pode ter a opacidade de um muro de betão, se estiver a mais, ou a transparência do ar, se estiver no sítio certo.

Mostrar é a arte da rigorosa geometria da relação.

O vermelho pode ser um deíctico, paradoxalmente se escondendo naquilo que exibe, ou um trono elevando aquilo que acolhe. Um certo azul é diferente de um outro azul, uma evidência nem sempre tão evidente, e que numa exposição assume uma diferença que pode ser gritante ou silenciosa, na invisibilidade na relação com o dourado, com uma determinada forma que por sua vez está em relação com outra forma ali adiante. Ou ao lado. O que não é o mesmo.

Uma eloquentíssima e silenciosa linguagem, esta que consiste em retirar do ar o olhar, traduzir sem trair.

“Aconteceu-me” tudo isto na Fundação Calouste Gulbenkian, onde:

Assisto deslumbrada à apaixonada e apaixonante conversa entre  Mariano Piçarra, o designer da exposição "O gosto "à grega"- Nascimento do Neoclassicismo em França , 1750-1775" e uma amiga minha, Ana Isabel Santos, que é conservadora do Museu Nacional de Arqueologia.

Repito: deslumbrada, como se subitamente se me tivessem aberto umas portas de outra dimensão. A realidade é a mesma, mas o olhar é outro, e a realidade já é outra.

Acompanho-os e olho os expositores, a altura, as aberturas, a cor, vejo a relação espacial entre os vários objectos, as distâncias entre expositores, entre peças, a iluminação, o facto de se verem ou não os focos, a luz aparece suave mas é como se não existisse, apenas o objecto existe, E percebi que até hoje sempre olhei as exposições com um olhar de fora. Ou parcial. Este poderá não ser ainda o olhar total, mas não voltarei a visitar uma exposição do mesmo modo, procurarei em cada recanto a sombra o designer, o olhar crítico  e estético de quem vê, ao mesmo tempo, a obra e o ver.

Vai-se a uma exposição ver as peças. Nesta privilegiada visita em que como simples curiosa participei seguindo-os, ouvindo-os, acompanhando os olhares, fiquei a saber e que sentido me fez!, que uma exposição é como um ensaio, as próprias vitrinas ou os suportes vários que são criados para as peças e toda a relação que se estabelece entre estes suportes e o espaço, entre estes e as peças entre as peças na relação umas com as outras, permite alguma interpretação. Mas que isso já não é possível no museu, onde a neutralidade dos suportes tem de ser maior. Concordaram eles que neste caso, o suporte poderia ser de museu. Eu concordava com tudo, procurando que não me vissem nem me ouvissem, tentando não criar ruído àquele diálogo de sol, dois seres iluminados pelo entusiasmo dos deuses gregos iluminando as sombras que sempre arrastei no lastro do olhar.

Dali saí com o coração contente. Porque existe uma oculta ordem no mundo e existe quem saiba recolhê-la como néctar. E mostrá-la.

Seguira-os como uma Alice saída de universo confuso e novamente chegada a uma nova ordem de um novo mundo onde eu fui gentilmente convidada a entrar, onde me acolheram no seu círculo de ouro.

É esta a marca distintiva dos grandes: elevam tudo aquilo em que põem o olhar.

 

Risoleta Pinto Pedro
www.risocordetejo.blogspot.com

 

 


   

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