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07-Jan-2009
Suspenso no vazio central | copy/paste PDF Imprimir e-mail

By Luís Pinheiro, on 15-05-2008 22:42


 Na Carlos Carvalho Arte Contemporânea, em Lisboa, até 14 de Junho, Cristina Ataíde expõe “Manual de Instruções”, um conjunto de pequenas esculturas de montanhas, em bronze. E um, só um, desenho. Nas obras, a artista aborda questões como a efemeridade existencial, a suspensão e o vazio. Recupera, assim, a partir das suas experiências no Oriente, alguns temas que a materialidade tecnológica Ocidental procura continuar a ignorar. Há, igualmente, a procura de maior envolvimento do observador/coleccionador na experiência da obra.

 

 

Manual de instruções

Para retocar ou alterar a cor da sua montanha:

1. Limpar cuidadosamente com o pincel, todo o pigmento existente

2. Colocar a escultura na peanha

3. Colocar o papel de protecção sobre a peanha

4. Deitar o pigmento dentro da peneira

5. Peneirar suavemente sobre a escultura

6. Colocar a campânula

7. Retirar o papel de protecção

8. Guardar o pigmento excedente para futuras utilizações

9. Help! Tm 919788176

Cristina Ataíde 2008”


Em “Manual de instruções”, Cristina Ataíde procura levar à participação directa do observador e, através desta, acordar um outro nível de consciência da obra de arte e da realidade nela representada. Este despertar, que adquirirá contornos e razões individuais, é condicionado à partida pela forma, material, tamanho e apresentação dos trabalhos expostos.

Nas pequenas esculturas de montanhas cobertas de pó vermelho, o coleccionador recebe a peça acompanhada de um kit que permite intervenção pessoal na obra – uma pequena caixa, que se encontra ao lado da escultura, identificada como “Manual de instruções”. No seu interior incluem-se a lista com a sequência de acções (acima citada), um pincel, pigmento e uma pequena peneira.

A poeira acumulada em cima da montanha esculpida pode, assim, ser retirada e substituída por outra, de cor diferente, que se enquadre na experiência e visão deógica Ocidental procura continuar a ignorar. Há, igualmente, a procura de maior envo quem adquiriu o trabalho. Com estas peças, aumentam as interacções entre o observador e a obra, o acto criador repete-se, perpetua-se, bem para além do momento de concepção e execução. O observador participante, ao seguir as instruções deixadas, realiza um ritual. Terá mesmo a possibilidade de aceder a outros níveis de realidade que se encontram representados ou dissimulados – uma vez que o espectador menos atento apenas vislumbrará os efeitos presentes e não as suas causas. Dados os elementos simbólicos existentes nas esculturas e forma como estas se apresentam (cobertas com uma campânula e colocadas a uma altura que leva a que sejam observadas de cima), esta participação adquire carácter místico e, se acompanhada da devida concentração, representará um acréscimo na percepção e relacionamento com a realidade exterior.

Com estas esculturas a comunicação pode ser mais directa – na intervenção na própria obra. Há, contudo, outras peças expostas, onde a contemplação se revela o caminho que desvendará os mistérios da Obra – pequenas esculturas de bronze, colocadas na parede ao nível do olhar e um desenho de grandes dimensões.

 No desenho de grande escala, a artista recria a Natureza exterior no espaço da galeria. O observador é observado pela montanha. Tem a possibilidade de Ser, de se ausentar e observar a Si próprio. A realidade exterior espelha e observa a interior.

A montanha desenhada apresenta-se suspensa no vazio. A sua forma etérea exprime, igualmente, solidez. Uma linha horizontal quase imperceptível demarca um plano superior e um outro inferior, o plano de realidade espiritual e o da manifestação física.

As pequenas esculturas expostas na parede representam igualmente o carácter dual da existência, estabelecem relações entre “o que está em cima e o que está em baixo”. A escala de representação permite ao observador a apreensão consciente da experiência apresentada. A montanha é observada no exterior.

Cristina Ataíde realizou as suas esculturas em bronze. Para a artista este é um material definitivo, cujo peso e densidade – para além de lhe agradarem – se aproximam talvez da densidade da montanha (e a concentração que a caracteriza). A cor do material também influenciou a sua escolha.

Também volta a usar, nestas obras, o vermelho, uma cor que para a artista apresenta sentidos múltiplos: “cor de opostos, do amor, da morte, da paixão, do ódio, do sangue e da vida, cor que aproxima e que afasta, cor obsessiva, alegre, vibrante e sanguínea; uma cor de que não se pode abusar – em pequenas doses é bastante energética, mas pode tornar também as pessoas violentas; cor oposta ao verde, que é a cor da natureza”.

A Natureza – as forças, energias e elementos que nela se encontram presentes – é utilizada constantemente pela artista na sua redescoberta da Vida. Cristina Ataíde representa nas obras expostas montanhas que conheceu e visitou durante a sua vida. As montanhas, em si, emanam energia. As pequenas esculturas em bronze e o desenho em grande escala inscrevem-se, assim, no trabalho que a artista tem vindo a desenvolver.

Cristina Ataíde trabalha a efemeridade, a existência enquanto algo de transitório – um ciclo onde vida e morte se sucedem ininterruptamente. No seu trabalho, a memória da Natureza é preservada na relação que estabelece com o ser humano, quer na intervenção que sobre ela – Natureza – se realiza, quer na experiência estabelecida no momento de fruição da obra de arte.

A Natureza surge associada ao corpo humano, sua pertença também. Com o seu trabalho, Ataíde procura trazer a Natureza para próximo de si e, por participação na representação na obra, para junto do observador. A artista tenta (r)estabelecer pontes entre o Homem e a Natureza e, desse modo, religá-los.

 Na presente exposição, Cristina Ataíde introduz, com a Montanha, um novo olhar sobre a Natureza, agora observada à distância – as obras representam-na, não a reproduzem. Há, contudo, uma continuidade em relação ao trabalho desenvolvido anteriormente: a Natureza que se encontra sempre presente em nós próprios e é o princípio de transformação.

Para a artista, a experiência interior da obra de Arte deverá conduzir cada um de nós cada vez mais fundo na sua própria, pessoal, descoberta. A Arte permite essa contemplação de e sobre nós próprios, algo que se tornou difícil na sociedade ocidental, mas se conserva ainda no Oriente.

As viagens que se apresentam nas obras, apesar dos seus referentes exteriores, são essencialmente percursos que conduzem à realidade submersa e a tornam consciente.

A Montanha reveste-se, assim, na obra de Cristina Ataíde, da sua importância tanto real como simbólica. Representa o centro do mundo, a totalidade, a tendência para o uno e o reencontro de Si. A sua forma, massa e altura remetem para a transcendência, a eternidade, o encontro do Céu e da Terra, o restabelecimento do mundo original e a redescoberta da Identidade, no Grande Silêncio que evocam. E, conforme diz Cristina Ataíde, surgem associadas, na cultura chinesa, à concentração – que a artista procura induzir no observador destes seus trabalhos.


   

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