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07-Jan-2009
Abusologia | Maldizer PDF Imprimir e-mail

By Vera Chi Lo Sa, on 21-05-2008 12:36

Isto é que é sorte! Sim, muita sorte para o 61º Festival de Cinema de Cannes, por ter a sorte de Manoel de Oliveira estar vivíssimo da costa e aos pulos nos seus 99 anos. É assim mesmo, o Festival de Cannes homenageou o nosso quase centenário realizador de cinema, o mais antigo do mundo em actividade. Que “Douro, Faina Fluvial” já por aí andava e ainda o festival era algo a haver. E sequer mamava, o festival, quando “Aniki-Bóbó” teve estreia de gala.

Há dias assim, em que dá alegria escrever, por ser verdade: Manoel de Oliveira deu-lhes a grande honra de estar presente, em pessoa e ele mesmo. De certeza haverá outros assim, como ele, por aqui plantados, à espera não se sabe de quê para fazerem e, com isso, se fazerem. Mas esta não é conversa de louras, sabem?, só a escrevi por achar bonito o que ouvi um dia destes… Conversa de loura é dizer que foi bué da giro ver o nosso cineasta a esgrimir de bengala com o actor Michel Piccoli, sempre um chuchu de kriducho.

Realmente, não é todos os dias que alguém das artes, em vida, vê a sua obra reconhecida. São inúmeros os exemplos de excelência que só passam a ser bons à ufa depois de trespassados. Será que também vou precisar de durar até aos 100 anos? Eu até bebia do elixir da juventude de Manoel de Oliveira, a começar já agora, que estou a ficar com uma rugazitas de expressão. Que famosa, isso, sem dúvida, serei!

Bem, se uns têm sorte, outros abusam dela. Não falo, recuso, das passas do nosso PM e seu económico ministro. Que foi abuso, foi e logo não muito depois da cena do “proibido fumar” em tudo quanto é sítio menos no Casino. Mas não me importo. Assim não vivem até aos cem anos, nem pó e nem sei se me chateio um niquinho com isso. Estou mesmo a pensar em oferecer-lhes, tipo prémio de consolação por andarem a levar tanto na cabeça, dois pacotes de SG a cada um.

E de abuso em abuso, o próximo é da Leya.

A tal Leya é um novo império editorial de mil livros e 90 milhões de euros, como lhe chamou o “Jornal de Notícias” quando a editora apareceu. Nada a opor, bem pelo contrário. A questão está em que a recém chegada quer ser diferente. Tudo bem, tem esse direito. Todos queremos ser diferentes, eu sei. Quem tem cabelo encaracolado, quer tê-lo esticado, quem tem um Renault quer ter um Ferrari, e por aí adiante. O pior é que a Leya quer impor a sua diferença aos outros. E aí já não é diferença, acho eu que é abuso, prepotência, novo-riquismo, sei lá... só sei que bom é que não é.

Por essas e por outras estivemos à beira de não ter Feira do Livro em Lisboa. Não que fizesse grande mossa, que dinheiro para livros, ò filha! E quem o tem gosta de outras leituras, que não estas agora propostas, no Parque Eduardo VII. Enfim, chegou-se a um entendimento, arbitrado pelo presidente da primeira Câmara deste país, que está tecnicamente falida, mas não deixa de ser a primeira, né? Assim, como queria desde o princípio, a Leya vai ter pavilhão diferente do das outras editoras presentes na feira. E porquê? Ora, porque "tecnicamente somos o maior grupo, agora temos de ser o melhor", nas palavras de Isaías Gomes Teixeira, seu administrador-delegado.

Então, a Feira do Livro não abriu a 21 de Maio, como estava previsto, por causa deste “tecnicamente”. Olha lá, ò Teixeira, comigo é que não contas na tua barraquinha, por mais diferente que seja. Até lá podes ter a primeira edição de “Os Lusíadas” em saldo que euzinha não ponho lá os pés. E se toda a gente fizesse o mesmo, bem podias ir tecnicamente, com os teus 90 milhões de euros, sei eu bem para onde, mas não digo, porque fui educada num colégio de freiras. Tá bem?

Não sei, não compreendo, como gente tão boa como Lobo Antunes, Lídia Jorge, Mário de Carvalho e Saramago (ao menos aqui fica Lobo Antunes em primeiro, prontos!) entrega os seus livros a quem é capaz de coisas destas. Um dia, se calhar, ainda venho a perceber. Em contrapartida, percebo muito bem a razão que levou os directores dos 27 museus nacionais e cinco palácios a escreverem ao Excelentíssimo Senhor Ministro da Cultura, que os tutela, uma carta alertando para ruptura financeira iminente.

Enfim, noventa milhões de euros, hem?
 

   

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