| By Luís Pinheiro,
on 25-05-2008 19:12
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“But I Fly” é o título da exposição de Lygia Pape, patente na Galeria Graça Brandão, em Lisboa, até 31 de Julho. Na mostra exibem-se, para além do último vídeo da artista e algumas obras da série “Tteias”, gravuras e objectos escultóricos bi e tridimensionais – trabalhos onde a “frágil” solidez que estrutura o Mundo e a Vida se torna visível.
“ «Espantoso! A primeira manifestação do Simurgh verificou-se na China, no meio da noite. Uma das suas penas caiu na China e sua fama encheu o mundo. Todos fizeram um desenho da pena e dela formaram seu próprio sistema de ideias, do que resultou caírem numa confusão. A pena ainda está na galeria de quadros daquele país; daí o dito: ‘Busca o conhecimento até na China!’ «Não fora essa manifestação e não se teria feito tanto barulho no mundo em torno do misterioso Ser. Este sinal de existência é um testemunho de glória. Todas as almas levam uma impressão da imagem da pena. Visto que a sua descrição não tem pés nem cabeça, nem principio nem fim, já não é necessário falar sobre ela. Agora, se algum de vós estiver disposto a enfrentar a estrada, que se prepare e ponha pés ao Caminho.»” (Farid Ud-Din Attar, A Conferência dos Pássaros) Nos trabalhos de Lygia Pape apresentados na Galeria Graça Brandão, a artista traduziu em forma física, ou narrativa audiovisual, algumas das subtilezas que apenas o olhar domesticado consegue encontrar e compreender plenamente. Aos outros restará apenas a possibilidade de representação na experiência da obra. O vídeo “But I Fly” – que empresta nome à exposição – é metáfora directa da Vida que se sente e apreende nos diferentes planos (e lugares de passagem) em que se manifesta. Este trabalho tem três momentos distintos, onde o som e a imagem se ajustam, contrastam e voltam a reajustar-se. No início, o observador, confrontado directamente com o olhar da artista, é convidado a participar na viagem que ela efectua. O leque, tornado asa é, através do seu som, simultaneamente sinónimo da vida que pulsa no bater do coração e da prisão do Espírito, que apesar de pairar se encontra enclausurado na densidade da matéria da manifestação. A Vida como é comummente apercebida – por isso a artista nos olha directamente – encontra aqui a sua representação: ao som dos pássaros, uma constante no trabalho da artista, sobrepõe-se o bater vigoroso do leque/asa/coração e o sorriso encantado da artista, expresso na face e nos olhos. No instante seguinte o “bater” tornou-se mais compassado, o sorriso desapareceu e o olhar da artista desviou-se do observador; contempla agora, directamente, o seu próprio vazio. A experiência passou a um plano individual – lugar da passagem – irrepresentável pelo seu carácter privado, metafísico. A “forma” e dimensão desta realidade encontram-se nas alusões para elas encontradas no som e na imagem. A leveza do Espírito libertado caracteriza a última parte do trabalho de vídeo: o sorriso da artista é agora sereno, iluminado, a realidade exterior – e os desejos e sensações a ela associados – deixou de afectar o Ser individual, cujo pulsar se diluiu, desapareceu e apenas se entrevê no som dos pássaros, que traduzem essa realidade outra. Metamorfoseada está junto de nós sem estar – por se situar noutro plano de manifestação. Por isso, entre outras razões, esta não é uma exposição póstuma. Nas palavras da filha da artista, Paula Pape: “Os olhos só piscam no final, quando as suas asas silenciosas não fariam mais ruídos que o planar de uma borboleta. Os pássaros fizeram parte de sua vida e são imediatamente requisitados, como o Bem Te Vi e, no final, o som de uma Seriema, ave campestre e selvagem que a seguiu durante vários anos.” Para além do vídeo, as “TTeias” são elementos fundamentais no conjunto das obras apresentadas na exposição: duas instaladas na entrada da galeria; uma outra num canto; esboços e uma maqueta. Os trabalhos – compostos por fios – encontram-se montados em teares quadrados ou em grampos. O fio isolado apresenta um percurso sinuoso e ascendente. Em conjunto (os fios) são dispostos em paralelo indicam claramente direcções, sentidos e, ao mesmo tempo, presenças que os ultrapassam – por não ser perceptível a sua origem e destino. As “TTeias” são materializações da Luz, representações da Presença “invisível” que é constante – que tudo liga e tudo penetra. São uma expressão do feminino, da matriz original. Os corpos destas obras habitam e preenchem um espaço de escuridão que, no entanto, possibilita a sua manifestação através da Luz que sobre elas incide. A exposição inclui ainda trabalhos anteriores de Lygia Pape, gravuras e objectos onde as formas e linhas se organizam para evidenciar o que não se apresenta. Os elementos que compõem os objectos escultóricos descuram a sua base de sustentação aparente. Nas gravuras, as linhas e as figuras alternam-se no espaço de representação e tornam visível, na forma e conteúdo expresso, a sua imaterialidade. São trajectos, espaços e corpos que se assumem como vasos – receptáculos para efemeridade da existência na sua manifestação e, igualmente, representação da Vida que a transcende. Como diz Fernando Cocchiarale, “Os veios da madeira da matriz, a disposição em diagonal dos grafismos, os vazios e os cheios que se interpenetram, tudo nestas xilogravuras pode ser relacionado às “Ttéia” como se ambas balizassem o limite de uma longa caminhada.” Lygia Pape (n. Nova Fiburgo - Rio de Janeiro, 1927) que faleceu em 2004, fez parte dos Grupo Frente e do Grupo Neoconcreto, e esteve ligada ao Cinema Novo Brasileiro. A artista, cuja obra se encontra representada em inúmeras colecções institucionais por todo o mundo, expôs individualmente em Portugal em 1999 na Galeria Canvas, no Porto, em 2000 no Museu de Serralves, no Porto e em 2004 na Galeria Graça Brandão, igualmente na cidade do Porto. E, como se verifica, continua a ser presença. |
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