| By Nuno Cunha*,
on 04-06-2008 12:01
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“Picasso: La Multiplicidad del Vértice” está a decorrer na Fundação António Prates, em Ponte de Sôr, até ao dia 31 de Julho, em simultâneo com a mostra “Arte Contemporânea Espanhola” nas colecções da Fundação e de António Prates.
Com apenas um ano (a Fundação comemora o seu primeiro aniversário precisamente no mês de Julho), a instituição procura afirmar-se no âmbito da cultura contemporânea, “sem diminuir a qualidade da programação (...), senão seria fazer o que as televisões fazem, descer a qualidade para ganhar multidões” - referiu a sua directora, Graça Fonseca, em entrevista. Este equipamento, raro numa cidade pequena de interior, dispõe de uma área de cerca de 10 mil metros quadrados, com auditório, anfiteatro, oito ateliers, cinco salas de exposição, biblioteca de arte, espaços para residências temporárias de artistas e um espaço envolvente com os “jardins móveis” de Leonel Moura. Uma Fundação como a vossa, sediada numa cidade pequena, que não é sequer uma capital de distrito, tem problemas que lhe advêm dessa interioridade. Quais são os problemas provocados por essa localização? Claro que isso afecta muito. Temos de captar públicos e educá-los - sem diminuir a qualidade da programação - porque os públicos não estão habituados a frequentar os sítios da cultura, senão seria fazer o que as televisões fazem, descer a qualidade para ganhar multidões, mas depois transmitem cursos de estupidificação através dos programas que fazem. Não é isso que se pretende para a Fundação. As exposições têm em conta obviamente a localização, o que implica um esforço maior de descodificação das coisas, para que o público entenda, mas sem passar um atestado de estupidez às pessoas. Nós, que estamos mais dentro deste tipo de linguagem, temos de fazer a ponte de comunicação com o público, mas temos a perfeita consciência de que isto demora anos. Estes primeiros anos são, portanto, de semear. Os frutos serão colhidos aos poucos e é preciso ter consciência disso. As dificuldades que referiu, das afluências, também vos dificulta o acesso às fontes de financiamento? Por um lado dificulta, mas por outro, não. Em termos de mecenato, claro que é mais fácil estar num centro onde existem mais empresas e onde elas precisam mais desse tipo de prestígio. Por outro lado, o facto de estarmos deslocados também permite o acesso a outro tipo de apoios. É um pau de dois bicos. É necessário saber gerir e ter consciência de que estamos num país onde a cultura não tem muito peso financeiro, que está em vias de desenvolvimento e a passar por uma crise. A que tipo de fontes alternativas se está a referir? São as fontes estatais europeias normais. É difícil, mas também não é a missão impossível. É preciso imaginação e criatividade. Têm relações com outras instituições congéneres, como Serralves ou a Culturgest? Temos. Temos relações com o MEIAC**, com o Museu de Évora,... Agora em Junho vamos fazer uma exposição em rede relacionada com o Centro Cultural de Cascais, o Museu da Luz, o Museu de Elvas (o MACE) e com Sines, o Centro de Artes de Sines. Estamos a apostar fortemente num relacionamento em rede, para estabelecer parcerias. As exposições que promovem são essencialmente produção própria ou recorrem mais ao que frequentemente se denomina de “pacotes”? Fazemos as duas coisas, mas dentro de uma linha de objectivos. Não aderimos a um pacote, porque é um pacote. Damos preferência à construção de uma exposição em conjunto com outras instituições, mas se estiver dentro do nosso objectivo e do traçado, da linha de exposições que queremos desenvolver. Além disso, temos igualmente produção própria que também propomos a adesão a outras instituições para partilharem connosco. Agora, comprar pacotes porque é mais barato, não. Tem que fazer algum sentido, senão pedagogicamente baralhamos tudo. A vossa produção própria limita-se à colecção ou fazem exposições também com outras obras? Também convidamos artistas a exporem. Temos uma colecção de base, por vezes pode entrar uma obra ou outra numa colectiva, se isso for pertinente, mas também fazemos exposições individuais. Em Julho vamos expor Luís de Campos, em Setembro, Manuel Valente Alves, e outras se seguirão. A situação de Ponte de Sôr, nomeadamente com o caso Delphi, que impacto vai ter? Penso que vai ter um impacto enorme se não for encontrada uma solução através do Governo ou do Município. Muita gente sem trabalho provoca uma instabilidade muito grande em termos sociais, e em termos económicos, então, é complicadíssimo. Há famílias inteiras que trabalham lá e se, de repente, todos ficam sem trabalho, é complicado. Eu referia-me ao impacto na actividade da Fundação! Claro que há impacto, nem que seja só em termos sociais. Quando surge um equipamento destes, novo, numa população que não tinha hábitos culturais, a resistência é relativamente viva. Se há uma crise social, essa resistência é mais difícil de ultrapassar. Depois, se nós, Fundação, em determinadas medidas, pudermos colaborar na atenuação dos problemas sociais, fá-lo-emos. Estou mesmo já a pensar em algumas medidas em que possamos contribuir para a diminuição da tensão social. Já tem ideias concretas? Sim, penso que há algumas coisas que podemos fazer. Por exemplo? Podemos ministrar formação, integrar mais as famílias que tiverem maiores problemas, pais e filhos, avós e netos, famílias que estejam em maior risco. A formação sempre ocupa, o que é bom, em vez de as pessoas passarem horas no café, a beberem vinho ou cerveja, ou a fazerem outros disparates, e estar a aprender alguma coisa é sempre útil. E já estão a desenvolver contactos? Temos já parcerias anteriores com o Centro de Emprego e que vamos continuar a desenvolver, mas há outras parcerias possíveis que neste momento estão em fase de pré-negociação. Além da actividade expositiva, desenvolvem outras, como o teatro ou a música? Temos actividades de música, concertos, vamos também organizar “workshops” (neste momento está a decorrer um de fotografia), temos artistas residentes a desenvolver trabalho que, no final, poderá (ou não) ser exposto, e há outras modalidades que estamos a tentar desenvolver, mas que não divulgamos por enquanto porque ainda não são certas. E de que tipo? Dentro da cultura contemporânea, aliás, tudo o que fazemos tem a ver com a cultura e o pensamento contemporâneos. É isso que permite abrir a sensibilidade em relação ao mundo que existe. Como é que vê o futuro do Museu? Os primeiros cinco anos de qualquer equipamento deste género não são fáceis. A partir daí, ou está montada uma estrutura financeira que consiga suportar a instituição, ou então terá que se repensar o projecto. O meu objectivo é tornar viável a Fundação, construir essa estrutura financeira, para não haver dependências nem do município, nem dos ministérios, nem de outra entidade. Isto tem que ser visto, não como há dez anos se via uma instituição museológica, mas como uma empresa específica que tem produtos culturais e serviços para oferecer, num contexto onde o poder de compra não é muito grande. Acha possível desenvolver uma actividade autónoma sem apoio estatal e camarário? Não, mas poderemos ter muitos apoios diferenciados, o que não faz a dependência de nenhum deles. Gostaria que a instituição dependesse não de um apoio, mas de um conjunto, de modo a que, se faltar um, não põe em causa o normal funcionamento. * Entrevista parcialmente publicada na revista NS (suplemento de sábado do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias) de 31 de Maio ** Museo Estremeño e Iberoamericano de Arte Contemporaneo |