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06-Jan-2009
Nó de neurónio! | Maldizer PDF Imprimir e-mail

By Vera Chi Lo Sa, on 03-07-2008 15:21

Pronto, pronto, já se me deu o nó... A minha krida mãezinha bem que me avisou para eu não maçar muito a cabecinha com coisas difíceis, que não nasci para pensar muito, mas que hei-de eu fazer, é uma tendência natural, tão natural como ser loira. Esforcei-me demais, foi o que foi e o meu neurónio pifou, baralhou-se, crashou-se todo, coitadinho!

Nem imaginam quanto me custa este último esforço. Faço ele na louca esperança de que me possam ajudar a desatar o nó que me desce da cabeça à garganta e volta a subir e a descer. Vai por mim toda uma vontade de desatar aos gritos e... e mais não digo.

O que me pôs neste estado de desgraça? Bem, eu conto.

Partimos da premissa de que somos todos boas pessoas... Espera lá, isto das boas pessoas faz-me lembrar um ditado popular qualquer, mas este neurónio todo embrulhado não me deixa nem recordá-lo.

Onde ia eu? Nas “boas pessoas”. Bem, uma dessas boas pessoas, emparceirou-se com o Estado, que é uma pessoa de bem, e comprou um quadro em leilão. Só se sabe que a boa pessoa é um empresário português. Prefere o senhor empresário manter o anonimato, o que é uma decisão muito bonita e oportuna, quando anda cada qual a ver quem tem os bicos dos pés mais à maneira... É empresário, é português, é esperto e é mecenas, pois comprou esta semana num leilão, em Paris de França, o quadro “Súplica de D. Inês de Castro”, de Francisco Vieira, o Portuense (1765-1805), que foi com D Manuel II para o exílio e desapareceu na paisagem. Largou o nosso anónimo mecenas, logo ali, 210 mil euros pelo repatriamento.

O empresário, português e esperto, ou não gostou do que comprou, ou tem a casita em obras, ou não está para despesas com seguros e segurança ou sei lá eu mais que por outra qualquer razão, o certo é ter ido ao Museu Nacional de Arte Antiga com um “tome lá e pendure isto onde lhe der mais jeito!”. Dito de outra maneira, o anónimo ricaço entrou num acordo com o Ministério da Cultura e a obra-prima de Francisco Vieira ficará exposta no dito museu durante um ano. E durante um ano o Estado poderá reunir os meios necessários para lha comprar – e sem aumento de preço. Foi aqui que começou a dar uma coisa má ao meu neurónio. Enroscou-se-me todo e estalou como uma pastilha elástica.

O Excelentíssimo Senhor ministro da Cultura, D. José António Pinnto y Ribeiro, já referiu, com elogios, a eficácia desta parceria entre o Estado e um privado – muito privado mesmo, quer dizer, anónimo tal e qual – que permitiu adquirir-se em Paris uma peça considerada “de referência” pelo director do museu onde vai ficar, a prazo. O nosso senhor MC ainda adiantou que a Fundação Caixa Geral de Depósitos já manifestou a sua disponibilidade para, no prazo de um ano, comprar o “Suplício”, permitindo que continue exposto nas Janelas Verdes.

Já entenderam porque o meu neurónio está como está? E espera agora nas urgências do Júlio de Matos. Se me ajudarem a compreender os fundos desta cena, palavra donde deriva outra, encenação, tenho esperanças de que recupere…

Vou continuar a falar de boas pessoas. O senhor director-geral das Artes, Jorge Barreto Xavier, nomeação de Sua Excelência o nosso MC de serviço, vai avançar com a proposta da alteração de algumas regras do actual modelo de apoio estatal às artes, a ser aplicada nos concursos de 2009. A intenção, disse, é "alterar as questões mais críticas para melhorar o acesso aos apoios, tornando-o mais equitativo aos artistas de todas as áreas". Se as boas pessoas que trabalham para estas duas excelentes pessoas fizerem horas extraordinárias, na melhor das hipóteses os subsídios às artes do ano da graça de 2009 chegarão aos destinos entre Março e Abril do próximo ano e duram até Setembro ou Outubro. Seis meses! Como é sabido as próximas eleições legislativas serão entre Setembro e Outubro de 2009.

Não é caso para alarmes. Nada de novo sob este sol de torresmos… Lembro que o mesmo “novo modelo” da minha kriducha e muito cultural ex-ministra, Zabelinha Pires de Lima, acabou por estar em vigor apenas durante 2007 e para os apoios anuais. Não chegou a ser aplicado aos apoios a dois e a quatro anos, contratos que terminam em 2008.

Ai-ai! E eu que só queria desembrulhar o meu nó de neurónio e agora já nem lhe encontro a ponta!


   

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