| By Nuno Cunha*,
on 08-07-2008 01:53
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“Uma reflexão teórica” está na base das obras de Avelino Sá. “Arqueologias” é o seu último projecto, primeiro exposto no Museu Amadeu de Sousa Cardoso, em Amarante, nesta altura patente na Galeria Fernando Santos no Porto, até ao dia 30 de Julho, e proximamente na mesma galeria, em Lisboa.
Ao iniciar o desenvolvimento de um projecto, donde parte e onde pesquisa? Eu tenho trabalhado à volta de vários projectos e quase todos partem de uma reflexão teórica. Procuro um tema, estudo-o e depois desenvolvo-o na prática, primeiro através de esboços e desenhos e, depois, passo-os para a encáustica. No caso concreto desta exposição, eu pretendi que fosse uma reflexão acerca do conhecimento humano e tem muito a ver com a viagem. Este projecto resultou de um estudo feito através da Ilíada, da cultura clássica e também de uma viagem à Grécia. No fundo, trata-se de uma viagem da memória, através do tempo, rumo a uma origem e, daí, o nome “Arqueologia”. Foi à Grécia para estudar e desenvolver o tema, ou este surgiu na sequência da viagem? O tema surgiu depois da viagem. Foi uma atracção, aliás, na sequência da tradução da Ilíada por Frederico Lourenço. Envolvi-me de tal modo e fiquei tão fascinado que tive vontade de visitar os sítios. O ideal era ter ido a Tróia, à Turquia, mas não foi possível e fiquei por Atenas, Peloponeso e os locais que me interessavam, e fiquei fascinado. Paralelamente, há outro interesse que se reflecte no que eu faço: a escrita. Daí que este trabalho também tenha tido uma origem no Homero, mas depois quis fazer um contraponto com a actualidade. Gosto muito dos poemas do Kavafis, um poeta alexandrino, e nesta exposição aparecem algumas referências ao seu trabalho. Eu, aliás, destaquei um excerto de um poema, Ítaca, que diz “quando saíres a caminho da ida para Ítaca, faz votos para que seja longo o caminho, cheio de aventuras, cheio de conhecimentos”. No texto de Miguel von Hafe Perez “a encáustica representa a possibilidade de oscilar entre a pintura, o desenho e a escultura”. Quando pensa o seu trabalho, pensa-o mais como traço, como volume ou como mancha? Em termos de linguagem plástica, se calhar penso-o mais como linha, como desenho. A técnica de encáustica que eu desenvolvo, é formada por uma camada de cera branca onde faço o desenho com estilete. Aliás, esta técnica era usada pelos gregos. As primeiras escritas eram feitas em tábuas cobertas de cera e, com estilete, faziam incisões. Sobre a cerca eu faço linhas e manchas e resulta muito através da textura e de linhas. Depois é coberto com cera preta e raspado milímetro a milímetro até obter novamente o desenho do preto que ficou encastrado nos sulcos da cera branca. Se virmos o processo, trabalha-se quase como uma escultura: há incisões com instrumentos duros, quase de escultor e o resultado oscila entre a escultura e a pintura, embora visualmente seja semelhante ao desenho e à gravura. Trabalha sempre temas clássicos? Não. Eu ando à volta de alguns clássicos, mas tenho também alguns trabalhos sobre a poesia de Paul Celan, que morreu nos anos 70, e também de alguns poetas orientais. Ainda no texto de von Hafe é referida uma trilogia de “busca/passagem/perda”. Esta trilogia refere-se concretamente a quê? Ele realmente refere este três conceitos e eu penso que ele se refere a uma procura de um tema, uma passagem feita a partir dessa busca e uma perda que vem do facto de o trabalho não se esgotar ali. É uma perda, mas também uma recuperação, através de um evoluir conferido pelo que faço. Como é que pensa o público e a comunicação? Enquanto estou a desenvolver um projecto não penso no público. O sentido da questão tem mais a ver com a comunicação. Que pontes de comunicação tem, como é que as pensa e como as desenvolve? Quando me surge uma determinada temática e quero desenvolvê-la, primeiro sinto uma necessidade de a conhecer, de a esmiuçar, de procurar e isto é feito no meu mundo. É evidente que quando faço os meus trabalhos, não os faço só para mim, mas todos os criadores, penso, trabalham para si porque é uma necessidade intrínseca a essa procura de conhecimento e estes meus projectos reflectem um pouco isso. Há também uma necessidade de mostrar e que as pessoas recebam alguma coisa quando vão ver o trabalho. Eu procuro criar informação sobre a obra, quase todos têm títulos e há pistas que apoiam o espectador a penetrar na obra, mas não me interessa que a obra seja muito directa. * Entrevista publicada na revista NS (suplemento de sábado do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias) |