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06-Jan-2009
“Posso perder a carreira, mas não entro” | Luísa Cunha na Lisboa20 PDF Imprimir e-mail

By Nuno Cunha*, on 08-07-2008 19:01


  Luísa Cunha surge na arte contemporânea de modo pouco canónico, imprevisível ou “atípica”, como a considerou Miguel Wandschneider por ocasião da exposição de Serralves. Trouxe-nos também uma obra inesperada.

Entrou tardiamente no panorama artístico, manteve-se de forma muita discreta durante algum tempo e surge há alguns anos como incontornável na arte em Portugal.

Nesta altura está a decorrer na Lisboa 20 Arte Contemporânea até ao dia 12 de Julho a mostra intitulada “Oh!”.

Quais são as principais questões que levanta com a sua obra?

Eu nunca sei especificamente o que me interessa. Não tenho metas. Tenho simplesmente um olhar muito treinado e o acto de observar está na base de todo o meu trabalho. É uma atenção muito grande, uma focagem sobre o que se passa à minha volta, a todos os níveis e não apenas ao do objecto, incluindo o nível político.

Nada aparece explicitamente no meu trabalho – eu não gosto de explicitar coisas – e, portanto, tudo o que sinto, tudo o que se passa à minha volta, todo aquilo que são espaços onde entro, situações até de revolta que não posso e não quero exprimi-las de forma narrativa, transformo-as. Toco nos assuntos, mas deixo-os em aberto, muitas vezes através da linguagem ou da imagem, mas não o faço de forma intencional. Eles ficam porque eu, por natureza, sou assim.

 Há trabalhos que têm alguma conotação, mesmo política, de poder, de jogo das palavras e de desconstrução do poder, em várias obras e algumas, até, performativas e fortes.

Para além das questões que se relacionam com o poder, há outros elementos de comunicação no seu trabalho.

Exactamente.

Mas quando desenvolve um trabalho, há concerteza uma determinada intencionalidade. Quais as principais questões que a motivam ou que estão subjacentes?

Dou-lhe um exemplo. Nesta exposição da Lisboa20, que se chama “Oh!”, trato da memória, por exemplo, sobre o percorrer de espaços, tornando o andar praticamente autónomo do espaço onde se insere, autonomizando a figura e o pensamento.

Interessa-me trabalhar a memória, mas não da forma corrente, como no trabalho que eu chamo “fotografia de mulher de 52 anos aos 2 anos sentada num banco de jardim de jornal aberto na mão e apontando para a letra O” - e isto é uma impressão digital – e em que os nove elementos deste trabalho começam por “fotografia de mulher de 52 anos aos 2 anos” e só depois o resto é que muda, com as dimensões que têm, saem completamente fora daquele coisinha íntima formada pelos albunzinhos.

Tudo o que possa ter alguma ligação, eu afasto através do aumento da imagem ou do suporte que originalmente poderia ter. Neste trabalho passou a não ter suporte nenhum, a não ser texto, com recurso à repetição como se eu quisesse apreciar tudo de todos os lados e várias vezes.

Como vê e como pensa a poética no seu trabalho?

O meu trabalho é muito sintético. É um trabalho aberto exactamente pela síntese muito grande de todas as minhas frases e é também por isso que utilizo muitas vezes a língua inglesa, que é a mais sintética de todas e a que comunica mais.

Todo o meu pensamento é sintético e o meu discurso é formado por frases curtas, um olhar quase fotográfico, aliás, diria que é mesmo fotográfico e a minha linguagem é fotográfica. Não admira por isso a minha passagem pela fotografia e a fotografia com texto. Há até obras sonoras que foram descritas pelo Julião Sarmento como obras sonoras que são flashes fotográficos.

Demasiadas palavras e demasiada luz sobre qualquer assunto ou preocupação é desvendar demais. É óbvio demais e retira todo o interesse. Desta forma torna-se poético, de facto.

 Pensa que no seu trabalho a narrativa está menos presente?

Há narrativas que são muito poéticas.

Eu tenho um texto longo que foi para a Bienal de Sidney e este na exposição do Chiado 8, que é o texto maior que eu tenho. Essa narrativa é muito poética.

Qual é a importância do público para si?

Eu gosto de ter público. É só isso.

Na concepção e na execução da obra eu não me lembro de ninguém. Depois de afino-a pondo-me como espectadora da minha própria obra.

Mas gosto muito de ter público.

E procura ter no seu trabalho uma primeira leitura, mais simples, que facilite o acesso do olhar, ou não se preocupa com isso?

Não chega a ser uma preocupação, sai assim. O que eu tenho para dizer e transmitir terá de ter uma determinada forma, e quando chego a ela eu sei que já está. Tenho de ir desbastando a palavra ou o som até chegar aí, mas durante a execução não pretendo nada, não há um objectivo.

O público, para mim, é puro prazer.

Pensa no público só na fase de fruição da obra?

Exactamente. Eu própria torno-me depois público.

O som no seu trabalho é pensado como desenho, volume, espaço, cor, texto ou apenas como som?

O som funciona como um monólogo, como se eu falasse para mim. É um eco dos meus pensamentos.

A sua obra tem muito a ver com o quotidiano e menos com o objecto, ou também se detém sobre o objecto?

Tenho de facto alguns textos políticos sem o serem de forma óbvia.

Essas atitudes normalmente tomo-as recusando convites. Recusei, por exemplo, os convites para o Palácio de Belém e para a grande exposição do Parlamento. Toda a gente entrou. Isso eu corto liminarmente. Tudo o que eu veja que sirva para pendurar os artistas nas árvores para mostrar aos senhores da União Europeia, sem que haja apoio absolutamente nenhum, aliás, nem ligam nada, à cultura, aí sou radical.

Posso perder a carreira toda e ir para baixo da ponte, mas não entro.

* Entrevista publicada na revista NS (suplemento de sábado do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias)


   

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