| By Samuel Rama,
on 10-07-2008 02:35
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Samuel Rama expõe na Galeria 111 do Porto até ao final do mês, e na colectiva que inaugura no Museo de Arte Contemporaneo Union Fenosa, em A Coruña, no próximo dia 23. Neste artigo da sua autoria, ele arrisca uma "tradução possível, falível e sempre incompleta" das suas metáforas de transformação do tempo em espaço.
Numa tradução possível, falível e sempre incompleta entre o trabalho plástico e a linguagem verbal, três problemas que me interessam emergem com especial importância para o meu trabalho: tempo, paisagem e ligação com a terra. Eles são independentes dos meios usados, isto é, o primado não está nas categorias com que regularmente trabalho, escultura e fotografia, está antes nas concepções que as precedem. A preocupação com o tempo nasce de uma vocação escultórica para com as matérias simples da terra e da natureza, a moleza e gravidade da lama e a leveza do pó. Em Vontade, 2004, como em Fadiga de estruturas, 2005, está implicado o trabalho directo com a matéria para a construção de intervenções de carácter escultórico que configuram instalações, encenando dramas geológicos num modo paisagístico sem foco único e que tendem a ocupar todo o espaço disponível da arquitectura da sala. Configuram respectivamente possibilidades de percursos meditativos ou ainda, e no caso de Fadiga de estruturas, como força bloqueadora de certas possibilidades de circulação frustrando assim expectativas. Em ambas o tempo é transformado em espaço de um modo literal, a sucessividade dá lugar à simultaneidade, que é o modelo usado para pensar o espaço, através de um gesto simples das mãos apreendido por todos desde a infância. Tanto em Vontade como em Fadiga de estruturas, é o demorado e silencioso cair da terra e da água que se espraiam no plano horizontal, para logo depois renegar as leis da gravidade no sentido ascendente e vertical, até atingir um limiar sempre precário e apenas possível da matéria. A transformação do tempo em espaço descrita por Hermann Broch e por A. Giacometti como fazendo parte do trabalho em arte, tomam outra materialização em Recolher o pó, 2005 e MAGMA, 2008. Nestes, respectivamente um banco de autocarro e cinco árvores de cipreste, guardam o pó de uma cor que não desbota com o tempo, a cor da argila é agora lançada pelo ar e captada pelo objecto. No primeiro, o banco de autocarro, o lugar onde se tinham observado paisagens toma-se macroscopicamente investido e portanto paisagem, monocromo. No segundo, as árvores de cipreste deitadas sobre o chão sucumbem à gravidade, perdem o seu vínculo com a verticalidade e o que antes era árvore agora passa a ser terra que tende a ser pulverizada pelo espaço expositivo. Em ambas a sua forma de exposição compreende o objecto, mas sobretudo o uso de barro fresco e pó que tendem a alargar o raio de acção informe do objecto para o chão e paredes da arquitectura. O uso da fotografia surge como vocação para subverter a escala, da vontade de construir uma imagem e manipular a espacialidade dos lugares, apresentados num “entre dois”, escala real/imaginária, real/artificial, luz/ausência de luz. É assim na série Habitar a penumbra, 2003, onde pequenas casas feitas de canas são construídas em lugares reais, cuja vocação é a de subverter a escala. Esta acção é intensificada pela aproximação da objectiva, as pequenas casas e a sua nova implantação paisagista são sempre fotografadas na alvorada ou no crepúsculo, pois dessa forma criam-se imagens carregadas de impossibilidades num espaço e tempo onde os contornos de esbatem. Mais recentemente em Árvore(s) Enquanto desejo de posse do desenho, 2005, e Dobrar a terra, 2007, a fotografia é usada para pensar respectivamente as questões do desenho e do verso e reverso da imagem da terra. Em ambas o espectador/observador é colocado num dinamismo activo para a leitura das imagens fotográficas, onde a árvore se vai revelando enquanto desenho e a terra enquanto superfície colorida e incandescente do tempo. Em suma, o tempo é transformado em espaço da terra e das mutações lentas e a problematização da natureza enquanto facto cultural levam à criação de lugares que ficam aquém ou para além da paisagem. |
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