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07-Jan-2009
A Alegoria da Luz | copy/paste PDF Imprimir e-mail

By Luís Pinheiro, on 14-07-2008 03:06


A performance apresentada por Sérgio Dias na "Pôr a par" multiplica os espaços de representação da obra e proporciona diferentes momentos de leitura, indo da encenação ao grito de morte.

“Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoço acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas. (…)

Sócrates – Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objectos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objectos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objectos que lhe mostram agora?”

(Alegoria da Caverna – Livro VII de “A República”, de Platão)

 Os elementos utilizados na construção do trabalho que Sérgio Dias apresentou na “Pôr a par” podem ser enumerados, mas à sua soma escapará a poética da obra, que transcende. O artista, a vela, a gaveta, o cobertor, a caixa-“vitrine”, a cana e o pavio que se consome, são peças de um edifício temporário que se apresenta em três momentos distintos1.

O primeiro momento do trabalho corresponde à encenação realizada por Sérgio Dias, que é um dos elementos da obra temporária. Para ele, o que fez “é uma escultura de activação, que exige a presença do meu corpo, (…) uma escultura que o corpo activa.”

Sérgio Dias começa por descarnar uma vela, retira-lhe a cera que cai para o interior de uma gaveta. Quando apenas resta o pavio na sua mão, coloca-o erecto no interior da gaveta, acende-o, e cobre este espaço interior com um cobertor. O pavio consome-se em chama apagada e o fumo passa através de uma metade de cana para um outro espaço, fechado, translúcido e reflexivo, diante do qual Sérgio Dias acende uma pequena vela. O segundo momento da obra.

O fumo e a vela que arde diante de si são agora corpo efémero, dotado da vida própria que o artista lhe transmitiu. Metáforas da vida, dos fenómenos e da realidade do mundo manifesto, desmontam peça a peça os edifícios construídos mentalmente, ao chamarem a atenção para o todo de que participam, em que o próprio acto não é distinto de qualquer outra matéria da obra.

O artista chama a atenção para as diferenças de percepção presentes nos fenómenos, os exteriores quando se olha para a vela que se consome, e os interiores quando se olha o fio de fumo em que se transformou temporariamente o pavio. Ambos ilusórios, por serem parciais2, e apenas verdadeiramente dotados de realidade quando vistos em conjunto.

O terceiro momento: o espaço entre as representações. A morte, que é o grito mudo da obra. Este adormecimento da matéria mais não é do que a preparação para nova acção, que se repetirá ciclicamente.

No trabalho apresentado pelo jovem artista estão assim vincados vários espaços e tempos. Num primeiro momento, o espaço definido pela sua actuação. Num segundo, os três espaços que a instalação compreende: a gaveta tapada, a “vitrine” para onde o fumo escorre e o espaço exterior, frontal a este, onde a vela arde. E, num terceiro, o espaço da sala em que a obra permanece adormecida, emitindo ténues sinais de presença.

Ao olhar as “caixas” e a vela apagada descortina-se uma acção passada e de contornos desconhecidos. A obra está impossibilitada de dialogar com o espectador, que apenas pode dedicar-se a fazer construções mentais com os elementos que vê e permanece, assim, na ignorância. Na verdade, só existe um presente “real” e “manifesto”: aquele em que o artista a activa a escultura em que se integra. Momentos fugazes, que escapam a quem estiver ausente3 aquando da sua manifestação.

 Sérgio Dias desmonta o carácter ilusório com que é comum a arte presentear o seu público, e consegue-o sem perda da poética no trabalho, pois que não se resume a uma mera apresentação intelectual. A performance é exigida pela própria natureza do trabalho e o seu papel, discreto, não centra em si as atenções. Sérgio Dias conduz o olhar do observador não para ocultar a realidade da obra mas para a revelar. As várias leituras possíveis não resultam, assim, de sugestões presentes no trabalho, mas da percepção directa da representação executada.

O artista reúne fragmentos, os elementos que formam a obra e acentuam o seu carácter transitório. O seu olhar compreende a realidade na qual se engloba e participa. Como ele próprio diz “quando estou a fazer o trabalho está tudo fora. Eu próprio estou fora e é o próprio trabalho que me quer”.

Sérgio Dias tem, assim, uma visão não fragmentada dos fenómenos. Os pedaços que formam o seu trabalho, dotados de poética, são metáforas de um todo que se pressente.

Há igualmente um lado teatral que Sérgio Dias introduz4 nos seus trabalhos. As esculturas que desenvolve, para além da relação directa com o espaço5 e com a acção6, sugerem sempre um duplo sentido pelo espaço que compreendem: o espaço de representação e os bastidores do mesmo. O artista mostra não só os resultados de um processo ou de uma acção, mas também as causas que o (a) originaram. Sérgio Dias revela, não esconde.

As velas7, elemento que se repete no seu trabalho, acentuam com a sua luz o lado duplo dos espaços que nos mostra.

 

Sérgio Dias (n. 1979, Lisboa) fez a Licenciatura de Design Industrial no IADE, Lisboa e o Curso Avançado de Artes Plásticas - Escultura no Ar.Co, Lisboa. Participou das exposições, "nascente" espaço Avenida, Lisboa (2008), "o zumbido das abelhas", moinho da ponte, Lavre (2006), "espada", Bartolomeu 5, Lisboa (2005).

1 Tal como na estrutura da narrativa clássica.

2 Olhar a vela ou olhar o fumo centram o olhar num dado objecto e limitam desejável leitura global na representação executada na obra.

3 Por não presenciar a performance do artista ou por não se aperceber do processo total que se apresenta.

4 Inconscientemente, pois concebe-os e entende-os como esculturas.

5 Instalação.

6 Performance.

7 Que são a fonte da luz presente nos seus trabalhos e fazem a distinção entre o espaço iluminado e o que permanece na obscuridade.


   

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