| By Luís Pinheiro,
on 14-07-2008 09:24
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“Tudo aquilo que faço está fora de mim, é o modo como vejo as coisas.” Quem as vê assim é Sérgio Dias, jovem artista que terminou os seus estudos na Ar.co e mostrou o que vê e como em recente intervenção no “Pôr a par” – Espaço Avenida, em Lisboa. Para ele uma chama “tem o valor de um parafuso ou de um risco de cola, que é preciso”.
– Há autores ou professores que tenha como referência? Ou está a desenvolver, por sua conta e risco, uma metodologia de trabalho própria e a explorar alguma linha ou direcção em particular? Há vários autores que me interessam, alguns dos quais é possível colocar ao lado do meu trabalho e estabelecer relação, mas esse meu trabalho já está a desenvolver-se por si só, após cinco anos de estudos no Ar.Co. Há autores que me influenciam, mesmo os que estão longe no tempo e têm um trabalho completamente diferente do que faço e gosto – Giacometti, Brancusi, Picasso, Duchamp, tantos… Relativamente ao trabalho apresentado no Espaço Avenida há influências de George Marey, a que Duchamp também recorreu, no “Nú descendo as escadas”. George Marey também tinha umas máquinas de fumo. O meu trabalho – se me colocar como observador – acaba por ter essas ligações. – A imagem e o questionar da realidade que nela se encontra presente é importante? É – além de outras coisas, que tento explorar o melhor que posso. O facto de utilizar a chama, a luminosidade… – Que se encontra presente nos dois trabalhos…. Olhando para história da arte, essa luz recorda-nos de imediato Rembrant que tem essa luminosidade cansada, morna. Mas isso vem depois… Para mim não existe qualquer hierarquia de materiais. O material, o objecto, é utilizado porque tem um conjunto de características que me permitem fazer aquilo que pretendo. Não é a vela, mais a chama, mais isto – é tudo. Portanto a chama tem o valor de um parafuso ou de um risco de cola, que é preciso. A peça da “Avenida” vem no desenvolvimento de um conjunto de trabalhos e em que crio dispositivos de retenção, apresentação, projecção de uma realização temporária. Aquela peça é criada numa superfície plana, sobre a qual reuni bocados de várias coisas: uma manta, um bocado de um móvel (a gaveta), um bocado de uma cana, um bocado de vela. Arranjei uma “vitrine” como contentor, juntei tudo para servir uma outra construção – uma construção que é uma escultura temporária. Aquela peça acaba por se dividir, pelo menos na apresentação. Há um primeiro momento em que mostro o pavio e a partir daí faço tudo para fazer uma construção. O que eu faço é descarnar uma vela, ficando com o pavio. O pavio coloco-o erecto, dentro de uma câmara fechada, onde ele se consome em chama apagada e, à medida que o pavio vai sendo consumido, produz fumo que vai sendo canalizado para aquela “vitrine” que funciona como contentor, como espaço de representação dessa tal realização temporária da escultura. – Faz alguma pesquisa teórica para fundamentar as relações entre a luz, a imagem e a representação efémera presentes no seu trabalho? Lemos e vemos muita coisa e é óbvio que vamos sendo moldados, mas quando estou a fazer o trabalho está tudo fora. Eu próprio estou fora. É o próprio trabalho que me quer. Portanto, a minha teoria vem da prática. – O seu trabalho não resulta então de questionamentos filosóficos ou outros e é mais uma construção resultante da manipulação directa dos materiais? Tudo aquilo que eu faço está fora de mim. É o modo como eu vejo as coisas. Não sou “eu” e “aquilo”, o trabalho, um prolongamento de mim. Aquilo é como eu vejo as coisas. Todo o meu trabalho está fora de mim. Tem muito a ver como se vê a própria realidade. – Os dois únicos trabalhos seus que vi foram o que apresentaste no Espaço Avenida e o da “Assírio & Alvim”. Que há mais? Tenho feito algumas coisas a nível escolar e participado em exposições colectivas e noutros eventos organizados pelo departamento de escultura do Ar.co. Este projecto da Assírio & Alvim é um trabalho conjunto entre o Departamento de Escultura e a própria Assírio, e foi desenvolvido pelo Francisco Tropa. Participei noutros, também dinamizados por ele., como o “Sim e Não”, por altura da exposição dos Anos 80, em Serralves. – O trabalho das cabanas? Sim, o das cabanas. – Vi essa exposição. Qual era a sua cabana? Era uma feita com ciprestes. De um lado estava coberta de galhos, do outro com ciprestes. Quando se descia a escada era logo a primeira e eu ficava de costas para a plateia. – Como pensa o seu trabalho? Vem de escultura, mas o que faz tem um carácter efémero, de instalação e de performance. Utiliza expressões com várias possibilidades de leitura. É sempre encarado como escultura. Aquela peça do Espaço Avenida é uma escultura de activação, que exige a presença do meu corpo. É uma escultura que o corpo activa. – Pode ter outro tipo de leituras… Sim, mas é uma escultura. – O seu trabalho também tem um lado teatral e de ilusionismo. Quando vi o do Espaço Avenida fez-me lembrar alguns dos primeiros trabalhos do Noronha da Costa… Vi uma exposição no CCB, há algum tempo, do Noronha da Costa e havia trabalhos muito interessantes. Aqueles que tinham o vidro fosco... Em relação ao ilusionismo, o facto de eu apresentar a peça como a apresento – ao mostrar exactamente como se faz – é mesmo para contrariar a ideia de ilusionismo. Eu mostro como se faz – não há ilusão alguma. Não há ali qualquer “magia”. Há mais poesia do que magia. – No trabalho da Assírio & Alvim não há ilusão? O outro trabalho é formado por dois contentores, duas latas. Precisava de dois contentores, um tem água – é um contentor de água. O outro é um contentor de luz – o que está em cima tem uma vela… – Pensei que estivesse em baixo. Vi a superfície da água e pareceu-me que a luz estava por baixo. Não. O contentor da água e tem um orifício, um óculo. O contentor de cima tem um orifício na base e a luz da chama passa. A linha de água faz a simetria. – Em termos de projectos para o futuro, tem alguns planos? Quero continuar a trabalhar. Estou a ver se consigo fazer uma exposição para o ano, e estou a trabalhar numa outra ainda para o final deste ano. – Voltando um pouco atrás. Em relação ao trabalho que fez para o espaço da Assírio & Alvim, sei que foi desenvolvido a partir de frases que um escritor forneceu a um ilustrador para um livro seu… Raymond Roussel é o autor de “Novas Impressões de África”. O escritor fez uma nota de encomenda, um conjunto de frases, que forneceu a um ilustrador em paradeiro desconhecido. Há registo das ilustrações, mas desconhece-se o paradeiro do ilustrador. Roussel influenciou Duchamp no que se refere ao jogo de linguagem que este faz. Cada um de nós recebeu a nota de encomenda – ou seja a frase – e com isso trabalhámos, isto é, fizemos uma imagem para essa exposição. – Qual era a sua frase? “Um astrónomo a afinar um telescópio e, se o céu estiver limpo, o telescópio deve estar direccionado para a lua cheia.” – Pelas ilustrações originais pareceu-me um livro do século XIX. É-o? Não penso que é do início do século XX. A “Fenda” tem esse livro e não sei se a Assírio & Alvim também o vai editar. Este livro é importantíssimo, pois sem ele a obra de Duchamp seria diferente. Ele “pegou” mesmo naquilo. Raymond Roussel, James Joyce e Fernando Pessoa eram os “gajos mais estranhos naquela altura”. Eram considerados os mais “outsiders”. E o Duchamp foi pegar neles. É uma maluquice. |