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07-Jan-2009
Desconstruir a ilusão | Entrevista a Sérgio Dias PDF Imprimir e-mail

By Luís Pinheiro, on 14-07-2008 09:24


 “Tudo aquilo que faço está fora de mim, é o modo como vejo as coisas.” Quem as vê assim é Sérgio Dias, jovem artista que terminou os seus estudos na Ar.co e mostrou o que vê e como em recente intervenção no “Pôr a par” – Espaço Avenida, em Lisboa. Para ele uma chama “tem o valor de um parafuso ou de um risco de cola, que é preciso”.

Há autores ou professores que tenha como referência? Ou está a desenvolver, por sua conta e risco, uma metodologia de trabalho própria e a explorar alguma linha ou direcção em particular?

Há vários autores que me interessam, alguns dos quais é possível colocar ao lado do meu trabalho e estabelecer relação, mas esse meu trabalho já está a desenvolver-se por si só, após cinco anos de estudos no Ar.Co. Há autores que me influenciam, mesmo os que estão longe no tempo e têm um trabalho completamente diferente do que faço e gosto – Giacometti, Brancusi, Picasso, Duchamp, tantos…

Relativamente ao trabalho apresentado no Espaço Avenida há influências de George Marey, a que Duchamp também recorreu, no “Nú descendo as escadas”. George Marey também tinha umas máquinas de fumo. O meu trabalho – se me colocar como observador – acaba por ter essas ligações.

A imagem e o questionar da realidade que nela se encontra presente é importante?

É  – além de outras coisas, que tento explorar o melhor que posso. O facto de utilizar a chama, a luminosidade…

Que se encontra presente nos dois trabalhos….

Olhando para história da arte, essa luz recorda-nos de imediato Rembrant que tem essa luminosidade cansada, morna. Mas isso vem depois…

Para mim não existe qualquer hierarquia de materiais. O material, o objecto, é utilizado porque tem um conjunto de características que me permitem fazer aquilo que pretendo.

Não é a vela, mais a chama, mais isto – é tudo. Portanto a chama tem o valor de um parafuso ou de um risco de cola, que é preciso.

A peça da “Avenida” vem no desenvolvimento de um conjunto de trabalhos e em que crio dispositivos de retenção, apresentação, projecção de uma realização temporária.

Aquela peça é criada numa superfície plana, sobre a qual reuni bocados de várias coisas: uma manta, um bocado de um móvel (a gaveta), um bocado de uma cana, um bocado de vela. Arranjei uma “vitrine” como contentor, juntei tudo para servir uma outra construção – uma construção que é uma escultura temporária.

Aquela peça acaba por se dividir, pelo menos na apresentação. Há um primeiro momento em que mostro o pavio e a partir daí faço tudo para fazer uma construção. O que eu faço é descarnar uma vela, ficando com o pavio. O pavio coloco-o erecto, dentro de uma câmara fechada, onde ele se consome em chama apagada e, à medida que o pavio vai sendo consumido, produz fumo que vai sendo canalizado para aquela “vitrine” que funciona como contentor, como espaço de representação dessa tal realização temporária da escultura.

Faz alguma pesquisa teórica para fundamentar as relações entre a luz, a imagem e a representação efémera presentes no seu trabalho?

Lemos e vemos muita coisa e é óbvio que vamos sendo moldados, mas quando estou a fazer o trabalho está tudo fora. Eu próprio estou fora. É o próprio trabalho que me quer. Portanto, a minha teoria vem da prática.

O seu trabalho não resulta então de questionamentos filosóficos ou outros e é mais uma construção resultante da manipulação directa dos materiais?

Tudo aquilo que eu faço está fora de mim. É o modo como eu vejo as coisas. Não sou “eu”  e “aquilo”, o trabalho, um prolongamento de mim. Aquilo é como eu vejo as coisas. Todo o meu trabalho está fora de mim. Tem muito a ver como se vê a própria realidade.

Os dois únicos trabalhos seus que vi foram o que apresentaste no Espaço Avenida e o da “Assírio & Alvim”. Que há mais?

Tenho feito algumas coisas a nível escolar e participado em exposições colectivas e noutros eventos organizados pelo departamento de escultura do Ar.co.

Este projecto da Assírio & Alvim é um trabalho conjunto entre o Departamento de Escultura e a própria Assírio, e foi desenvolvido pelo Francisco Tropa. Participei noutros, também dinamizados por ele., como o “Sim e Não”, por altura da exposição dos Anos 80, em Serralves.

O trabalho das cabanas?

Sim, o das cabanas.

Vi essa exposição. Qual era a sua cabana?

Era uma feita com ciprestes. De um lado estava coberta de galhos, do outro com ciprestes. Quando se descia a escada era logo a primeira e eu ficava de costas para a plateia.

Como pensa o seu trabalho? Vem de escultura, mas o que faz tem um carácter efémero, de instalação e de performance. Utiliza expressões com várias possibilidades de leitura.

É sempre encarado como escultura. Aquela peça do Espaço Avenida é uma escultura de activação, que exige a presença do meu corpo. É uma escultura que o corpo activa.

Pode ter outro tipo de leituras…

Sim, mas é uma escultura.

O seu trabalho também tem um lado teatral e de ilusionismo. Quando vi o do Espaço Avenida fez-me lembrar alguns dos primeiros trabalhos do Noronha da Costa…

Vi uma exposição no CCB, há algum tempo, do Noronha da Costa e havia trabalhos muito interessantes. Aqueles que tinham o vidro fosco... Em relação ao ilusionismo, o facto de eu apresentar a peça como a apresento – ao mostrar exactamente como se faz – é mesmo para contrariar a ideia de ilusionismo. Eu mostro como se faz – não há ilusão alguma. Não há ali qualquer “magia”. Há mais poesia do que magia.

No trabalho da Assírio & Alvim não há ilusão?

O outro trabalho é formado por dois contentores, duas latas. Precisava de dois contentores, um tem água – é um contentor de água. O outro é um contentor de luz – o que está em cima tem uma vela…

Pensei que estivesse em baixo. Vi a superfície da água e pareceu-me que a luz estava por baixo.

Não. O contentor da água e tem um orifício, um óculo. O contentor de cima tem um orifício na base e a luz da chama passa. A linha de água faz a simetria.

Em termos de projectos para o futuro, tem alguns planos?

Quero continuar a trabalhar. Estou a ver se consigo fazer uma exposição para o ano, e estou a trabalhar numa outra ainda para o final deste ano.

Voltando um pouco atrás. Em relação ao trabalho que fez para o espaço da Assírio & Alvim, sei que foi desenvolvido a partir de frases que um escritor forneceu a um ilustrador para um livro seu…

Raymond Roussel é o autor de “Novas Impressões de África”. O escritor fez uma nota de encomenda, um conjunto de frases, que forneceu a um ilustrador em paradeiro desconhecido. Há registo das ilustrações, mas desconhece-se o paradeiro do ilustrador.

Roussel influenciou  Duchamp no que se refere ao jogo de linguagem que este faz. Cada um de nós recebeu a nota de encomenda – ou seja a frase – e com isso trabalhámos, isto é, fizemos uma imagem para essa exposição.

Qual era a sua frase?

“Um astrónomo a afinar um telescópio e, se o céu estiver limpo, o telescópio deve estar direccionado para a lua cheia.”

Pelas ilustrações originais pareceu-me um livro do século XIX. É-o?

Não penso que é do início do século XX. A “Fenda” tem esse livro e não sei se a Assírio & Alvim também o vai editar. Este livro é importantíssimo, pois sem ele a obra de Duchamp seria diferente. Ele “pegou” mesmo naquilo.

Raymond Roussel, James Joyce e Fernando Pessoa eram os “gajos mais estranhos naquela altura”. Eram considerados os mais “outsiders”. E o Duchamp foi pegar neles. É uma maluquice.


   

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