| By Nuno Cunha*,
on 15-07-2008 14:56
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"Grafias de Cor" é o título da exposição de João Decq, a decorrer na Galeria Fonseca Macedo, em Ponta Delgada, até 13 de Setembro. João Decq apresenta uma série de obras de técnica mista, executadas com tintas serigráficas sobre papel Guarro e Arches, um desdobramento das suas obras anteriores a preto-e-branco, agora resolvidas com cor.
Normalmente, qual a sua metodologia para iniciar um determinado projecto? Relativamente às serigrafias? E aos anteriores também. Onde pesquisa ou como chega à ideia? O que me interessa é o processo, ou seja, o processo da revelação da cor, neste caso em papel. A questão que se me põe é o modo como o formato de um determinado objecto é condicionado pela cor e como a cor condiciona o próprio formato. Este é, aliás, o aspecto que me aproxima muito dos processos gráficos, que têm a ver com a ocupação pela mancha ou pela linha num determinado contexto, o que ultrapassa a noção de desenho e está mais próximo da escultura, porque passa pela ocupação do espaço. É isso que me interessa. No meu trabalho, a pertinência do que lá está em termos de imagem ou de ícon não é, nem por sombras, mais relevante do que a própria cor que o constitui. O que me interessa é a maneira como a cor ocupa o próprio papel.  A cor é a questão fulcral do seu trabalho? O aspecto importante relaciona-se com a forma como trabalho a cor em determinado contexto de formato. Se eu mudar de formato, para mim, dá-me muito trabalho. A imagem, por vezes, é-me quase indiferente. Há dois meses que só ando a fazer aviões. São aviões de papel e formas de aviões de papel. Tem a ver com triângulos e a ocupação da folha. Mas qual é o ponto de partida para um projecto, como chega à ideia? A minha ideia desenvolve-se à medida que a vou trabalhando. A maneira como trabalho os papéis implica uma noção de secagem e uma noção de triagem. Como se estivesse a pintar um carro, ou seja, dá-se um primário, espera-se que seque, mas essa espera é mesmo para poder aderir outra tinta. E nessa fase já desenvolveu um projecto que cumpre quando o passa ao papel? Já fiz o projecto se estiver a trabalhar dentro duma família de desenhos, o que às vezes acontece. Se eu estiver a trabalhar com base numa grelha, ela é descronstruída, o que resulta num trabalho em que as cores ou ficam atrás ou vem para primeiro plano, mas em termos de conceito ou pré-conceito, raramente o tenho. Normalmente tenho temas de famílias que vêm por tipos de trabalho. Por exemplo, hoje só trabalho com tapes, amanhã só com stenceis, depois só com raqueletes, a seguir só com pincel... A técnica aqui condiciona muito a forma, muito mais do que uma ideia definida à partida. Os aviões funcionaram como modelos? Sim, tem a ver com origamis, com dobragens. Eu normalmente faço modelos em papel tridimensionais, que são objectos dos quais eu possa tirar ideias, partindo de um jogo de sombras ou de uma forma, que eu utilizo para passar depois para a bidimensionalidade. São pontos de partida de interiorização da forma e não da forma em si. Parte sempre de maquetas em papel? É indiferente. A partir do momento em que lanço uma família de trabalhos, ela subsiste. Agora, há determinada família que chega aos aviões, que foi o caso desta. Daí para a frente é processual, são horas de atelier. É trabalho e não ideia. Penso antes e penso depois, mas no acto de pôr tinta, ponho tinta, simplesmente. Na sua relação com o público, quais os elementos comunicativos do seu trabalho? A cor? A forma? A cor para mim é uma novidade. Estive muitos anos afastado dela. Estive na linogravura e na serigrafia, mas como mancha, e no carvão. Trabalhava a materialidade do material – passe o pleonasmo – no acto de usar o carvão francês ou o italiano, se são cinzentos, castanhos ou pretos, dependendo da cor do minério. A introdução da cor trouxe uma evolução ao meu desenho, ele evoluiu, mas não deixa de ter modelos da resolução da forma do desenho que são semelhantes ao do papel. Vê-se o seguimento. Trabalha de uma forma muito intuitiva, no momento? Sem dúvida. Há muito de colagem no seu trabalho. Já se dedicou à colagem? Fiz e faço colagem. É um modo terapêutico de passar o tempo. * Entrevista publicada na revista NS, suplemento de sábado dos jornais DN e JN |