| By Lúcio Moura,
on 19-07-2008 11:45
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“Carmen Miranda”, de Joana Vasconcelos, é o mote do artigo de Lúcio Moura, que publicamos na íntegra. A obra é exposta a partir de hoje na Galeria Mário Sequeira, em Braga, integrada na colectiva “Shaping a Space II”, em que também participam Aaron Young, Atelier Van Lieshout, Banks Violette, Eugenio Ampudia, Gary Webb, Gavin Turk, Jaume Plensa, Joana Vasconcelos, Julian Opie, Thomas Helbig, Victoria Civera e Liam Gillick, até 15 de Outubro.
“Carmen Miranda” “Carmen Miranda” (2008), sandália de salto alto construída em escala ampliada1 com panelas e respectivas tampas, propõe-nos uma reflexão acerca da resposta da Mulher ao tratamento iníquo, entre os géneros, nas práticas quotidianas do mundo contemporâneo. A evolução do estatuto da Mulher nas sociedades contemporâneas ocidentais e a consequente alteração do seu papel nos domínios profissional e familiar provocaram a deslocação de algumas das coordenadas que orientaram, até a um passado relativamente recente, as dinâmicas políticas, sociais e económicas das comunidades ocidentais. Apesar das flagrantes transformações assinaladas, em especial aquelas que permitiram à Mulher ambicionar atingir uma educação plena e alcançar o direito de livre acesso a todas as profissões, ainda hoje a Mulher mantém exigentes responsabilidades nos planos doméstico e social. “Carmen Miranda” faz uso de dois símbolos paradigmáticos das práticas domésticas e sociais femininas; a panela e a sandália de salto alto resumem na perfeição esta dupla função assumida pela Mulher. Retratar tal realidade através da multiplicação de um desses objectos – a panela – até alcançar a forma do outro – sandália de salto alto –, implicou a ampliação da escala do último; resultado que celebra as conquistas da mulher e impõe a monumentalidade da escala como contraponto simbólico a estereótipos que sustentam uma visão social falocrática e patriarcal. Se recordarmos os títulos de dois trabalhos recentes da mesma série – “Cinderela” (2007) e “Dorothy” (2007) – encontraremos em comum, nas personagens referenciadas, a descoberta de que a luta para atingir as metas mais altas transcende as circunstâncias humildes da existência exterior, exigindo a transformação através de processos interiores. Já, neste caso, o trágico destino da figura homenageada no título – Carmen Miranda - acrescentará um novo sentido à obra. Convém relembrar que estas mesmas conquistas da Mulher, à semelhança de outras grandes transformações sociais, implicaram desequilíbrios e alterações nos modelos organizacionais, sobretudo ao nível da célula familiar, cujas consequências serão difíceis de determinar. 1 - 270 x 150 x 430 cm |
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