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29-Ago-2008
Entrevista com Samuel Rama | a transformação do tempo em espaço PDF Imprimir e-mail

By Nuno Cunha*, on 20-07-2008 09:53



Samuel Rama recorre a diversas soluções para a criação de metáforas de transformação do tempo em espaço. Isso constata-se na sua mostra “Magma”, na Galeria 111 do Porto até ao final do mês, e na colectiva que inaugura no Museo de Arte Contemporaneo Union Fenosa, em A Coruña, no próximo dia 23.

O seu trabalho refere-se ao tempo e à transformação do tempo em espaço, à paisagem e à ligação com a terra. Como é que trabalha o tempo e a sua transformação em espaço?

Há várias formas de ver o tempo e a maneira que eu tenho para o ver é a partir da escultura, da fotografia ou das artes plásticas. Não alinho com pensamentos filosóficos, embora isso me interesse.

O tempo é sucessividade e o espaço, simultaniedade.

Na minha obra isso torna-se bastante visível. No trabalho que fiz em areia, na Gulbenkian, era quase literal a transformação do tempo em espaço.

 De que maneira?

Consistia em pegar em areia e água, como as crianças fazem na praia, e na construção de uma estrutura ambígua, que ocupa um espaço arquitectónico, cria outras relações e outros modos de uso com esse espaço.

O mesmo acontece utilizando outros materiais e reflectindo outras preocupações nesta exposição que está agora no Porto, na Galeria 111, em que o tempo se transforma em espaço através do pó. O pó é uma imagem do tempo.

Dentro deste tema, o que mais me interessa é o tempo geológico, o tempo das mutações lentas da Natureza. Interessa-me mais a permanência, o que fica, do que o instante. Até mesmo quando utilizo a fotografia, que é a arte do instante, faço-o com instantes muito alargados. Não tenho nenhuma com menos de 30 segundos de exposição e tenho algumas que chegam a ter horas.

Outra das questões que levanta é a paisagem.

A paisagem é um dos temas de eleição desde a Renascença. É quase um equivalente do retrato. Eu não tenho retratos no meu trabalho e a paisagem surge como um campo de projecção, onde também há desenho. Eu desenhei por cima da primeira imagem obtida, a negativo, e depois imprimi. A própria paisagem é desenho, é uma aproximação à escultura, a procura do vazio, a identificação dos lugares do abandono e é também a sua própria capacidade de nos fazer circular no pensamento e no olhar.

 A paisagem prende-se com o outro ponto que refere: a ligação com a terra. Essa importância tem a ver com as suas origens ou apenas com o trabalho?

Penso que há essa ligação. Os primeiros trabalhos que fiz procuraram partir de certas experiências da infância e hoje há um certo mecanismo de aferição sensível que vem daí.

Pesquisa mesmo no campo? Vai mesmo ao campo quando está a desenvolver um projecto?

Sim. Todos os dias fotografo. Trago sempre comigo uma pá e vou para locais abandonados. Aí esculpo, fotografo,...

Esculpe a própria terra?

Sim. As fotografias que estão na 111, muitas delas documentam ou estruturas que existem e eu assumi como esculturas, ou peças que eu construí no lugar e depois fotografei.

E faz aí o que refere como encenação de dramas geológicos?

A designação de drama geológico vem um pouco daquilo que fiz na exposição da Gulbenkian e que era confinar num espaço com uma dada proporção qualquer coisa que ultrapassava essa proporção, pela quantidade de detalhe existente. Pela capacidade que as estruturas criadas tinham de subverter a escala, o espectador mergulhava num outro modo de pensar o espaço e o tempo.

Há ainda uma outra preocupação. Hoje tendemos a não ver a terra, nem o céu. Se as juntarmos e pensarmos ontologicamente nas duas, verificamos que foram afastadas do nosso tempo. As cidades tendem a escondê-las.

A terra é hoje esquecida. Exploramo-la até ao limite, até ficar completamente exaurida. Os espaços que eu procuro são precisamente esses onde se levou a exploração até ao limite: pedreiras, minas abandonadas, estaleiros. O Nietzsche dizia que não se pode blasfemar contra a terra e o meu trabalho transmite qualquer coisa desta ordem.

Tem portanto uma mensagem política no seu trabalho?

Penso que sim, mas não é directa. Eu não pretendo transformar a minha arte em algo de panfletário ou que esteja ligado a pressupostos políticos. Eles existem, mas naturalmente. Não é meu objectivo passar uma mensagem política.

* Publicado na revista Notícias Sábado (suplemento do DN e do JN)
   

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