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29-Ago-2008
“Desnorte” de Susana Anágua PDF Imprimir e-mail

By Leonor Nazaré, on 20-07-2008 21:19



Susana Anágua expõe o projecto “Desnorte” na sala de exposições temporárias do CAM da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, até 26 de Outubro. Sobre a mostra publica-se a seguir o texto da comissária Leonor Nazaré.

Ideias como a da perda de referências espaciais e a do esforço da sua recuperação estão na origem da proposta artística de Susana Anágua.

Num dos vídeos assistimos à experiência de um insecto em tentativa de reconhecimento de um espaço inóspito – uma folha branca – e em busca do seu caminho para a Natureza. Num outro vídeo, o radar do aeroporto de Lisboa roda ininterruptamente sinalizando e procurando coordenadas. Numa terceira obra, um grande painel de bússolas confunde o espectador: um campo magnético de ímanes artificiais sujeita os ponteiros a movimentos descontrolados, fazendo-os perder a sua funcionalidade e exibir essa transgressão da lei magnética polar.

 As forças invisíveis e das quais tomamos consciência a partir de efeitos visíveis sempre foram objecto de reflexão e apropriação na sua obra. O magnetismo, o peso, a deslocação, a concentração, a circularidade, a irradiação tornaram-se realidades exploráveis sob a forma de propostas escultóricas ou videográficas, em que, como explica, o humano é referido “na analogia com conceitos da física que podem ser associados a ideias e lógicas comportamentais e sociais”.

Na verdade, a Susana Anágua agradam os fenómenos físicos que estão entre a manifestação e a dissipação, ou no limiar da desmaterialização apesar da sua capacidade mobilizadora. As realidades físicas da demarcação, captação e circulação vitais informam em permanência o seu imaginário. Desnorte inscreve-se nesse território, na medida em que se acerca da noção de orientação espacial, ou da sua ausência, em função de campos magnéticos, da detecção e telemetria pelo rádio (radar) e de contextos biológicos.

Um plano fixo e ininterrupto dos movimentos do radar do aeroporto de Lisboa acolhe-nos à entrada, num primeiro vídeo.  A fluorescência de centenas de ponteiros de bússolas que vemos na escuridão da sala do CAM e, sobretudo, a total inutilização da sua função  pelos magnetes que os desviam e descontrolam por trás do painel obrigam-nos a uma percepção física, concreta e exacerbada do fenómeno do magnetismo, ou sobretudo do seu colapso.

O desequilíbrio não será, de uma forma geral, a quebra da polaridade? Da sua omnipresente função de complementaridade? Não poderá a desorientação humana ser lida à luz deste dado físico e estrutural muito elementar?

 O Norte pode ainda tornar-se lugar de efabulação, de radicalização, hipótese de trajecto na procura de si e por isso congrega tão facilmente questões relacionadas tanto com o norte geográfico como com o norte magnético, uma vez que este último nos remete para a questão da orientação.

Numa entrevista publicada pela revista ARQ./A, Susana Anágua diz logo no início que é levada a associar, por analogia, conceitos da física a ideias e lógicas comportamentais sociais”. E que, por exemplo, quando utilizou 600 bússolas reunidas numa caixa metálica numa obra recente que está na origem do painel agora apresentado, “cada bússola funcionava como metáfora de um sujeito.  Cada uma seria um indivíduo preso num sistema de orientação espacial circular que, perdido numa multidão, não consegue achar o seu norte, ou seja o seu caminho”.

Mais adiante, a propósito de um trabalho exposto na última FAC de Lisboa, afirma que lhe interessaram as energias produzidas através de fenómenos naturais nos campos dos geradores eólicos e que daí partiu para um conceito de “catástrofe romântica, pelo qual a Natureza e o Homem medem forças energéticas, num braço de ferro entre dois”.

No vídeo Geometer, um braço de ferro muito desigual se estabeleceu entre o ser humano e um pequeno insecto. Susana Anágua manteve, durante algumas horas, na superfície de uma folha branca, a larva conhecida por Geometer (por ter um curioso meio de locomoção que parece medir o território) e filmou os seus movimentos. Sem Natureza nem pontos de referência, o bicho caminhou perdido e desamparado, desprovido de lógica espacial.

 O desnorte é uma experiência, ela própria, não polar. Para se referir a ela, a artista convocou várias realidades espaciais da manutenção e da quebra do equilíbrio, que o designemos polar ou apenas, genericamente, natural e humano.

Susana Anágua (n.1976, Torres Vedras) vive e trabalha em Lisboa.A artista fez o Curso Avançado do Centro de Arte e Comunicação Visual Ar.Co, Lisboa (1995-2000) e a Licenciatura em Artes Plásticas na Escola Superior Tecnológica, Gestão, Arte e Design (ESTGAD), Caldas da Rainha (1998-2004). Em 2003-2004 realiza Workshop de Documentário Audiovisual com Vasco Albergaria e Nuno Lisboa na ESAD, Caldas da Rainha. Susana Anágua expôs individualmente: “7 Maravilhas de Portugal” no Mosteiro da Batalha; “Natureza Mecânica, Episodio 3 -A Queda do Simulacro”, Project Room (comissariado pory Isabel Carlos), ArteLisboa 07; “Natureza Mecânica Episodio 2 – A desorientação, parte II”, Galeria Presença; “Natureza Mecânica, Episodio 2- A Desorientação, Galeria Presença; “Esferas”, Espaço de Cultura Material Contemporânea e Arte (CMCA).


   

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