| By Nicolau Coelho,
on 20-07-2008 22:00
|
A exposição de uma obra fotográfica numa barbearia de província ganha um sentido político, pelo carácter de fórum que estes estabelecimentos têm desempenhado até aos nossos dias. Luís Pinheiro patenteia uma obra relacionada com escravatura numa barbearia de Salvaterra de Magos - o Cabeleiro de Homens Custódio Gomes - de 21 de Julho a 6 de Setembro. A seguir publicamos o texto de Nicolau Coelho sobre a obra, em distribuição pelos candidatos ao corte de cabelo.
Uma leitura pela ausência Uma expressão é composta de elementos, como vocábulos, que se relacionam de acordo com regras, construindo um sentido. O mesmo se passa com a expressão plástica e a arte em geral. Como na poética literária, um sentido construído com elementos de estilo figurados permitem uma comunicação que ultrapassa a narrativa de um único sentido. A obra do Luís Pinheiro é uma proposta permanente de sentidos abertos, de desafios intencionais que conduzem o observador pelos labirintos da mente, da própria mente, mas por vezes também a do seu autor.
Neste trabalho sem título, o Luís propõe-nos o confronto com a apropriação da imagem de uma escravatura recente, usada na construção da civilização que vivemos, cortada por traços de ausência que tanto nos reporta para a ideia de prisão, a nossa ou a dos escravos, como para a da falta, ela também nossa ou a das personagens da fotografia. Os elementos constitutivos da narrativa de base que é a própria fotografia de que Luís Pinheiro se apropriou, tornam-se com a apropriação o próprio léxico do trabalho, que ganha sentido poético com as partes indissociáveis da obra: o local onde é exposta – determinada barbearia de província, próxima de uma das muitas rotundas que pululam no país - a sua composição em partes, em oito partes iguais, em transparência, instaladas num vidro do exterior do estabelecimento. O autor deixa os sentidos da obra abertos ao observador. Revelar um ou mais seria destruir a intencionalidade do seu autor. No extremo, seria a própria destruição da obra. Os sentidos ficam, assim, livres para o observador. |