| By Joana Neves,
on 21-07-2008 00:49
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“Trava-línguas” é uma exposição colectiva a decorrer até 31 de Julho na Vera Cortês-Agência de Arte, em Lisboa. A mostra que conta com os artistas Detanico & Lain , Alexander Gutke, Paul Harrison & John Wood, Ricardo Jacinto, Gyan Panchal, Diogo Pimentão e Mariana Saturnino, é comissariada por Joana Neves. Publica-se a seguir o texto da comissária.
O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem. Este conhecidíssimo trava-línguas associa várias noções temporais como o tempo psicológico, o tempo linear da narração, ou ainda o tempo mensurável - mas fascina sobretudo pelas suas aliterações, repetições e tautologias. A sedimentação de significados paradoxalmente resultante da diferente localização da mesma palavra suscita um ritmo e uma ficção que se apoderam do(s) sentido(s). A personificação do tempo em dois curiosos personagens num animado diálogo sobre a sua própria identidade e o ritmo da interrogação são o ponto de partida da proposta formal da exposição. A resposta reduzida à sua questão, revertendo para si-própria, infere um percurso com os seus métodos de inversão, os seus jogos conceptuais, e fornece uma plástica que pode ser aplicada a práticas formais. “Trava-línguas” propõe um jogo em que a a dupla, o código, as estruturas de manipulação lógica são pontos de partida, de percurso ou de chegada para as obras apresentadas. Os artistas selecionados não trabalham forçosamente com a linguagem, mas à margem dela, já que a premissa da proposta de “Trava-línguas” é a sua subjacência na elaboração das obras enquanto código, universo de passagem para a formalização plástica. Assim, a dupla e o seu diálogo formal, as questões da medida e do tempo estão presentes na obra de Paul Harrison & John Wood, mas também de Detanico & Lain. O substrato conceptual do trabalho de Alexander Gutke, de Diogo Pimentão e de Ricardo Jacinto leva o espectador a uma elaboração lógica que é parte intrínseca da obra. As esculturas de Gyan Panchal interrogam, através de propostas materiais, o suporte da linguagem enquanto código científico e urbano que informa a matéria. Sobretudo, os artistas convidados partilham um método de inversão das perspectivas, questionando a experiência do espaço e do tempo, com uma estética de apropriação de códigos e anotações esvaziados do seu sentido imediato ao deslocar, invertir, repetir, manipular segmentos do discurso e da apropriação do real. O vídeo ‘Night & day’ de Harrison & Wood, cria uma ilusão de passagem entre a noite e o dia, cujo aceleramento provoca um arrastamento temporal. Este paradoxo é provocado pelas situações encenadas, entre a escultura efémera e a presença do corpo dos artistas que com ela interage. Alexander Gutke apresenta duas obras em que a linguagem intercepta a percepção da cor e da paisagem, recriando-a. Detanico & Lain participam na exposição com obras que entrecruzam o desmembramento de códigos e a imagem. Gyan Panchal e Diogo Pimentão enveredam pela presença subreptícia de sistemas de comunicação ou de medida nas suas propostas formais. Ricardo Jacinto explora, por sua vez, a interpretação de um dado segmento através da sua repetição. |
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