| By Luís Pinheiro,
on 21-07-2008 18:21
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Conceição Abreu repete-se para se reencontrar. O corpo da sua obra vive-lhe fundo e dentro. Revela-se à superfície em gestos que executa repetidamente. Um rito só seu, de que resultam desenhos e esculturas. E o visível laça e lança novos questionamentos, a procurar resolver no futuro.
“Alice opened the door and found that it led into a small passage, not much larger than a rat-hole: she knelt down and looked along the passage into the loveliest garden you ever saw. How she longed to get out of that dark hall, and wander about among those beds of bright flowers and those cool fountains, but she could not even get her head though the doorway; `and even if my head would go through,' thought poor Alice, `it would be of very little use without my shoulders. Oh, how I wish I could shut up like a telescope! I think I could, if I only know how to begin.' For, you see, so many out-of-the-way things had happened lately, that Alice had begun to think that very few things indeed were really impossible.” (Lewis Carroll, Alice’s Adventures in Wonderland) Conceição Abreu expõe “Abrigos” na estufa circular da Tapada das Necessidades. A obra: um vestido de enormes dimensões, pendurado do centro da estrutura do tecto do edifício da estufa. O espaço que se oferece à observação está vedado e encontra-se em diálogo aberto e permanente com a realidade envolvente: a vegetação do jardim em que se situa. Nas palavras da artista: – “Eu tinha pensado num vestido ou num casaco com uma dimensão fora do normal, digamos assim, no sentido de ser um objecto em que pudesse pensar em “abrigo”. Em espanhol um “abrigo” é um “sobretudo”, é um casaco que se põe sobre todas as outras coisas, que protege do frio, do vento e das intempéries e que, para além disso, dá aconchego. Queria isso mesmo, mas numa dimensão considerável, que desse, de certa forma, a ideia que todos podem estar protegidos ou todos têm acesso a isso. Daí esta escala.” A obra insere-se com tanta naturalidade no espaço – circular e com uma abóbada esférica como telhado –, que é como se estivesse predestinada a habitá-lo. A porta exterior, gradeada, permite a observação mas impede a aproximação do espectador. O vestido – peça que normalmente protege o ser humano – encontra-se aqui, aparentemente, sob protecção do espaço. Conceição Abreu “queria um espaço que fosse protector e onde pudessem existir algumas trocas, portanto pareceu-me que uma estufa seria o sítio ideal.” A obra resguardada adquire um sentido sagrado, espiritual, torna-se objecto de culto, destinado a utilizações restritas. O observador pode até contornar todo o edifício e procurar uma pequena abertura que lhe permita a aproximação e o contacto com a peça que, por se manter tão perto e tão à distância, parece adquirir qualidades mágicas. As suas tentativas sair-lhe-ão goradas. A porta é uma só. E a outra abertura é a clarabóia ao alto, no topo da estrutura da cúpula, a que se chega subindo por uma escada exterior. A fragilidade da estrutura envidraçada da estufa, a altura a que se encontra a segunda possibilidade de chegar ao “abrigo” e a possibilidade de encontrar, também, esta entrada vedada, reduz/exclui esta outra forma de aproximação. Forçar a entrada? A paz e a serenidade que emanam da peça impedem a realização de qualquer violência. A aproximação física parece, assim, uma impossibilidade. Haverá uma aproximação e um contacto através de outros planos – que a obra evoca? Também aí com obstáculos e impedimentos? Certamente, mas de outra natureza. Em qualquer situação, o acesso ao “abrigo”, quer no que se refere a um entendimento pleno da intervenção da artista, quer ainda na aproximação “física” ao trabalho, implicam um certo grau de desenvolvimento por parte do observador. O vestido protegido em “Abrigos” é uma representação, por semelhança, ao que se denomina de Corpo-Alma, um veiculo etérico que permite deslocações em níveis mais subtis de existência. Este veículo constrói-se no desenvolvimento espiritual, através da prática do Serviço. O acesso, contacto e “uso” da peça de vestuário concebida por Conceição Abreu apenas se permite então aos que, pelo seu desenvolvimento individual, se consigam “deslocar” nestes planos de existência. Conceição Abreu “tece” as suas obras, nos gestos com que executa os desenhos e as esculturas (ninhos, mantas e vestido). “Tecer não significa somente predestinar (no plano antropológico) e reunir realidades diferentes (no plano cosmológico), mas também criar, fazer sair da sua própria substância, tal como o faz a aranha que tira de si própria a teia.” Acto mágico de natureza feminina, tecer permite à artista construir as suas obras em estreita relação com a sua realidade profunda. Os “fios” que Conceição Abreu utiliza ligam os vários planos em que se processa a existência. Nas palavras da artista: “Eu trabalho com linhas. No fundo o meu trabalho é uma construção de linhas, um gesto repetitivo.(…) Todo o gesto repetitivo resulta muito do esvaziar da pessoa que o faz, no que resulta uma comunhão… É um bocadinho difícil explicar isto mas o que eu penso é que ao diluir-se a pessoa entra em comunhão com o universal, com o infinito, e daí vêm naturalmente a ligação aos arquétipos (…). O lado simbólico no colectivo.” A obra, pelas características enunciadas, e o espaço em que esta se insere, pela sua configuração, tem o sentido de templo, habitação do espírito. A cada um caberá então a tarefa de conseguir descobrir a sua passagem de acesso a esta realidade e o necessário desenvolvimento de um corpo para nela se deslocar – o vestido que Conceição Abreu permite observar à distância. Retirado de Traité d´histoire des religions. A própria artista confirma esta assunção: “De alguma forma tudo passa por mim, eu trabalho muito de dentro – aliás a primeira exposição que fiz na Caroline chamei-a “Within”, que quer dizer dentro. Por isso, também valorizo muito a parte artesanal ou manual do meu trabalho, porque como é um trabalho que parte de mim, do meu fazer, de alguma maneira, quando é exposto leva uma memória do meu corpo e das minhas vivências.” |
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