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06-Jan-2009
O “Cachecol” de Conceição Abreu | Entrevista PDF Imprimir e-mail

By Luís Pinheiro, on 22-07-2008 22:07



Conceição Abreu, em entrevista a propósito da sua intervenção “Abrigos”, no Jardim da Tapada das Necessidades, conversou sobre uma obra sem fim nem princípio: a sua. Não se recorda como a começou, nem sabe quando ou se a irá acabar.É como um cachecol que se vai tecendo, puxando as linhas, por que sim…

O desenho é-lhe importante na forma como pensa os seus trabalhos?

O desenho acontece em paralelo com outras formas de expressão – seja escultura ou fotografia – que traduzem aquilo que quero transmitir. Tem uma importância igual a todas as outras formas. Não é preponderante.

 E a encenação?

Essa acho eu que é bastante importante, porque a encenação, a instalação, permite às peças – às coisas que forem mostradas – ter diversas leituras. Ou seja, que haja um envolvimento diferente das pessoas que o observam.

A encenação é evidente em “Abrigos”. O vestido está naquele espaço e há todo um cenário montado que o envolve e toda uma encenação que dirige o olhar para ele, obrigando a construir uma “história” à sua volta...

Sim, foi um trabalho pensado para aquele espaço específico. É uma coisa que eu gosto de fazer – trabalhar em locais diferentes e fazer trabalhos junto aos locais que escolho e descubro, principalmente jardins. Gosto muito de trabalhar sob o tema jardins.

Em relação ao vestido, o conceito com que ele foi desenvolvido tem a ver com os “abrigos”. Queria um espaço que fosse protector e onde pudessem existir algumas trocas, portanto pareceu-me que uma estufa seria o sítio ideal. Também tem a ver com o que sucede às pessoas que passam todos os dias no jardim perante um elemento diferente. De alguma maneira, são surpreendidas por uma situação que não existia antes. É uma chamada de atenção, digamos assim.

Já fez outras intervenções “site specific”?

 Espero fazer uma outra, brevemente, também num jardim.

No caso em concreto desta peça, o jardim foi escolhido ou…

Tinha pensado num vestido ou num casaco com uma dimensão fora do normal, digamos, no sentido de ser um objecto em que pudesse pensar em “abrigo”. Em espanhol um “abrigo” é um “sobretudo”, é um casaco que se põe sobre todas as outras coisas, que protege do frio, do vento e das intempéries e que, para além disso, dá aconchego. Eu queria isso mas numa dimensão considerável, que desse, de certa forma, a ideia que todos podem estar protegidos ou todos têm acesso a isso. Daí esta escala.

 A escala do trabalho é tão grande que tinha de estar num espaço em que se encaixasse. Também, como o vestido é de rendilhado, é um tricô de corda – rendilhado que já vem dos trabalhos anteriores expostos na Caroline Pagés –, tem a ver com a gaiola e, ao mesmo tempo, não tem. E também tem a ver com espaços exteriores. Procurei vários sítios e encontrei este que achei ser muito adequado para o que queria.

Neste trabalho – e também nos outros que faz, nos ninhos e nos desenhos – há evidentes aspectos simbólicos, ou relacionados com arquétipos. No caso da presente obra, no modo como foi executada, na forma, e no espaço em que se encontra exposta. Há aqui intencionalidade da sua parte?

 Não sei muito de simbologia. As coisas que eu faço são traduções, são resultados ou metáforas daquilo que penso, ou daquilo que sinto, ou das minhas vivências, das minhas referências, do que é particular e do que é colectivo. Portanto tem a ver com isso.

De alguma forma tudo passa por mim, trabalho muito de dentro – aliás a primeira exposição que fiz na Caroline chamei-a “Within” que quer dizer “dentro” – e por isso eu também valorizo muito a parte artesanal, ou manual, do meu trabalho porque, como é um trabalho que parte de mim, do meu fazer, de alguma maneira quando é exposto leva uma memória do meu corpo e das minhas  vivências.

Trabalho com linhas. No fundo, o meu trabalho é uma construção de linhas, um gesto repetitivo. Desde a Dança que faço muito isso. Eu venho da Dança. Todo o gesto repetitivo resulta muito do esvaziar da pessoa que o faz, do que resulta uma comunhão… É um bocadinho difícil explicar isto. O que eu penso é que, ao diluir-se, a pessoa entra em comunhão com o universal, com o infinito. E daí vem, naturalmente, a ligação aos arquétipos de que estava a falar. O lado simbólico, no colectivo.

Talvez seja por isso que sente que o meu trabalho tem uma parte simbólica.

Do que referiu em relação à Dança – os gestos que se repetem… Talvez esteja aí a origem do “desenho” que se encontra no seu trabalho, e que parte da própria forma como o executa.

Eu acho que tem muito. Tem muito a ver com o corpo.

Como é que pensa o seu trabalho? Quais os pontos de partida e como se processam o seu desenvolvimento? Qual é a sua metodologia?

Sinceramente, não sei onde começou. Sei é que não para nunca. O meu trabalho parte de trabalhos. Eu não termino um trabalho e começo outro. O meu trabalho é recessivo. No outro dia, estava a dizer-lhe que é como um cachecol que não se termina nunca, ou seja, eu vou sempre tecendo, vou sempre puxando os fios. É muito isso. Eu vou sempre  puxando os fios.

Onde ele começou não sei. E onde ele vai acabar, acho que não acaba.

O meu trabalho tem a ver com as minhas coisas, com as minhas vivências, a referência à vida, o particular e o colectivo… Tem a ver com a luz e com as sombras, com as paixões, com os esconderijos, com os limites. Olhe com os “abrigos”.

Não lhe sei dizer concretamente onde é que começa.

O que faz tem raízes profundas e que se prendem com a sua natureza íntima. Procura descobrir-se através do seu trabalho? É esta uma questão importante para si?

Sim, suponho que sim.

O seu trabalho, na forma como o executa e pensa, é assim mais uma descoberta do que uma reflexão sobre o exterior?

Não, porque também há uma relação com o mundo exterior. Tem a ver comigo, por isso é que lhe falei do particular e do colectivo, as pessoas não vivem sozinhas, e com a minha relação com o mundo. O resultado prende-se com a minha natureza profunda, como lhe dizia há pouco, mas também com todas as trocas e relações que eu tenho com o mundo. Tem a ver com o facto de eu viver agora, nesta altura, e não no passado nem no futuro. Tem a ver com a minha extensão e com as minhas respostas, as minhas trocas e as minhas vivências, com a vida actual e com o mundo.

Qual a importância da poética – no que se refere à expansão de significados – no seu trabalho?

O que eu gostaria – não sei se corresponde ao resultado – é que o meu trabalho fosse aberto e que as pessoas pudessem relacionar-se com ele de uma forma diversa, ou seja, não ser um trabalho fechado e apenas com um sentido ou significado. Pretendo que seja uma obra aberta, que toque cada um segundo as suas vivências e as suas preocupações. Isso é querer muito, mas é para aí que eu quero caminhar.


   

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