| By Vera Chi Lo Sa,
on 24-07-2008 11:50
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A mim nunca me enganou ele. Não sei muito bem porquê, logo desde o principiozinho me cheirou a queimado de fundo de tacho, apesar daquele sonso arzinho monacal em falta de ginásio, do cabelo penteado para trás, do gesto medido e delicado, da palavra pensada e repensada até não querer dizer nada se dita, de tantas as interpretações possíveis. Tudo aquilo não passava de fachada, como o fato e gravata “impec” e sapatinho condicente. O que tínhamos ali era um homem de ferro, duro, intransigente e intransitável, napoleónico, estalinístico mesmo e com uma grande mas controlada pinta do actual neo-guevarismo latino-americano. Os olhos da “Câmara Clara”, de longe os mais lindos de Portugal – depois dos meus, tão mais azul-turquesa – abriram uma brecha no seu repensado programa de festas? Só pode. Porque ele não se conteve e desabotoou-se todo numa única frase, ali dita, gravada, transmitida e ouvida “urbi et orbi”. E disse, muito sério, muito senhor de si, muito convincente e estruturante: "Gostava que todos os portugueses invadissem os equipamentos culturais. E que os equipamentos culturais também invadissem a casa dos portugueses." É a dupla invasão! Antes os espanhóis, que a estão a fazer pela calada das contas-correntes… Ao menos esses já são “nuestros hermanos” e tudo e até se aprende em Castelhano em escola secundária nacional para se mais tarde se ir universidar* “aqui tão perto”. Cá por mim, se for caso disso, sei muito bem que equipamento cultural gostava de invadir. Por sinal, nem integra o acervo oficial disponível: o meu JB, se querem saber, ou um cargo de jeito na Gulbenkian, em segunda escolha. O que gostava muito, mesmo muito, de saber, é que equipamento cultural me propõe ele que me entre pela casa dentro. Além do canal “Fashion”, de programas escolhidos da “Sic Mulher” e de algumas revistas do mesmo género, as balsâmicas e as do Jakes sem ser dos Santos, não entra lá mais nada, que não quero incomodar os meus neurónios com futilidades nem com futriquices. E não quero, não quero, não quero e não gosto e faço uma birra de todo o tamanho se me invadirem a garagem com um coche do D. Carlos, ou a sala com uma reprodução daquele tríptico das Janelas Verdes ou uma miniatura em mármore da Torre de Belém. Aliás, não gosto é que me invadam, prontos! Sou uma artista, né? Tenho os meus direitos, né? Ou julgava que tinha, ou julgava que era, já nem sei… Ando tão confusa! Sei muito bem que DGA quer dizer Direcção Geral das Artes e que por isso tem a ver comigo. Pois, a DGA criou um “Simplex” para apoiar as artes e os artistas, mas que me deixa de fora (como se eu lá a quisesse para alguma coisa, pfff…), como de fora ficam todos os agentes culturais que não usem máscara ou, como eles dizem, não reúnam um certo número de requisitos objectivos. Por requisitos objectivos quer-se dizer: indicadores mensuráveis e comparáveis, actividade continuada ao longo dos anos, a massa crítica técnicoprofissional, as condições logísticas, o volume e diversidade da prestação de serviços à comunidade, o papel estruturante que desempenham na vida cultural e no desenvolvimento regionais.* Quem tem isto ascende em directo ao estatuto de parceiros consolidados do Estado. Estende a mão com uma proposta na ponta e está feito. Pronto, o Simplex é simples para quem já está “tu cá tu lá” como agente da cultura governamental, com direito a lista de presenças e tudo. Todos os anos, como nos exames, sai a lista. Se o artista lá estiver, é simplex à brava, ou prometem que seja, meter a mão na massa. Os outros que se candidatem, ora essa, que esperem e desesperem, que Cultura é isso mesmo, nela “sofre-se muito, mas também se goza” como diz um Mestre escultor muito querido! Também, a verdade é que os equipamentos que nos vão invadir estão todos, ou quase todos, por Lisboa, pelo que as sobras da invasão possível vão, como de costume, para a Província. A coisa reflecte-se até cá fora, na privada. Por exemplo, na recém-eleita direcção da APGA* o Porto só tem vogais. As consoantes consonantes ficaram-se todas pela capital deste “país plantado à esquina do planeta”, na sábia definição do historiógrafo mais televisivamente longevo que conheço. * Universitar, em aditamento meu ao Acordo, quer dizer “frequentar a universidade”, tomem lá esta e calem-se! *Decreto-Lei n.º 225/2006, *Associação Portuguesa de Galeristas |
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