| By Luís Pinheiro,
on 27-07-2008 23:49
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Susana Anágua mostra-se em “Desnorte”, na sala de exposições temporárias do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. É um espaço transfigurado o que apresenta, num conjunto de quatro trabalhos. O espectador, desorientado e desprevenido, é levado ao questionamento e à experiência de uma realidade que, embora presente, não se lhe tinha ainda revelado.
“Nas cartas iluminadas, os rumos ou ‘linhas de rumo’ eram desenhados a cores, a partir de ‘rosas-dos-ventos, semelhantes às das agulhas de marear e cada cartógrafo tinha o seu estilo próprio de desenhar essas 'rosas'.  "O norte destas ‘rosas’ era representado por uma flor de lis, símbolo empregado pelos portugueses e que depois se universalizou.” (“Rosas dos Ventos das Cartas de Marear Portuguesas”, Anais do Clube Militar Naval)
A energia, as forças da natureza e o magnetismo são aspectos centrais no trabalho que Susana Anágua desenvolveu e se mantêm. Importante também na obra da artista é a ideia de paisagem. A paisagem natural, a desaparecer rapidamente pela intervenção do homem, e a paisagem industrial, onde máquinas e os ambientes ganham sentidos poéticos ao revelarem a força e a grandeza que trazem associadas. Em “Desnorte”, a ver no Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Gulbenkian, Susana Anágua reintroduz nas paisagens que realiza a ideia de desorientação, aqui associada ao Norte que se mantém oculto ao observador e só se revela quando o caminho pessoal se descortinar no trabalho. Um vídeo do radar do aeroporto de Lisboa, um outro de um “bicho” chamado “geometer”, uma escultura bidimensional com bússolas e um canto que se revela na “ausência” de luz, formam o conjunto das obras que Susana Anágua mostra agora no espaço do CAM. Em qualquer destes trabalhos, a experiência de um novo espaço, imprevisto, é factor de desorientação para os protagonistas, sejam eles espectadores ou actores dos trabalhos. A realidade transfigurada é reavaliada de acordo com percepções que comummente surgem associadas a outras experiências. Tal como “geometer”, a larva “cega” que percorre a folha em branco, o observador “tacteia” uma nova realidade nos registos – os vídeos –, na composição – a escultura das bússolas – e na intervenção no próprio espaço expositivo – o eixo de coordenadas florescente associado a um dos cantos da sala. À entrada – e à saída – da sala da exposição encontra-se o vídeo do radar de Lisboa, que para a artista é uma escultura em movimento. Este trabalho alude e orienta para espaços que se situam para além dele: a sala de exposição e os espaços em que o observador se situar, física ou mentalmente. Desorienta e reorienta. Nas palavras de Susana Anágua: “Encaro-o como uma escultura viva, tecnológica quase. É o princípio de orientação. Quem chega a Lisboa e se encaminha para o Norte do país passa pelo radar de Lisboa, por isso fui buscar o radar. Esse filme tem um carácter muito escultórico por ser em “loop”, porque o filme está sempre naquele movimento quase ‘endurecedor’ do radar a mexer e daquela rotação quase encantatória.”
O vídeo “Caterpillar”, realizado conjuntamente com Natércia Caneira e Orlando Franco, apresenta ao observador os movimentos de um actor solitário, o “bicho” “geometer”, à descoberta de um novo espaço. O “bicho” é cego e desloca-se tacteando. A sua locomoção, presa do seu sentido de orientação, é incerta e cautelosa num universo novo de características desconhecidas. Para Susana Anágua: “A ideia que faz com que o vídeo não seja só uma captação natural e da natureza – um registo documental –, é que eu alterei o espaço em que o ‘bicho’ se movia. Em vez de ele estar na natureza, está perdido e desorientado, porque não reconhece o espaço de uma folha em branco e a natureza não tem folhas em branco.” Susana Anágua apresenta, também, uma escultura bidimensional que junta lado a lado um conjunto de bússolas. Cada bússola interfere com o magnetismo das que lhe estão próximas, desnorteando-as. A peça anima-se, fica dotada de vida própria que é acentuada quando, a intervalos precisos, as luzes do espaço expositivo se apagam. A composição assemelha-se então, pela fosforescência, a um céu estrelado, onde os ponteiros das bússolas são as estrelas. Nas palavras da artista: “A peça chama-se ‘Polar’, precisamente por parecer que cada bússola procura o Norte, e o ponteiro ao ser luminoso procura ser uma espécie de Estrela Polar. É como se cada bússola fosse um de nós que procura a sua própria Estrela Polar e o seu próprio Norte. E isso tem a ver com o ‘bicho’ como se o animal fosse cada um de nós, cegos – o ‘bicho’ não tem visão, tacteia o espaço à procura do melhor caminho. Portanto, é essa a ideia, essa a metáfora, em relação a como estamos hoje: sentimo-nos um pouco perdidos, cegos, à procura do Norte.”
Por último, a peça de canto, em que os três planos que caracterizam o espaço tridimensional da escultura se definem por fosforescência num eixo de coordenadas, quando as luzes se apagam. Nesta obra, a artista intervêm directa e efemeramente no espaço da sala e torna a representação parte integrante da experiência do observador ao chamar a sua atenção para referentes espaciais presentes e ignorados. Susana Anágua, tal como os cartógrafos de outros tempos que desenhavam e atribuíam características específicas aos rosas-dos-ventos que nos mapas indicavam os sentidos das direcções aos navegantes, mantém nas obras expostas elementos que caracterizam o seu trabalho. Contraria-os, porém, ao remeter a responsabilidade da orientação espacial para o visitante. A flor-de-lis, associada ao Norte nos rosas-dos-ventos e símbolo de realeza, coroa o esforço individual na persecução e descoberta do seu caminho individual, o único que, de facto, é “real”.
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