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07-Jan-2009
Arte para Pisar | Perplexidades PDF Imprimir e-mail

By Risoleta da Conceição Pinto Pedro, on 29-07-2008 16:05


 Visitamos a colecção Berardo no CCB. Vamos reflectir sobre alguma da arte do século XX. Andaremos entre o expressionismo abstracto, o minimalismo, a arte cinética, o hiper-realismo, a pop-arte. Estamos, logo à entrada, perante uma obra de Frank Stella e o guia Renato desafia os alunos afirmando que “nós somos os portadores de significados”.

É o primeiro painel que visitamos, chama-se Severambia e trata-se uma peça de 1995. De grandes dimensões, não caberia em qualquer galeria. Técnica mista sobre fibra de vidro. Um objecto sem dentro e sem fora.

Distancio-me um pouco do grupo, às voltas com esta perplexidade totalmente adequada às interrogações actuais de cientistas e de místicos acerca do carácter ilusório do espaço. Se não há dentro nem fora, como é que pode haver objecto? Se não há objecto, como poderá haver espaço? Não havendo espaço, como pode haver tempo? Não havendo tempo onde e quando estamos nós?

Nós somos portadores de significados e os nossos significados podem ser só interrogações, podem ser só perplexidades e dúvidas.

Passamos por Mondrian e um quadro avaliado em 18.000.000 de euros, o que, sem desvalorizar a obra nem o artista, nos coloca interrogações acerca do valor da atribuição dos valores na arte, e junto de Paul Klee vimos como tudo é o mesmo e como o abstracto e o figurativo podem ser a mesma coisa. Isto transporta-me novamente à primeira obra, sendo que onde aqui se inclui (e…e), naquele outro caso se tratava de exclusão (nem…nem).

Com Helena Almeida continuamos no reino do paradoxo: a pesquisa sobre a pintura através da fotografia. A obra aberta, o real e o verdadeiro, o gesto da artista, concepção e execução.

E finalmente o grande acontecimento: uma obra que os alunos são convidados a… pisar!

144th Trovertine Interger, de Carl Andre,

uma obra de 1985 da linha minimalista, que teve início nos estados Unidos na década de 60. O básico ao nível da forma, a contenção ao nível da cor. Neste caso, trata-se de um pavimento de pedra no chão. E se os alunos estão acostumados a que os guias os admoestem constantemente a que não toquem, não se aproximem excessivamente das obras, nos museus, nas exposições, aqui, para seu espanto passou-se o contrário. E não foi fácil vencer a entranhada resistência cultural ao “desrespeito” pela arte! Pisar é não respeitar, assim fomos interiorizando em anos e anos de programação.

Mas vencida a resistência inicial, torna-se saboroso poder finalmente resgatar anos e anos de “repressão” do contacto do corpo com a peça.

Contou-me uma vez uma guia de um museu que quando da visita de um grupo de meninos muito pequenos, foi-lhes pedido, para que conseguissem resistir ao natural gesto de tocar as esculturas, que colocassem as mãozinhas atrás das costas. O que fizeram todos, mas houve um que não conseguiu resistir ao impulso, pelo que “não tendo mãos”, foi deliciada que a guia fingiu não ver a língua do pequenino passeando-se pelo corpo da escultura.

Aqui não houve línguas, mas houve pés, sapatos, ténis de marcas e cores diferentes exprimindo o momento de estar ali em contacto com uma obra. Ao nível do essencial, como da primeira vez em que o homem pisou a terra, com o mesma alegria que se repete sempre da primeira vez em que um ser humano se ergue nos seus pés sobre esta obra de arte para pisar (o que, infelizmente, tem sido confundido com espezinhar) que é a Terra.

www.risocordetejo.blogspot.com


   

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By: Rui () on 30-07-2008 20:36

By: Rui on 30-07-2008 20:36

"... 
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo 
Mas julgue-o quem não não pode experimentá-lo." 
... 
Quando a "crítica" de arte cria de tal modo que apenas o seu texto já vale por si.

 

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