| By Vera Chi Lo Sa,
on 31-07-2008 17:12
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Não posso nem devo contar em pormenor, com nomes e factos muito concretos, esta fofoquinha deliciosa, recheada de caras conhecidas e hoje decoradas com caríssimos barretes, bem-feita-bem-feita qué para não se armarem em cultas quando o que têm é só contas em offshores – sem que venham daí grandes males ao mundo, antes isso que a peste bubónica…. Só vos vou dizer um nome, o da minha amiga Kika, mas não pensem que sou a única a ter uma Kika por amiga. Basta olharem à vossa volta e logo verão como não faltam por aí Kikas e kikísses. Para algumas pessoas bastará olharem-se ao espelho. Pois, deu-me cá um arraial de gozo esta minha querida amiga, cheia de efes e erres e de pianos destemperados e de frrancês e de “na estância” (de esqui, claro) e da vozinha arrastada de quem se arrasta pela vida num continuado stress de “fare niente”…É mesmo muita-bem-feita! Queria fazer-se passar por fina e culta, “de bom berço”, como ela diz quando a chateiam, e era bem melhor que tivesse mandado forrar as paredes da sala com aqueles papeis coloridos agora tão na moda. O dinheiro até compra mestrados e doutoramentos. Não compra é cultura, essa ou se tem ou não se tem e quando não se tem aluga-se quem a tenha, como o meu krido Berardo tem feito, pois bastou-lhe ser enganado uma vez! A tonta da Kika, herdeira de offshores de dois casamentos e um divórcio litigioso, é um perfeito retrato de uma dessas doutoradas com uma capa de parafina de cultura, que vivem na Linha – de Cascais ou outra, como a Foz e por aí – vão à ópera e a chás de angariação de fundos para obras de caridade. Algumas, felizmente poucas, até escrevem e publicam livros. E, há uns anos para cá, também compram arte. A Kika, aí há coisa de uns três anos, ouviu falar na grande e rápida valorização que algumas boas colecções de arte, privadas, têm conseguido e, pois claro, já estão mesmo a ver, desatou a comprar quadros assinados por nomes como Júlio Pomar, Júlio Resende, Mário Cesariny e outros mais antigos, alguns até do século XIX. Como me convida de vez em quando, porque é bem ter uma artista para apresentar e eu sou linda e loira também, bem vi como preencheu as paredes da sala e dos quartos com “pintura de marca” como ela dizia. E falava a toda a hora e sem pretexto das obras que ia adquirindo. Um belo dia, a Kika acordou cheia de vontade de mudar a decoração do quarto. “A Virgem e o Menino”, óleo do século XIX, à cabeceira da cama de dossel até ficava bem, mas não combinava com o seu novo gosto, mais minimalista, que é assim um estilo que os japoneses praticam há centenas de anos sem saberem que era isso o que faziam.... Enfim, diga-se também, aquela Virgem sempre a olhá-la já lhe dava algumas ânsias. Tanto lhe fazia trocá-la como vendê-la. A desgraça começou quando um verdadeiro entendido olhou para o quadro e lhe disse, sem preparação nem rodeios, assim de chapa, que era falso, bem falsificado mas falso. A Kika descompôs o homem, chamou-lhe nomes feios e tudo, depois chamou outro e depois teve uma crise de nervos, daquelas de Júlio de Matos, quando soube que pelo menos metade da sua colecção privada, seu orgulho e seu investimento para dias só de off e sem shores, não valia nada. E tudo porque quis mudar a decoração do quarto. É boa! A Virgem, mesmo de Menino ao colo, bem fazia ao olhá-la de lado: estava era a avisá-la… Bem, a Kika é inculta, é verdade, mas não é parvinha de todo. Comprou o que comprou em leilões. Leilões onde as obras falsificadas foram apresentadas, postas à venda e compradas como autênticas. Quer dizer com isso que os leiloeiros foram, também eles, enganados? A Kika já encarregou os seus dois advogados, que só sabem de offshores, de contratarem um colega que saiba como mexer (com luvas, sempre com luvas…) nestas coisas das artes, a ver se volta a ver a tinta real que gastou em tintas falsas. Não vai ser fácil. Há hoje, em Portugal, uma clara impunidade para este tipo de malandragem de colarinho branco, veja-se a “comissãozinha anticorrupçãozinha” aceite pelos nossos queridos parlamentares.... E se a Kika, ao menos, tem a coragem de vir cá para fora dizer das suas inculturas, conheço eu alguns embarretados que, por pura vergonha, engoliram o logro e continuam a fazer de conta que têm na sala um Cesariny, quando sabem muito bem que ny… |
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