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05-Fev-2012
Susana Anágua em busca do Norte | Entrevista PDF Imprimir e-mail

By Luís Pinheiro, on 01-08-2008 15:09


 "Desnorte" de Susana Anáguaestá patente na sala de exposições temporárias do CAMJAP da Gulbenkian, em Lisboa, até 26 de Outubro. Publicamos hoje duas entrevistas da artista dadas ao "e-vai.net", da autoria de Luís Pinheiro , e à revista NS (suplemento de sábado dos jornais DN e JN) da autoria de Nuno Cunha.

“Sei o que sei sem saber quando me vai surgir um trabalho novo. Tenho de ir vivendo as coisas e os espaços e muito mais fora do atelier do que dentro”. A propósito da exposição “Desnorte” , Susana Anágua fala-nos do seu processo criativo, da importância da orientação espacial e de um “bicho” chamado “Geometer” em busca da sua Estrela Polar, que não vê enquanto larva e talvez veja, mas só talvez, quando for borboleta....

 Qual o ponto de partida para os trabalhos da presente exposição?

O tema foi a procura do Norte. É uma espécie de metáfora para todos nós que, enquanto indivíduos, procuramos o Norte, como se o caminho certo fosse todos nós caminharmos para um mesmo Norte... Isso tem a ver com todas as referências, coordenadas espaciais, que, normalmente, nós temos como: a Estrela Polar – a estrela que indica o Norte –, os países do Norte, o caminho para o Norte.

E resolvi partir também, pela existência do vídeo – que resulta das pesquisas que fiz, do encontrar aquele “bicho” específico durante uma caminhada – da ideia de caminhada. Depois, fui juntando referências que tinham a ver com a procura do Norte.

 O vídeo é o resultado da colaboração com outros dois artistas. Como foi realizado?

O vídeo foi realizado numa residência de artistas, que fizemos em Almira, no Alentejo. Foram convidados cinco artistas para passar um fim-de-semana numa casa. Cada um levou os meios em que mais gostava de trabalhar, sem nenhum saber muito bem o que ía fazer. Tínhamos a base de trabalho que tinha que ver com a experiência do campo e da vida da casa. Eu levei uma câmara de vídeo.

Um pouco por afinidade de trabalho, juntei-me mais a dois amigos, a Natércia Caneira que organizou a residência e trabalha mais em desenho e o Orlando Franco que também trabalha em vídeo. Havia outros três artistas na residência: a Ana Rito, a Patrícia Trindade e a Sandra Bartolomeu.

Como foi o processo de concepção do vídeo? Partilharam-se ideias? Como se tomaram as decisões em relação às imagens a utilizar?

Foi muito “o encontrar”. Nós estávamos com a ideia de fazer uma caminhada – um pouco o que eu descrevi no catálogo. Saímos de manhã e voltámos no final do dia e no meio parámos para descansar. A meio do período de descanso, encontrei aquele “bicho” que me parecia extremamente curioso e fez todo o sentido filmá-lo.

Acabei por filmá-lo com a ajuda desses meus dois colegas artistas – a parte do “bicho” é feita em conjunto com a Natércia. Quanto à parte da “conversa” do Orlando com os passarinhos é uma metáfora, pois tem a ver com o procurarmos as coordenadas do espaço natural através da localização dos bichos, de onde é que eles estão a emitir o som. Nós conseguimos perceber se um pássaro está mais distante do que outro consoante o som que emite.

O “bicho” foi encontrado nessa lógica, foi encontrado no meio da natureza. De repente comecei a filmar e percebi que ele tinha um tipo de locomoção muito específico. Percebi que ele se mexia tacteando o próprio espaço. O “bicho” é cego, não tem qualquer capacidade de visualização, vai percorrendo o espaço com uns tentáculos, umas ventosas que tem nas pontinhas e daí se chamar “geometer”. Não sabia bem, ainda, qual era a definição e a categoria do “bicho” – uma larva de borboleta –, mas percebi automaticamente que tinha a capacidade de se mover por reconhecimento do próprio espaço, por tactear o espaço. E isso interessou-me logo muito.

 Os trabalhos são realizados a partir de imagens/observações do mundo, utilizadas de forma directa mas conferindo-lhes um novo sentido?

Ao utilizar imagens da natureza quase que o vídeo podia ser um documentário da “National Geographic”. Não o é. O “bicho” foi deslocado do seu espaço natural. Eu coloquei-o – era o que tinha à mão, em termos de matéria-prima – a percorrer uma folha em branco. E uma folha em branco A4 é uma coisa muito humana. È produzida pelo homem, tem quatro coordenadas também, tem quatro cantos, quatro linhas, é uma folha A4. Alterei o espaço em que o “bicho” se movia. Em vez de estar na natureza, ele está perdido, desorientado, porque não reconhece o espaço de uma folha em branco, a natureza não tem uma folha em branco. A folha em branco é uma característica humana.

 Vem de escultura. Para si os trabalhos expostos são esculturas?

Há uma escultura de parede, o trabalho das bússolas. Essa peça é claramente uma escultura, mesmo que seja bidimensional. É uma escultura porque tem os parâmetros específicos de uma escultura. Já os vídeos… Talvez o do radar possa ser lido também como uma escultura. O vídeo da larva de borboleta, que se chama “Caterpillar”, é claramente vídeo. Tem esse registo quase documental. Filmei-o uma vez e de uma vez. Não tem qualquer efeito nem montagem. Alterei a “verdade” daquele “bicho” – o sítio onde ele habitualmente se locomovia – para o desorientar num outro espaço. Com isso, deixa de ser um documentário mas também não é uma escultura.

A exposição é composta por dois vídeos, em que um dos vídeos tem um carácter muito escultórico, que é o do radar de Lisboa. A esse, encaro-o como uma escultura viva, tecnológica quase. É o princípio de orientação. Quem chega a Lisboa e se encaminha para o Norte do país passa pelo radar de Lisboa, por isso fui buscar o radar.

Esse filme tem um carácter muito escultórico por ser em “loop”, porque o filme está sempre naquele movimento quase “endurecedor” do radar a mexer e daquela rotação quase encantatória.

  

Qual é para si a importância da orientação espacial?

Acho que para todos nós é bastante importante. Pode-nos passar despercebida, mas as referências espaciais são-nos fundamentais. Como a linha do horizonte... Todas essas referências espaciais são muito importantes no dia a dia, até no que se refere à nossa locomoção. Se a fizermos sem referências dentro de uma cidade, se não conseguirmos ver o final da rua, ou percorrermos o espaço de outra forma, sentimo-nos perdidos.

Qual a sua metodologia de trabalho? Utiliza algum processo específico, que repete ou altera-o consoante o projecto/trabalho que está a desenvolver no momento?

Eu funciono muito a partir das coisas que vou encontrando. Essas coisas quase não têm método. Não sou artista de atelier, alguém que vai para o atelier todos os dias e que, religiosamente, procura realizar uma coisa ou, todos os dias, acrescentar mais uma coisa. Não tenho esse método.

Sou uma artista completamente de rua, dos sítios, vou encontrando as coisas. As peças, as esculturas são um pouco o reflexo daquilo que vou encontrando nos espaços. E isso não tem método. Vou visitando coisas. Vou vendo sítios. Vou vendo fábricas. Vou olhando para as coisas, para a paisagem. Ultimamente, o meu trabalho tem sido muito centrado na ideia da paisagem e das mecânicas da paisagem que vão substituindo a paisagem natural. E isso levou-me à ideia da residência. Uma coisa leva a outra. São coisas seguidas, consequências dos trabalhos anteriores, mas não têm método nem têm um tempo.

Sei o que sei sem saber quando me vai surgir um trabalho novo. Tenho de ir vivendo as coisas e os espaços, e muito mais fora do atelier do que dentro.

Só vou ao atelier para concretizar as coisas.

 No trabalho que desenvolve a poética sobrepõe-se aos conceitos que estuda ou pelo contrário estes sobrepõe-se à poética?

Eu acho que é um misto. Eu estou sempre à procura de os devolver à poética, porque hoje em dia a arte é muito conceptual – e eu sei disso. Não podemos ter poética só sem conceito, porque se temos uma poética sem conceito estamos a olhar para um postal ilustrado. E nada melhor do que olharmos a natureza para termos poética sem pensarmos sequer num conceito e nisso quase nem faria sentido existir a arte. Simplesmente haveria um registo da natureza, um registo das coisas bonitas e poéticas. Mas eu acho que a arte tem de ser um misto das duas coisas.

Também não acho que o meu trabalho seja altamente conceptual porque eu vou sempre buscar coisas…por isso o movimento, por isso os efeitos… O efeito nocturno que eu criei para ter as bússolas brilhantes e que leva à ideia do céu estrelado. E a ideia do céu estrelado é quase mais poética do que conceptual.

Tem de ser um equilíbrio entre as duas coisas.

Existe a arte conceptual sem poética que é completamente pálida e é muito rica em termos de conhecimento e de reconhecimento. Eu procuro sempre uma certa poética no conceito.

Como foi pensada a articulação entre as várias peças que compõem a presente exposição?

Surgiu-me da existência do vídeo do “bicho”. Achei que ele precisava de um contexto para autonomizá-lo. Depois surgiu-me a peça das bússolas e tematicamente pareceu-me que o “bicho” tinha a ver, porque ele parece quase magnético, procura os eixos da folha de uma forma muito magnética. Tem aquelas ventosas que ficam no ar e depois agarra-se à folha com elas. Fiz logo a ligação com a peça das bússolas.

Já tinha existido uma peça anterior que não tem a ver com aquela – é uma peça de chão – mas que já tinha sido feita com as bússolas enquanto elemento e que esteve presente numa exposição minha que já se chamava “A desorientação”. Tinha a ver com a ideia de desorientação e com os moinhos de vento, as eólicas, a paisagem, as tempestades…e eu fui buscar as bússolas nessa altura.

Agora repeti o dispositivo em termos da bússola mas aplicada a um outro conceito completamente diferente. A peça chama-se “Polar”, precisamente por parecer que cada bússola procura o Norte, e o ponteiro ao ser luminoso procura ser uma espécie de Estrela Polar. É como se cada bússola fosse um de nós que procura a sua própria Estrela Polar e o seu próprio Norte. E isso tem a ver com o “bicho” como se o animal fosse cada um de nós, cegos – o bicho não tem visão, ele tacteia o espaço à procura do melhor caminho –, portanto é essa ideia, essa metáfora em relação a como estamos hoje: sentimo-nos um pouco perdidos, cegos, à procura do Norte.

E depois o radar e o facto de ele estar cá fora à entrada, antes de sabermos até o título da exposição e um pouco a ideia do início do caminho. Quando nós saímos de Lisboa, ou entramos em Lisboa, a primeira coisa que temos é o radar. É o radar que nos indica se vamos para o Norte ou se viemos do Norte. Precisamente a ideia do início de um caminho que será percorrido dentro da exposição.


   

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