| By Luís Pinheiro,
on 05-08-2008 16:08
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A concepção e a gestão de eventos artísticos, procuram substituir-se, hoje, enquanto formas de reconhecimento, ao valor dos trabalhos exibidos. Fundamental neste processo é a importância conferida à escolha.
“Escolha, s.f. – Acção ou resultado da acção de escolher; eleição; selecção; preferência; (fig.): bom gosto; discernimento.” (Rodrigo Fontinha, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa) Como em qualquer outra actividade humana, na arte as escolhas definem os trabalhos que se concebem, realizam e mostram. Há, contudo, situações condicionadas, que podem conduzir à perda da liberdade e capacidade criativa, comprometendo a Obra e o artista. O que se escolhe? Quem escolhe? Como escolhe? E quando? Estas são algumas das questões que se aplicam, também, à arte. As respostas dependem de vários factores e circunstâncias. Em sentido restrito, do contexto, dos intervenientes e das relações que entre eles se estabeleçam. Escolhem-se os temas, modos de pesquisa, linhas de desenvolvimento do trabalho, técnicas de expressão, locais e formas de apresentação. Potencialmente as escolhas são ilimitadas. Contudo a necessidade de legitimação, que se impõe à sobrevivência do artista como tal, restringem-nas consideravelmente. Assim, apesar de, na actualidade, os caminhos que se oferecem ao artista para se expressar serem múltiplos, as formas de expressão e os conteúdos temáticos reflectem, quase sempre, modas passageiras artificialmente criadas e que satisfazem gostos e vontades dos coleccionadores e dos detentores do poder. Também acontece os artistas desbravarem novos caminhos e descobrirem novos meios de expressão, mas, como muitas das vezes apenas buscam a novidade e espectacularidade e nada vêem para além disso, os conteúdos das obras – meros exercícios formais – são constantemente vazios. As escolhas conduzem aqui a caminhos desviantes. No processo global, a autoria das escolhas nem sempre é do artista – em alguns casos quase nunca –, principalmente no que se refere à selecção e organização de eventos. Quando a situação não afecta a qualidade do trabalho, estes obstáculos/restrições podem ser encarados como desafio e, nesse caso, ser factor de crescimento individual. Mas, quando o artista se limita meramente a executar o pedido, não realiza qualquer “Trabalho”, repete “receitas” aprendidas e compromete a Obra. As escolhas dos trabalhos e eventos a realizar são definidas, por um lado, em função da vontade do artista e, por outro, das necessidades dos coleccionadores e comerciantes. No último caso, as obras de “arte” são meras mercadorias e, como tal, dependem das leis da oferta e da procura, do marketing, da publicidade e de fenómenos transitórios como a moda. Na arte, como em qualquer outra actividade, os momentos das escolhas ocorrem “antes”, “durante” e “após” a sua realização. As decisões que se tomam antes prendem-se com os pontos de partida, os temas para o desenvolvimento do trabalho e podem englobar, também, os métodos e meios a utilizar na pesquisa. “Durante” a realização dos trabalhos, as decisões a adoptar têm a ver com o desenvolvimento da forma que será o corpo do trabalho desenvolvido. “Após” a realização da obra, as questões da apresentação do trabalho, a busca de um espaço que a receba – quando não se trata de uma intervenção in situ ou exposição acordada – e a leve ao encontro do seu público. Em todo o processo, as escolhas, quer sejam do artista quer de terceiros que com ele se relacionam, têm implicações na qualidade e futuro do trabalho e do seu autor – não só na carreira, se for caso de promoção, mas principalmente no corpo da Obra que o artista pode desenvolver. Como forma de precaução, e para preservar o valor do trabalho, o artista deverá restringir ao máximo intervenções externas no processo (principalmente nos dois primeiros momentos). As escolhas que envolvem o fenómeno artístico são hoje ditadas, na maior parte das vezes, por razões que o afastam da Arte. Irracionais por natureza são, nalgumas ocasiões, prescritas pelo gosto de terceiros. Assim, as escolhas criteriosas que pululam nos programas elaborados pelos centros culturais, galerias, teatros, óperas e salas de cinema, representam quer o crescimento da comercialização das actividades culturais que se desenvolvem hoje em função do turismo, quer os gostos, a ostentação da burguesia e seus protegidos, quer ainda a necessária socialização das classes desfavorecidas. Em qualquer destas situações, o “discernimento” – que é sinónimo figurado de “escolha” –, parece servir apenas interesses imediatos, individuais e, nalgumas circunstâncias, estranhos ao artista. A aparente diversidade é ilusória. A arte já nem mercadoria é, não passa de mera embalagem ou cartaz publicitário. A proliferação de exposições colectivas e/ou temáticas, a constituição de colecções e a programação cultural contribuem assim significativamente para diminuir o papel do artista no processo – exceptuando-se as vedetas que dele usufruem e alimentam – e procuram ser a coroa de glória daqueles que as promovem e organizam. Urge rever esta situação. Pelo artista, pela dignidade que o público merece e por um novo “sistema”. |
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