| By Vera Chi Lo Sa,
on 08-08-2008 01:02
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Chamem-me retrógrada, ultrapassada, ancilosada, que eu não me importo, não estou nem nessa. Até me podem chamar Velha do Restelo, por não me aperceber dos ventos do Futuro – que esse Futuro eu não quero, obrigadinha, recuso, denuncio e vendo já em saldos a 70 por cento. É sabido e sentido o tempo de crise em que vivemos, é todos a trabalhar mais e a receber menos, é viajar em turística na melhor das hipóteses, é ver as praias de Kabri pelo “google”, é ajantarar em casa e até é comprar umas sandalitas nos chineses. Pois é… E em tempo de crise há sempre uns espertos que se aproveitam! Onde é que eu já ouvi isto? Estamos bem a meio da queda no precipício, quase a esborracharmo-nos no chão e há quem ganhe com isso. Leonel Moura é o artista português que criou o robô-pintor e que está a ganhar com a crise, a das ideias, da criatividade (de criar e não de imaginar), da crítica e do critério, ou ausência deste, em que vivem as artes plásticas. Agora ouvimos falar dele de novo porque está a vender os rabiscos dos seus robôs na Bienal de São Paulo. Eu até acho giro expor uma máquina que “pinta”, ou “desenha”, como atitude “engagé”, de crítica sócio-cultural e etc. Mas a arte não é para ser gira, nem é arte fazer algo que não existia antes como diz Leonel Moura, num comentário ao trabalho de um dos seus robôs-pintores. Sobre este assunto em concreto, da arte ser uma coisa que não existia antes, há muito a escrever meu caro Leonel, basta recordar o emblemático “Quadro negro” de Malevich de 1915 e o quadro igualzinho, também negro, de Robert Fludd de 1617, já lá vão quase quatro séculos, e que até hoje tem passado despercebido, enquanto o de Malevich é um exemplo de genialidade… Não me vou alargar neste assunto das autorias e autoridades, mas qualquer dia vingo-me, olá se vingo! O que seria, sem sombra de dúvidas, mais interessante era se Leonel tivesse como argumento para o que mostra, em galeria lisboeta própria, a crise intelectual e de valores em que alguns “artistas” vivem. Ou melhor, produzem – como máquinas, como os robôs do Leonel – para darem resposta a um mercado especulativo e que gira em eixo de muitos euros. É assim mesmo, há por aí muito artista que se repete infinitamente, num interminável e apudorado auto-plágio, estimulado por galerias e instituições artísticas. São máquinas de uma indústria artesanal, como outra qualquer. Leonel, sai do artesanato e passa à produção em série. De volta ao chouriço robótico, a ser como o Leonelzinho quer, sou uma Velha do Restelo. Não vejo possibilidade alguma de um robô ser um ser criativo, nem vejo como a arte possa existir sem o indivíduo, como ele diz e propõe, mostra, negoceia e vende. A Arte está estritamente ligada às técnicas do pensamento e à filosofia, projecta, transforma e faz do sentimento mais banal ou da situação mais corriqueira algo com extrema poética e de forma intencional e consciente. Ora pois, também aqui bate o ponto: consciência e a intenção não são coisa de robô, pelo menos até agora. Nem de crianças, que também são capazes de fazer pinturinhas giras. Eu até ouvi dizer que o dono do robô o deixa ligado quando vai de férias. Fica a trabalhar, trabalha mais de quarenta e duas horas semanais, não tem folgas, não goza feriados, faz horas extraordinárias e tudo sem remuneração. Escravatura? Não! Este verdadeiro artista não é esclavagista. É um especialista na área de inteligência artificial e da robótica. E tão “in” nesse mundo seco e maquinal que, o ano passado, criou o Robotarium, o primeiro “zoo de robôs”. Fica em Alverca. E quanto ao pilim em tempo de crise? Bem… Há quem compre por 10.000 dólares as pinturas, assinadas pelo Leonel Moura e pelo robô, o RAP, abreviatura de “Robot Action Painter”. O robô não vê um tostão, mas quando entupir os bracinhos e enferrujar tem a velhice garantida, num mini-T1, nesse zoo invulgar, aqui tão perto… P.S. Só há uma coisinha em que eu concordo com Leonel. Ele diz: "Estagnámos nessa visão romantizada do autor, e a Internet acabou de repente com essa possibilidade de endeusar tanto um artista. No universo dos sites, o que nos interessa é o conteúdo, não quem o colocou lá". Eu também acho que é mais importante o conteúdo da obra do que a assinatura do autor. |
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