| By Nuno Cunha*,
on 11-08-2008 03:07
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Susana Anágua está a tornar-se um nome incontornável da arte em Portugal. Concluiu o Curso Avançado de Artes Plásticas pelo Ar.Co em 2000, a Licenciatura em Artes Plásticas pela ESTGAD em 2004 e nos três últimos anos parece firmar-se como uma nova referência: participou no projecto das 7 Maravilhas de Portugal com uma intervenção no Mosteiro da Batalha, no Project Room comissariado por Isabel Carlos na ArteLisboa 07, na colectiva Sines Local no Centro Cultural Emerico Nunes em Sines e na colectiva 7 Artistas ao Décimo Mês do Centro de Arte Moderna José Azeredo Perdigão (CAMJAP) da Gulbenkian.
Agora expõe individualmente na sala de exposições temporárias do CAMJAP da Fundação Calouste Gulbenkian até 26 de Outubro, um conjunto de trabalhos que denominou “Desnorte” e que são, no dizer de Jorge Molder”, um conjunto de “boas metáforas para a vida e para a arte”. A sua obra, muito pensada, nem por isso deixa de constituir uma nova proposta de poética plástica. Os trabalhos expostos procuram apresentar uma ausência de referências, embora tenhamos também patentes as três coordenadas fluorescentes necessárias à orientação? A ideia é essa: dá e tira. Essa é a lógica dos nossos dias. Sempre que te sentes orientado, sentes-te perdido outra vez. Aqui está patente essa ideia do dar e tirar. Dás uma bússola e a seguir desorienta-la e ela deixa de servir. Dás ao bicho uma folha que é para ele um terreno, mas é uma folha em branco e isso desorienta-o. Dás o radar, mas ele não funciona porque está desfuncionalizado. Portanto, são dados todos os elementos que supostamente servem para orientação, mas depois isso é retirado. A ideia das três coordenadas fluorescentes é também essa: a dar e ao mesmo tempo tirar. Quando a luz se acende as coordenadas não vêem. Todos os elementos estão a funcionar, perversamente, contra ti. Tudo o que poderia orientar-te e dar-te o Norte é exactamente aquilo que te desorienta. O título de Desnorte é muito concreto. Dá pistas fáceis de entendimento... É tudo muito claro. Eu não codifico muito o que faço. Não procuro elementos que dêem muito trabalho até se chegar à ideia. Esta é uma exposição de Desnorte: usei mais de 2 mil bússolas, apresento um radar e o trabalho que, talvez, tem um código mais difícil de procura do Norte seja o bicho, porque não o conhecemos à partida nem sabemos que ele se orienta pelo espaço. Aquele tipo de bichos – chamam-se geometers – é cego e é essa ideia que faz a metáfora deste trabalho. Se estás desnorteado ficas cego, ficas perdido, não vês onde estás, tens de apalpar terreno, como o bicho. Este vídeo talvez seja o trabalho mais difícil para se chegar à ideia de desnortear. Não se sabe à partida que bicho é, parece meio enigmático e, na inauguração, vi que ninguém percebia e todos pensavam que era uma animação. Os outros trabalhos são muito literais. O tipo de metáfora que há alguns anos procuravas era distinto do actual. Então procuravas a ideia de “máquinas românticas”, segundo as tuas próprias palavras. O percurso desta metáfora ao desnorte foi gradual ou é um salto? O desnorte também tem a ver com a ideia de procura de um eixo, de um ponto de referência, e na última exposição que fiz, no Porto, continuei a apresentar as máquinas românticas, os aerogeradores que povoam a paisagem, sempre com a ideia da máquina como uma paisagem, da máquina que substituiu a paisagem romântica. A paisagem já não existe no seu romantismo puro, de postal ilustrado, antes é povoada por máquinas, e o meu trabalho anda sempre à volta desta questão. Neste trabalho, o único aspecto que penso que está fora dessa ideia de paisagem romântica associada às máquinas é, de novo, o vídeo do bicho, mas tem o romantismo da paisagem e da caminhada, porque o bicho foi encontrado durante a caminhada que fiz numa residência de artistas em que nos perdemos efectivamente, e foi nessa altura que encontrei o animal. Nessa altura pareceu-me logo estranho, quase magnético, percebi logo que era cego, tacteava o espaço, parecia meio perdido, mas foi o único trabalho que saiu fora do âmbito da procura das máquinas, embora ele o pareça, na sua forma de se locomover. A ideia de eixo, pensa-la com um sentido simbólico, de centro, ou apenas de forma axiométrica? De um ponto de vista de tridimensionalidade, axiométrico. Um volume parte sempre de um eixo, uma medida dada pelo produto do comprimento, pela largura e a altura. O eixo é aqui metáfora da própria realidade: palpável, tridimensional, mensurável, mas não simbólico. A presença da ideia de eixo é muito forte... Mas ninguém fez referência à presença dessa ideia de eixo. Essa ideia é menos evidente no vídeo do bicho... Sim, mas o próprio vídeo tem a presença de um animal como ser único no meio da folha, o radar roda sobre si mesmo desnorteado, como quem anda com a cabeça à roda, como se diz corriqueiramente, o que é também estar desnorteado, os eixos das bússolas, e esta ideia é metáfora de cada um de nós, perdidos, num desnorte físico, espacial, de procura da Estrela Polar, do Norte, da orientação. As bússolas têm isso muito presente: são 2400 bússolas, metáfora de 2400 pessoas perdidas no espaço. O eixo é a nossa centralidade, equilíbrio, o ponto de charneira, como na geometria descritiva. Com frequência afastas a ideia de conteúdo no teu trabalho, mas estamos a falar de conteúdos! Estamos, estamos. Consideras que há conteúdos no teu trabalho? Hoje há muitos trabalhos que ignoram os aspectos poéticos e desenvolvem-se dentro de uma perspectiva conceptual, de forma a serem processo, processo, processo... Eu procuro sempre que haja um efeito visual que seja muito poético também. Eu procuro sempre um romantismo poético, mas não ignorando o conceptual. Penso que em arte deveremos ir buscar atrás a contemplação, e trazê-la para o presente de uma forma conceptual. O conceptualismo, apenas, hoje já não faz sentido, senão basta ir todos os dias ver o pôr do Sol e isso é suficiente, porque ele é belo por si. As obras podem ser conceptuais, mas no seu efeito final, na sua materialização, serem também contemplativas. Eu procuro ter sempre algo de encantatório para devolver a contemplação à obra de arte. No trabalho das bússolas tiveste uma preocupação estética predominante, de procura do belo? Sim, tive, com a imagem da bússola como objecto durante o dia e à noite, apenas a sua luminosidade. Para mim, isso constituiu uma procura do belo, associado à poética e ao romantismo. * Publicado na revista NS (suplemento de sábado dos jornais DN e JN) |