| By Nuno Cunha*,
on 11-08-2008 17:59
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Poética e narrativa merecem igual atenção na obra de Rita Castro Neves. Como a contemporaneidade da expressão e a forma romântica da representação. A realidade de que parte e a encenação que constrói. Em todo o seu trabalho há dois lados, pelo menos duas leituras e sensações. Há uma ambiguidade construída, que confronta aspectos contraditórios onde assenta uma abertura de significados intencional. Rita Castro Neves expõe no Museu Nogueira da Silva, em Braga, até ao final do mês de Agosto, uma série de 14 fotografias a que deu o título de “Inuit”.
O Paulo Cunha e Silva afirma que as suas fotografias são patrocínios da ambiguidade. Revê-se nesta expressão? Há ambiguidade, inconsistência e erro no ser humano, que eu tenho investigado no meu trabalho. Mesmo em pessoas com valores muito fortes, há uma enorme inconsistência que tem a ver com o facto de sermos seres emotivos. Eu pesquiso um espaço mental que procuro representar visualmente: como pensamos e como passamos de um pensamento a outro ou como podemos representar emoções e sentimentos e pô-los em imagem. Por exemplo em “Inuit”, há um casaco que é vestido por diferentes mulheres, mas a forma como as fotografias são apresentadas, a mulher parece sempre a mesma e só nos apercebemos que são várias após uma observação mais atenta. E aí representa a ambiguidade? É. Nós mesmos também somos vários. Um dia pensamos duma forma, noutro dia pensamos doutra. A nossa forma de pensar é muito assim, mas se fizermos o cômputo geral há uma enorme coerência. Isto interessa-me, para tentar fazer a representação visual de pensamentos e sentimentos. Neste trabalho ainda é muito evidente uma questão que eu também procuro no meu trabalho: a relação entre o interior e o exterior. Os dípticos funcionam sempre com retrato e paisagem. Como no Romantismo, a paisagem é uma forma de expressar o que nos vai por dentro, o nosso estado de espírito. O que me preocupa é esta densidade do ser humano, com as suas diferentes camadas e espessuras, os pequenos gestos e a tensão do quotidiano. A que o Paulo Cunha e Silva chama de antologia do desconforto. Exacto. Qual é o tipo de gestos do quotidiano que lhe prendem a atenção e como os trabalha depois? O meu trabalho assenta em situações que eu extrapolo da realidade. Na rua ou num local qualquer assisto a uma cena que me prende a atenção, que eu depois refaço com uma espécie de ficção a partir do que eu vi. Quando capta um gesto do quotidiano faz uma representação quase directa ou menos imediata, com outro tipo de elementos que procura introduzir? É sempre tudo encenado! Mas independentemente disso... Não, é mesmo uma extrapolação, uma recriação com novos elementos, nova luz, uma grande atenção ao detalhe, a colocação da câmara muito estudada, de modo a criar uma ficção. É bastante composto. É como se o real se transfigurasse noutra coisa. O seu trabalho é profundamente narrativo, ... É! ... mas recorre muito à metáfora, o que lhe confere carga poética. No desenvolvimento de uma obra, presta mais atenção à narrativa ou à poética? Tenho que escolher? Não, claro que não! Então quero os dois, porque os dois são muito importantes. |