| By Lúcio Moura,
on 14-08-2008 02:35
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A mulher e a sua condição está sempre presente na obra de Joana Vasconcelos. “Hand-made” é o título de um vídeo e da própria exposição que está a decorrer na Galeria Horrach Moyà, em Palma de Maiorca, Espanha, até 30 de Setembro. A artista participa ainda nas colectivas em Paris, L’Argent, Le Plateau, até 17 de Agosto, em Braga, Galeria Mário Sequeira, até 15 de Outubro, e em Bratislava, Café-Portugal, Design Factory, de 4 a 21 de Setembro. Publicamos a seguir o texto de Lúcio Moura a propósito do conjunto de obras mostrados em Palma de Maiorca.
Hand-made O conjunto de obras apresentado na exposição Hand-made forma um núcleo exemplar do trabalho de Joana Vasconcelos, manifestando algumas das principais preocupações do discurso estético da artista. O questionamento do estatuto da Mulher é aqui exemplarmente tratado, através de propostas renovadoras das históricas relações, nem sempre pacíficas, entre o artesanal e o industrial, a abstracção e a figuração, ou as artes plásticas e a arquitectura, numa propositada ambiguidade libertadora da limitativa visão estereotipada do mundo. “Duplex” (2008) apresenta-se sob a forma de um enorme e estranho corpo têxtil tentacular, de cores e texturas variadas, síntese quimérica de trabalhos anteriores da artista. Técnicas, formas, materiais, cores e texturas reveladas em obras como “Pantelmina 2” (2001), “Big Booby” (2007), “Valquíria 1” (2004), ou “Blup” (2002) e “Paredinha” (2003), são aqui retomados num processo de relacionamento directo com a arquitectura1. A instalação invade os dois pisos do espaço da galeria, contaminando-o e interferindo com a experiência do Lugar vivenciado pelo observador. Em “Big Booby”2 (2007), Joana Vasconcelos opta pela ampliação de um objecto de uso doméstico – a tradicional pega de cozinha – até anular a percepção do referente inicial, lembrando as pinturas abstractas de Keneth Noland e Frank Stella. Se, por um lado, as formas, os materiais e as técnicas utilizadas conferem algum sentido de familiaridade e conforto, por outro, a monumentalidade da escala, aliada à ancoragem forçada da peça, através dos seis ganchos que a prendem à parede, parecem querer transferir substrato épico e trágico às funções domésticas.  Quatro cintas presas à parede, através de roquetes, estrangulam um longo volume cilíndrico têxtil e colorido, intitulado “Pantelmina 2”3 (2001). O aprisionamento da peça à parede, associado à combinação do título e da forma fálica do volume, com os materiais, a explosão de cores e o uso de uma técnica de labor tradicionalmente feminino – o tricô -, resultam num assertivo contraponto derrisório às formulações da escultura minimalista, irrompendo como comentário irónico à subalternização histórica da mulher no mundo da arte. “Botticellina” (2008) é uma obra concebida a partir de uma vulgar escultura em cimento produzida em série4, inspirada na mitologia clássica e popularizada na decoração de jardins das casas portuguesas. A peça, posteriormente pintada e coberta com um elegante croché, em algodão, feito à mão, combina improváveis associações entre arte erudita e arte popular, tradição e contemporaneidade, reflexo dos actuais gostos e motivações consumistas, flexíveis e libertos das antigas culturas de classe. “Hand-made” (2008), vídeo que dá nome à exposição, documenta, numa projecção em loop, o trabalho manual, em croché e tricô, de cinco mulheres, de diferentes gerações, países e com raízes culturais diversas. O permanente travelling circular da câmara mostra o trabalho e o convívio das protagonistas numa “viagem” que percorre alguns dos mais emblemáticos exemplares do património imóvel português, desde o Cromeleque dos Almendres, monumento megalítico, ao Palácio da Pena, símbolo máximo da arquitectura do Romantismo em Portugal5; sublinhando o pendor documental do projecto. “Hand- made” revela, assim, uma intricada teia de relações de sentido etnográfico, sociológico e histórico. 1 - Refira-se o facto dos dois últimos trabalhos, citados, conciliarem têxteis, com materiais e configurações passíveis de serem relacionadas com modelos arquitectónicos, como paredes ou outros volumes revestidos com azulejos. 2 - O título cita a pintura “The Fallen Madonna with the Big Boobies”, do ficcionado mestre Van Clomp, popularizada na série britânica ‘Allo ‘Allo. 3 - O título deriva do medicamento Pantelmine, indicado para o tratamento de doenças relacionadas com parasitas do intestino. 4 - Esta estatuária popular, reproduzindo temas da mitologia clássica, animais, ou motivos vegetalistas, encontra-se disponível em inúmeros postos de venda, constituindo, ainda hoje, parte integrante da paisagem próxima às estradas portuguesas. 5 - Para além dos exemplos citados incluem-se o Templo Romano, em Évora, também conhecido como Templo de Diana; o Mosteiro de Alcobaça; o Mosteiro da Batalha (ou Convento de Santa Maria da Vitória); o Mosteiro dos Jerónimos (ou Mosteiro de Santa Maria de Belém); a Torre de Belém (ou Torre de São Vicente de Belém); a Fortaleza de Sagres; o Palácio de Mafra (ou Convento e Basílica de Mafra); e o Palácio Nacional de Queluz. |
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