| By Vera Chi Lo Sa,
on 14-08-2008 03:52
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Não sei se conhecem a dona Ana Umbelino, impoluta cidadã que peloura a municipal cultura do concelho de Torres. Empenhou-se ela em pôr Santa Cruz no mapa cultural internacional e esta Santa Cruz é nossa e bem nossa, mesmo aqui da casa: fica onde o concelho torres-vedrense se amanda inteiro ao mar, em areais de belo recorte turístico. Mesmo que conheçam a dona Ana, de certeza que não têm o prazer de conhecer dona Pandora Apostoloska Sazdovska, que nos chega direitinha da Macedónia. Sempre desejei conhecer a tal Pandora, depois do que se anda há milénios a dizer da sua caixinha mágica, mas a caixinha desta só traz aguarelas e pincéis, ao que me dizem e eu acredito, que nestas coisas sou muito respeitadora da autoridade, mesmo a municipal. Com a Pandora Apostoloska vêm outros dez nomes perfeitamente desconhecidos, mas que temos todo o prazer em divulgar, para que se saiba quem respondeu à cultural chamada da dona vereadora Umbelino. Armados com caixinhas de aguarelas e pincéis de pelo de marta vieram os espanhóis Rafael Barbudo Arjona, Nemesio Rubio Pedrajas e Txon Pomes, o também macedónio Denis Tenev; e de França, Joel Tenzin, Véronique Legros Sosa e Jerôme Cossé; e por fim, mas não por último, o norueguês May Hege Rygel. Por razões evidentes, não divulgo o nome dos portugueses, ora essa, era o que faltava, já tenho concorrência artística q.b.. E que vêm eles cá fazer, o que é? "Os artistas vão estar a pintar ao vivo em vários pontos de Santa Cruz, captando os pequenos instantes da dinâmica desta estância balnear", disse à agência Lusa a vereadora da cultura da Câmara Municipal de Torres Vedras. E vão fazê-lo por cinco dias cinco, que tantos são os dedicados por Santa Cruz ao assim chamado I Encontro Internacional de Aguarela, coisa fina, ai dona Umbelino e eu que não me lembrei de uma dessas aqui prá minha Prainha da Linha, burra, burra, burra! "Estamos a apostar numa lógica de valorização cultural e turística de Santa Cruz", publicitou a autarca, via agência noticiosa. É lógico, percebe-se logo, não é? Gosto, sobretudo, desta de “pintar ao vivo”, que a pintar ao morto já anda mais de meio mundo e eu, que sou loira e tudo, no meio, a ver passar esta cultura aguarelada. Ora estes onze artistas, de que nunca ouvi falar e por isso assumo aqui a minha ignorância, até pintam muito bem: olhós barquinhos com reflexos na água, olhó pôr-do-sol no mar e as crianças a brincar na areia, olhás curvinhas da Filó e as rugas salgadas do sr. André imortalizadas pelo pincel internacional! Que pincel… Também o sr. António, que andou a pintar a minha casa no Alentejo, pintou tudo muito bem e nem por isso é artista. Portanto já sabem e não digam que ninguém vos avisou: até ao dia 16, se estiverem em Santa Cruz, arriscam-se a ser imortalizados, por via deste I Encontro Internacional de Aguarela. E já agora, só para terminar, pois eu ainda tenho de ir apanhar o avião para as Maldivas – ou Malvinas, sei lá – alguém ouviu a história de William M. V. Kingsland, um velhinho rores de rico de Manhattan, que se passou para o lado de lá, em Março de 2006, sem herdeiros, e deixou a ninguém uma colecção de arte, arte à séria, com mais de trezentas peças, em grande parte roubadas? E não estamos a falar de aguarelas de Pedrajas nem de Pandoras, não desfazendo, mas de quadros, desenhos, esculturas e outras peças de artistas como Picasso, John S. Copley, Giacometti, Morandi e Eugene Boudin… Pois é. As autoridades nova-iorquinas estão agora a pedir ajuda à população para tentarem saber a verdadeira origem de diversas obras da colecção particular do tal velhinho safado. O caso estalou quando contrataram as leiloeiras Christie`s e Stair Galleries para avaliarem os bens amontoados na vivenda, tendo em vista leiloar os mais valiosos. Foi assim que a Christie`s se apercebeu da proveniência duvidosa de algumas das obras. O velhinho possuía algumas sabidamente roubadas nas décadas de 60 e 70 do século passado. Esta história vem-me esclarecer uma outra notícia desta semana, que relata o roubo de três quadros expressionistas do Museu de Gelsenkirchen, no oeste da Alemanha. Palmaram uma aguarela: "Retrato de Mulher", de Nolde, a gravura policromática sobre madeira "Kopf Dr. Pauli", de Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938), e a litografia "Vier Akte auf einer Waldlichtung", de Otto Müller (1874-1930), avaliados em várias dezenas de milhar de euros. Acho que estamos todos esclarecidos... Afinal o tal velhinho de Manhattan deixou herdeiros.
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