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19-Nov-2008
David Goldblatt em Serralves | Intersecções Intersectadas PDF Imprimir e-mail

By João Fernandes, on 15-08-2008 02:35


 David Goldblatt mostra em Serralves, no Porto, até 12 de Outubro, uma série de cerca de uma centena de fotografias representativas dos seus 50 anos de carreira, em exposição intitulada “Intersecções Intersectadas”. Publicamos o texto de João Fernandes, director do Museu de Serralves, para o catálogo da exposição, e nos próximos dias publicaremos também os textos de Ivor Powell e Ulrich Loock. Comissário da Exposição.

Intersecções Intersectadas
Prefácio e Agradecimentos

Iniciado nos primeiros anos da década de 1960, o trabalho do fotógrafo David Goldblatt tem vindo desde então a enriquecer a memória colectiva com algumas das imagens mais reveladoras dos tempos actuais.

A realidade que registou ao longo de todo este tempo tem sido, com muito poucas excepções, a do seu país natal, a África do Sul. Na época em que Goldblatt abraçou a fotografia como profissão, o apartheid – um sistema de identificação, separação e discriminação raciais baseado numa ideologia da supremacia branca – afectava todos os aspectos da vida nesse país. A princípio, o desejo de dar a conhecer ao mundo os intoleráveis desenvolvimentos da política do apartheid constituiu uma forte motivação para Goldblatt. Mais tarde, começou a concentrar-se não tanto no registo de eventos mas mais na revelação das estruturas que os condicionavam e as suas imagens começaram a manifestar a quietude de estados de existência profundamente enraizados. Estes nunca eram, contudo, concebidos como essências abstractas, antes exibindo sempre as marcas da história, da sociedade e da política. Desse modo, David Goldblatt inscreveu a sua obra num discurso pictórico inseparavelmente ligado a nomes como Eugène Atget, Walker Evans e Dorothea Lange. Depois do apartheid, Goldblatt desenvolveu novas formas de representar uma sociedade fundamentalmente transformada. Começou a explorar a cor, a paisagem e formatos maiores, adoptando também uma estética menos interessada em realçar grandemente certos objectos ou indivíduos do que em espalhar uma série de diferentes elementos de igual importância por vastas áreas da paisagem e do plano pictórico.

A obra de Goldblatt aborda, antes de mais e claramente, a realidade que melhor conhece (porque dela faz parte) e que mais o interessa: a sociedade sul-africana sob o apartheid, violentamente fracturada, e uma nova sociedade democrática, que enfrenta ainda o desafio de descobrir uma forma de lidar com as suas muitas contradições. Apesar da sua especificidade social, política e geográfica, o seu trabalho é tudo menos paroquial. As fotografias de Goldblatt apresentam ao público das mais variadas latitudes as opções que as pessoas fazem sobre formas de vida, o modo como elas entendem a sua situação, o seu passado, as suas esperanças e preocupações, e formas de abordar a vida das pessoas através de imagens feitas por um só indivíduo. Fazendo acompanhar as suas fotografias por legendas explicativas, Goldblatt dissipa quaisquer dúvidas a respeito do seu referente específico. No entanto, tudo o que há de particular nestas imagens prende-se com as particularidades de diferentes instâncias, sociedades e culturas, que serão entendidas pelas pessoas a que dizem respeito.

Goldblatt não introduziu o seu trabalho fotográfico no mundo da arte (hoje em dia o seu principal contexto de distribuição) com a intenção de desafiar os conceitos tradicionais de arte, como poderá dizer-se, por exemplo, a propósito de Bernd e Hilla Becher. É provável que Goldblatt nunca tenha tentado activamente impor o seu trabalho como “arte” e, tendo em conta a incontornável importância da sua obra, quaisquer tentativas de definir critérios para classificar as imagens como “fotografia” ou “arte” parecem irrelevantes. Não obstante, o trabalho de Goldblatt difere ao mesmo tempo profundamente de muita fotografia contemporânea frequentes vezes invocada a favor de uma suposta “viragem documental” da arte mais recente. Um importante elemento distintivo da sua obra é o rigor formal e a inteligência que transformam a própria condição e o envolvimento do fotógrafo numa parte indelével e claramente formulada da realidade das coisas retratadas.

Orgulhamo-nos de poder apresentar uma vasta exposição de fotografias de David Goldblatt, muitas delas recentes e muitas outras remontando a vários anos ou até décadas atrás. Algumas foram expostas antes, outras não. Fora da África do Sul, o trabalho de Goldblatt nunca antes fora apresentado sob a forma de pares, como os que constituem o núcleo central do presente livro. Estamos muito gratos a David Goldblatt, pelo tempo e a energia que consagrou a esta publicação e à exposição, como também a Ivor Powell, por ter aceitado o convite para escrever neste livro e por partilhar não só a sua incisiva análise da relação de Goldblatt com os temas das suas fotografias mas também a sua visão corrosiva sobre a situação actual da África do Sul. Gostaríamos também de agradecer o apoio de Michael Stevenson, Federica Angelucci e Sophie Perryer, da Michael Stevenson Gallery, na Cidade do Cabo, bem como o de Didier Mukendi, da Goodman Gallery, em Joanesburgo. A sua ajuda foi crucial em várias fases do desenvolvimento deste projecto.

Uma palavra de agradecimento também para Ulrich Loock, pelo seu olhar surpreendente e um profundo conhecimento da obra de Goldblatt, e para o profissionalismo dos vários colaboradores do Museu de Serralves, nomeadamente Marta Moreira de Almeida, coordenadora do Serviço de Exposições, Daniela Oliveira, Registrar da Colecção, Maria Ramos, coordenadora do presente livro, e todos os elementos da equipa de montagem do Museu.

Não poderei igualmente deixar de expressar o nosso reconhecimento ao BES, Patrocinador Exclusivo desta exposição, cujo generoso apoio financeiro nos ajudou, uma vez mais, a concretizar um tão ambicioso projecto na área da fotografia, que o BES tem vindo a dinamizar de um modo tão único quanto diversificado no contexto português.

João Fernandes
Director do Museu de Serralves

 

 


   

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