| By Vasco Vidigal,
on 17-08-2008 00:05
|
Paulo Serra expõe de 4 a 30 de Setembro na Galeria Bernardo Marques, em Lisboa. Vasco Vidigal escreveu sobre a evolução e a obra do autor.
“Pegadas” mediadas por uma cultura Paulo Serra (Olhão, 1965), vive e trabalha em Lisboa e Faro. Descobre a sua vocação ao frequentar a Escola Tomás Cabreira, em Faro. Em 1996, entra na Faculdade de Belas Artes, da Universidade de Lisboa, à qual não se adapta, regressando pouco depois a Faro. Desenvolve a sua obra nesta cidade desde então — exceptuando uma estadia em Berlim, em 2005 —, com o apoio de artistas como Bartolomeu Cid dos Santos, António Costa Pinheiro e Manuel Baptista. Expôs o seu trabalho, individual e colectivamente, em várias mostras por todo o Algarve e em Lisboa. Embora interessado em pintura, a disciplina plástica da eleição de Paulo Serra é o desenho. A sua prática quotidiana ao longo dos últimos doze anos, permitiu a obtenção de resultados que o confirmam agora, como um dos mais importantes artistas plásticos algarvios emergentes. No começo, o mundo “desenha” o desenhador — como de resto, “desenha” todos nós. No caso de Paulo Serra, este facto banal determina um percurso — que parte de uma matriz estética periférica, desactualizada e provinciana — tanto como maldição quanto como poderoso estímulo ao seu desenvolvimento enquanto autor. Não é, portanto, de estranhar, que os seus trabalhos partam de modelos localizados nas vanguardas da segunda metade do séc. XIX — quando a tradição representativa renascentista, ainda presente, se conjuga com a exploração de novos recursos e a busca de novos sentidos para a prática artística. A partir daí, todo o seu esforço passa a ser de actualização, compreensão e assimilação das linguagens e processos artísticos desenvolvidos até hoje, incorporando este conhecimento na sua obra, numa prática tipicamente contemporânea. Com efeito, Paulo Serra começa por desenhar do natural, privilegiando nas suas escolhas a dimensão afectiva: quer as figuras humanas — escolhidas entre familiares e amigos —, quer os objectos — colhidos de locais familiares ou simbolicamente relevantes. Esses desenhos, na maioria realizados deliberadamente num estado de frenesim emocional e físico, de forma intuitiva e automática, actuam como o “sismógrafo” de um ambiente de sentido, mais que como instrumentos de representação da realidade exterior. Essa realidade, neste primeiro momento do desenho, actua sobretudo como percussor e indutor de um estado psicológico-físico único e irrepetível, que idealmente teria como consequência a obtenção de um original “autêntico” e “verdadeiro”. Ainda que, por vezes, o material assim obtido seja já desenho acabado, normalmente ele é ainda “tratado” na solidão do estúdio, decidindo-se aí o que se deverá mostrar e o que é de eliminar, acrescentando e/ou sobrepondo novos elementos. Esta nova fase, comporta dois momentos distintos: num, caracterizado por uma serena racionalidade, o autor analisa o já grafado; no segundo, emocional e intuitivo, num estado psicológico particular, escolhe os elementos necessários ao “acabamento” da obra, reciclados de memórias, de textos ou de outros desenhos — é aqui que o desenho “desenha” o desenhador. Portanto, parece sensato considerar as obras que Paulo Serra agora nos apresenta não como simples retratos (na acepção tradicional do género) — embora incluindo a representação realista de fisionomias —, nem mesmo como auto-representações estilizadas de um carácter peculiar, mas, sobretudo, como registos documentais e humanos de um momento histórico vivido, “pegadas” mediadas por uma cultura. © 01JUL 2008, Vasco Vidigal |
|
|