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07-Jan-2009
A incompletude em Rui Effe PDF Imprimir e-mail

By valter hugo mãe , on 17-08-2008 00:17


 Rui Effe expõe na Galeria Bernardo Marques, em Lisboa, de 4 a 30 de Setembro. Valter Hugo Mãe analisa a obra do autor em artigo que publicamos na íntegra.

Circo completo, sobre o trabalho de Rui Effe

A incompletude será um dos elementos fundamentais da obra de Rui Effe. O que percebemos na narratividade dos seus trabalhos passa invariavelmente por ausências que tendemos a estranhar. A sobreposição das figuras, como se tempos e espaços se convocassem de uma só vez, é assinalada com o inesperado da mutilação e do excerto. As suas personagens podem não ter membros ou não ter cabeça, como podem compor-se de naturezas diferentes, entre a humana e a bestial, bem como se podem encontrar espalhados pela imagem excertos do corpo, mormente pénis, que parecem adornar ironicamente a obra, como bibelots na obra que a desmistificam e contendem com a sua mensagem mais cruel, por vezes até grotesca.

É necessário que se ultrapasse imediatamente a superfície mais encantatória destas imagens, porque o seu lado limpo e de franca leveza, obtido pelo delicado do desenho e muito do seu universo de referências, como os belos membros ou os corações, é apenas um isco para o conteúdo mais impiedoso onde a problemática do corpo se coloca como uma obsessão por uma perfeição impossível. É sob essa capa de quase ingénua beleza que se mostra, e sem na verdade estar minimamente escondida, uma aflita concepção da vida; a narrativa de um sem número de atropelos no corpo que obrigam ao apelo a uma destreza motora diferente, talvez inviável, aludindo sem dúvida ao complexo ímpeto no qual cada indivíduo se adapta e se apropria do mundo enfrentando limitações muito distintas. São terríveis as situações que começamos a encontrar neste circo louco, em que todos se apresentam como raros exemplares da raça humana, exemplares únicos, tão fascinantes quanto dramáticos que, sob o trompe l’oeil do traço sensível e do branco cândido, compõem uma galeria de medos e desejos tão perigosos quanto imorais. A aberração, tanto quanto tendemos a ver nos comportamentos desviantes uma aberração, e comportamentos estes aqui corroborados por uma perspectiva de desvio que parte desde logo do desvio físico, é o resultado mais efectivo do trabalho de Rui Effe; uma aberração de que somos forçados a extrair um prazer, equivalente ao que nos acontece no circo, quando vemos gente diferente que, pela diferença, nos vende uma fantasia sobre a espécie humana que tanto nos atrai como repele. Com este jogo, vemos os dois lados da questão, essa circense felicidade de rentabilizar um defeito ou uma incompletude ou uma demasia do corpo, que leva muitas vezes à admiração, como vemos também a violência da existência levada a cabo num corpo desigual que parece solicitar ao mundo uma medida desigual em todas as coisas, como se tudo se devesse compadecer com tal problema e adulterar, deturpar, num sinal de contaminado respeito.

Nesta fuga tão clara aos padrões mais reconhecíveis, os quais podemos agrupar sob o signo da sempre indefinível normalidade, não admira que também se reconheça alguma euforia, ou porque o espírito se corrompe ou, talvez melhor, porque se fortalece e se levanta de qualquer dos modos, com a força inusitada de quem ultrapassa claramente aquilo que esperávamos. É fácil falar de loucura, mas talvez faça sentido falar em uma outra sanidade, aquela que não encontra no obstáculo uma demissão mas antes um capital, quase sempre erótico, que proporciona uma sublimação admirável.

Que a impressão de incompletude se mantém é inevitável, mas talvez por meios inesperados se componham as personagens e as histórias de bom susto que aqui se contam, numa coerência apenas comprometida com a necessidade de problematizar a diferença, como esta também não pode deixar de viver eroticamente, e como aquilo que nos amedronta pode estar à espreita para o nosso futuro e a aprendizagem da utilização mais insuspeita do corpo pode tornar-se necessária. Entre a inevitabilidade do desejo erótico e a dificuldade de o evidenciar no corpo mutilado ou, por qualquer motivo, deformado, está o circo que, neste prisma, é o único que se completa, variado, belo, assustador, divertido ou cruel, como o circo foi feito para ser.

valter hugo mãe

 

 


   

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