| By Luís Pinheiro,
on 17-08-2008 23:16
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Hoje, as capacidades que um artista é obrigado a desenvolver pouco ou nada têm a ver com a Arte. Interessa mais o tecer de relações no meio do que o valor do trabalho realizado e exposto. A Obra corre o risco de desaparecer.
“Loja e guilda diferiam, em princípio, na medida em que a primeira era uma associação de empregados hierarquicamente organizados, enquanto a segunda, pelo menos no começo, consistia numa associação, em termos iguais, de empresários independentes. A loja era uma organização colectiva indivisa, na qual ninguém era livre, nem mesmo o administrador e o arquitecto, pois também estes tinham de trabalhar de acordo com um plano concebido e traçado pelas autoridades eclesiásticas, e no qual seus requisitos eram usualmente especificados até aos últimos detalhes. Nas oficinas individuais, por outro lado, que compunham uma guilda, os mestres-artesãos tinham liberdade não só de dispor de seu tempo, mas também de escolher os meios artísticos. Os estatutos, embora reflectissem muitas vezes uma visão estreita, limitavam-se normalmente a especificações técnicas.” (Arnold Hauser, História Social da Arte e da Literatura)  Actualmente, os artistas começam a ser obrigados, como se sabe, a desenvolver de forma acentuada capacidades que em nada se prendem com a criação – se for sua intenção fazer dessa actividade a sua fonte de subsistência. Para que tem um artista de aprender relações públicas, “marketing”, publicidade e línguas estrangeiras, Inglês de preferências mas, se possível, também o Francês, o Castelhano e o Alemão? Sintomas da globalização? Reflexos do cosmopolitismo económico? Ou “imposições” que derivam de necessidades artificiais, exteriores ao trabalho artístico e relativas à promoção da “arte” enquanto mercadoria? Para o artista, a desejável concretização da Obra apenas será possível se ele desenvolver uma atitude de respeito para com o trabalho que realiza – o que se torna difícil quando interesses monetários e outros se sobrepõem ao processo criativo. Muitas vezes a concretização de um verdadeiro trabalho é colocada em risco, e o seu valor quase sempre comprometido, pelas razões que o motivam. Será que é arte o que se faz e comercializa quando um artista é obrigado, por razões mercantis, a manter-se num registo em que já não se revê? Muitas são as questões que se relacionam com este aspecto do fenómeno artístico e todas elas se encontram, por certo, dependentes dos valores em que o conjunto da população se revê na actualidade. Ter um elevado estatuto social, um emprego ou seguir uma profissão podem apresentar muitas semelhanças, mas são certamente coisas diferentes. Ou pretende-se que o não sejam? É o que se pode levar a pensar quando um artista cede a terceiros – ao curvar-se aos seus caprichos –, o seu instrumento de trabalho: o processo de criação. O artista, para além do domínio das técnicas e da transposição clara da sua “voz” para a obra, deverá assim desenvolver capacidades de diálogo e autopromoção – para as quais são essenciais o estudo de relações públicas, “marketing” e publicidade – junto daqueles que poderão assegurar o seu sustento, quer seja um público-alvo, quer sejam comissários e galeristas. Se os pretender satisfazer terá que fazer o seu trabalho de acordo com as exigências do mercado: construir o seu estilo e manter-se nele, seguir a moda do momento e criá-la assim que tiver a possibilidade de o fazer. Mais ainda: se as suas pretensões visarem uma carreira internacional – essencial para conseguir expor nos principais espaços – deverá estudar e praticar línguas estrangeiras e frequentar residências e formações fora do seu país natal. A actividade artística, como qualquer outra, é enquadrada pelo contexto internacional. A globalização tem, contudo, um lado perverso: a tendência para a excessiva concentração da propriedade, do poder, e da resultante criação de monopólios e estandardização dos produtos, a fim de aproveitar as economias de escala. É um mito a “diversidade” que se pretende associar às actuais formas bravias de capitalismo. A diversidade só seria possível se existisse, de facto, livre concorrência. Nos últimos anos multiplicaram-se as formas de domínio da população mundial e só em casos extremos a violência física é um deles, enquanto se sabe já que se não houver alteração do sistema os recursos serão esgotados e a sustentabilidade e a sobrevivência da humanidade comprometidas. A meia dúzia de “grandes proprietários” tem assim pela frente um “reinado” num mundo artificial, estéril e monótono. E o artista? E a arte? Para o artista comprometido, a sua sobrevivência será possível, durante alguns anos, se conseguir ascender ao estatuto de vedeta, o que lhe permitirá expor de forma contínua e simultânea. Para o outro, a possibilidade passa pelos espaços alternativos e pelo desenvolvimento de trabalhos que coloquem em causa o sistema, quer na concepção formal e matéria das obras, quer nos conteúdos expressos. Nas últimas décadas, o conceptualismo e a “land art” – quando não estiveram ao serviço do sistema – foram pródigos em exemplos dessa contestação. A independência do trabalho artístico é uma necessidade imposta pelas suas próprias características. O processo fica comprometido quando um artista cede à tentação e realiza trabalhos para “agradar” – ao público, ao galerista, ao curador e ao crítico – ou segue uma moda, que tanto pode compreender a concretização formal, os meios em que se expressa ou os conteúdos. Ser abstracto, figurativo, conceptual, ou fazer vídeo, pintura ou escultura, são decisões que devem surgir da necessidade interior do real desenvolvimento do trabalho artístico individual. Apenas dessa forma se verificará uma transformação e crescimento que se tornarão visíveis na Obra. A forma como olhamos o passado tem a ver com a nossa própria formação e as ideologias que partilhamos. Apenas por uma experiência directa e de carácter omnisciente – que os historiadores não têm – seria possível vê-lo de outra forma. Assim, quando se pensa na actividade artística na Idade Média e nas instituições que a enquadravam, as lojas e as guildas, os mestres, discípulos e aprendizes, é-se levado a uma de duas perspectivas. Ou a um olhar romântico, que a sobrevaloriza em relação à presente e a procura recuperar; ou a uma perspectiva burguesa e economicista, que a reduz a uma perspectiva de produção e comércio. A recuperação do sistema medieval não é a solução para o artista actual, embora ele tenha muita a aprender com os seus antepassados. Apenas com uma revolução nos valores do artista e nos motivos que levam à sua “produção” artística será possível inverter esta situação. Se não houver alteração, os artistas – pela natureza do seu trabalho tão sujeitos a necessidades de afirmação egórica – terão de continuar a gerir situações de compromisso com o sistema, alternando Obra e Mercadoria , no melhor dos casos.. Ter um emprego corresponde a assegurar a subsistência. Ter uma profissão envolve um percurso dentro de uma mesma actividade, pressupõe uma possível carreira e poderá, em alguns casos, ser factor de desenvolvimento individual. Ter um Ofício é ter uma Vida. No passado ter um Ofício representaria algo mais do que um percurso, era uma forma de vida que implicava, é certo, a sobrevivência mas também um compromisso total com uma dada actividade. A atitude do artista para com a sua actividade implicava respeito. Os valores em que a sociedade assentava eram mais vastos do que os actuais, tão limitados pela importância conferida ao dinheiro. Ao artista contemporâneo compete a alteração da situação a que, pouco a pouco, se deixou submeter, deixando de lado, na sua atitude de inserção no sistema da arte, o respeito e a valorização do processo de criação artística. A descoberta pessoal, a pesquisa artística e o desenvolvimento técnico serão os instrumentos essenciais a eleger como as ferramentas que lhe permitirão realizar e estabelecer a sua Obra aqui e agora. |
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By: filipeN () on 20-08-2008 19:12