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06-Jan-2009
A vedeta, o génio e o consagrado | copy/paste PDF Imprimir e-mail

By Luís Pinheiro, on 26-08-2008 00:23



No mundo das artes, a vedeta, o génio e o consagrado confundem-se. O sistema, ao promover os seus valores próprios, contorna e deturpa definições e estabelece analogias onde as não há. A defesa da sua estrutura implica também a negação do génio – o único que tem a possibilidade de lhe escapar ao controlo.

“Como produtor, sei que a arte precisa ser, antes de mais nada, comercialmente popular para ser bem-sucedida, e que um dos maiores factores de sucesso, comercialmente falando, é a popularidade de suas estrelas.” (Alfred Hitchcock, “Precisamos de estrelas?” em “Hitchcock por Hitchcock”)

 

  As razões que levam o sistema a optar pela estratégia do “comercialmente popular” prendem-se, sem dúvida, com o estatuto social que criou em torno do artista. Para a construção da imagem com que o “artista” é apresentado à admiração popular contribuíram a valorização individual adquirida na Renascença e o movimento romântico ao acentuar a ideia da “inspiração divina”.

O artista, quando genial, adquire um estatuto sobre-humano – e está assim criado um mito contemporâneo em torno da ideia de genialidade. Interessa ao sistema ou que a “vedeta” e o “consagrado” sejam vistos como génios ou que esta última categoria seja considerada inexistente. Ao agir assim, garante que apenas o sistema tenha o poder, a capacidade, de interpretar, categorizar e valorizar a obra dos artistas.

Como se chegou aqui?

A ascensão social da burguesia alterou não só o estatuto do artista, como a própria atitude que este tem perante a sua obra. Com a proliferação de colecções, as capacidades técnicas dos artistas tornam-se no principal factor de diferenciação da obra e por ele se determina o seu valor monetário. Os artistas mais “dotados” começam a ser venerados.

  Com o movimento romântico e, posteriormente, com as alterações provocadas pelo aparecimento e difusão da técnica fotográfica, o artista encara a sua obra de uma outra forma. A inspiração, a expressão e a transposição do seu universo interior começam a sobrepor-se ao domínio da técnica, demasiado preso a regras académicas de reprodução.

O artista é visto então como um ser à parte, mais próximo da divindade que o comum dos mortais, sendo a arte uma actividade que engrandece quem a pratica.

A “originalidade”, que surge como consequência do desvio do artista em relação à arte “oficial” torna-se, contudo, com o tempo, uma imposição do próprio sistema.

Hoje, o “artista”, para fazer carreira, deverá desenvolver um estilo, e os seus trabalhos – objectos de valorização pessoal dos coleccionadores – deverão poder ser facilmente reconhecidos pelos observadores. As obras tornam-se objectos de decoração. O artista autoplagia-se. A novidade, como factor de mercado, apenas é utilizada pelas “vedetas” quando a sua produção/comercialização se encontra ameaçada e aí inauguram um novo “período”. O valor da obra está dependente não só do valor que adquire no mercado como da popularidade de quem a produziu (mesmo que se restrinja a uma “elite”).

  A massificação cultural implica uma redução da qualidade dos trabalhos que se exibem, quer no que respeita aos níveis de leitura em que se expressam, quer na generalização de padrões. O sistema elege as suas “vedetas” e consagra os seus “artistas” que lhe prestam vassalagem através de exposições retrospectivas e sorridente presença no cerimonial comum das entregas de prémios.

O génio – neste sistema que promove o “assalariamento” – não faz qualquer tipo de sentido. Há que conquistar o espaço que ocupou no passado, ou pela simples transferência das suas qualidades para a “vedeta” e o “consagrado”, ou mais simplesmente ainda, negando que exista.

O artista – e, em particular, o artista genial – será de facto um ser dotado de características especiais, que o colocam acima dos outros seres humanos? Ou não passa tudo de uma mistificação? Qual o papel desempenhado pelas normas e convenções sociais? Onde se diferenciam génio, vedeta e consagrado?

Etimologicamente. vedeta é a “sentinela que é postada em sítio alto e a distância do campo ou quartel-general; guarda avançada; soldado que é enviado à frente para dar noticias daquilo que observou” (Novo Dicionário Etimológico de Língua Portuguesa). No caso das artes, portanto, serão aqueles que o sistema elege para os representar na linha da frente. Representam os valores do sistema e têm extrema dificuldade em expressar qualquer visão pessoal, quanto mais contestar o sistema – o que implicaria um questionamento a si próprios.

  Uma vedeta é um fantoche. Uma marioneta. Um joguete para aqueles que, de facto, detêm o poder e tomam as decisões. O nível em que este “artista” se expressa será, na maior parte dos casos, o mais elementar possível para assim chegar junto de um público vasto[1].

Consagrar é “tornar sagrada uma pessoa ou coisa” (Novo Dicionário Etimológico de Língua Portuguesa). Na arte, os consagrados representam-se em dois conjuntos. Um primeiro grupo, o dos que o sistema consagra pela sua subserviência. E um outro formado por aqueles que adquirem esse estatuto graças ao duro trabalho desenvolvido ao longo da sua vida: a Obra. No primeiro caso o consagrado será a expressão máxima dos valores do sistema: os prémios e retrospectivas o confirmam.

O génio representa “talento criador; predisposição singular e excepcional de alguém para determinado acto; índole, carácter; propensão, inclinação; o grau mais elevado da inteligência humana; (…); fluido imponderável e invisível, que inspira uma arte, uma virtude, ou um vício” (Novo Dicionário Etimológico de Língua Portuguesa).

  Um génio é alguém que após árduas lutas, encontrou a sua identidade imersa na sua natureza mais profunda[2], a sua “fonte inesgotável” de inspiração – descobriu a sua “voz”, a “música” que transporta para as suas obras.

O artista genial reinventa-se. Procura novas soluções. Não se mantém muito tempo na mesma pesquisa ou resolução formal. O génio consegue dar “saltos” no “raciocínio” e estabelecer maior número de relações formais no desenvolvimento do trabalho que a média dos seus pares.

O artista genial consegue olhar e ver a realidade dotada da frescura primordial, como se fosse a primeira vez que estivesse a olhar para ela[3]. A criatividade e a criação estão ao seu alcance. Há, contudo, um risco: a quantidade. Tal como nas histórias d’“A galinha dos ovos de ouro” e d’“A lâmpada de Aladino” a ganância, a existir[4], pode condenar a sua obra – aproximando-a da da vedeta e de alguns consagrados[5].

  O génio tem estados alterados de consciência[6]. Encontra-se em contacto directo com o absoluto. A sua obra é dotada de intemporalidade. “Eterna” situa-se num tempo sem tempo. O génio vive não só a sua contemporaneidade como está à frente – ou fora – do seu tempo. O génio, que não está limitado por condicionalismos externos, faz o seu trabalho da frescura e originalidade que lhe são próprias e questiona o sistema por se situar para além dele.

Porque então a confusão entre personagens tão distintas? Se o “artista” que é vedeta for encarado como um “génio”, os seus trabalhos serão sobrevalorizados. A sobre-humanidade conferida à “vedeta” e ao “consagrado”, através da popularização e consequente adoração, tenta aproximá-los do génio, no entanto, serve apenas intuitos de valorização comercial.

O mito da sobre-humanidade do artista genial tem a sua razão de ser. Não porque todo o artista seja um génio – muito longe disso – mas porque um génio é de facto alguém dotado de uma capacidade especial, que o coloca acima dos seus pares e, também, porque a natureza do trabalho artístico favorece a descoberta e a catarse pessoal – do artista e do observador participante.

  A genialidade do artista, quando não é posta ao serviço do sistema – e se perde – é contestada, pois a sua existência perturba. Por outro lado a imprevisibilidade do génio não permite o seu controlo. Há pois que seduzir o génio, integrando-o através de benesses especiais ou a troco da popularidade, que ameaça quase sempre a qualidade da obra. Os exemplos são tantos…



[1] O cúmulo do vedetismo em que a cultura se expressa nos seus níveis mais baixos tem sido assegurado, nos últimos anos, através da televisão: programas da manhã, concursos televisivos, aventuras e programas da vida real. Estes programas, apesar de nalguns casos apresentarem a um espectador mais atento e consciente um novo ângulo de visão e compreensão da contemporaneidade, procuram levar as vivências das pessoas a níveis inferiores aos já críticos das telenovelas e programas desportivos, reduzindo ainda mais a sua capacidade de entendimento.

[2] Acedeu ao seu inconsciente sem se deixar dominar por ele.

[3] Tal como uma criança.

[4] Sinal de que se encontra ainda preso a formas de reconhecimento externo, e a sua busca não é “pura”.

[5] Pablo Picasso, por exemplo, para além de implementar a renovação constante, por vezes artificial, repetiu-se em inúmeros trabalhos. Era a “estrela” da sua época.

[6] Num século dominado pelo materialismo e pela exterioridade esta concepção poderá parecer estranha, embora os artistas continuem a procurar – por vezes de forma errada, sem controlo e com risco para a sua saúde, como no caso do consumo de substâncias alucinogénias – estados alterados de consciência.

David Lynch é um exemplo: o realizador pratica meditação transcendental e têm-na divulgado em várias entrevistas. Inúmeros outros exemplos de artistas que recorrem a métodos ocidentais e orientais para despertar os centros de percepção do corpo humano, havendo escolas em que se realizam fusões entre estas práticas e a actividade artística.


   

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