| By MOTELx,
on 31-08-2008 16:36
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Sobre a Nouvelle Vague do cinema de terror francês publica-se um texto do MOTELx, Festival Internacional de Cinema de Terror, na sua 2ª edição e que decorre entre os dias 3 e 7 de Setembro em Lisboa.
Tal como o próprio cinema, também o género Terror tem as suas raízes em França. Primeiro com a tradição burlesca e macabra do Teatro Grand Gignol, um espaço exclusivo para representações teatrais onde a encenação da violência era o principal motivo, e em seguida, com o filme La Manoir du Diable (1896) do pioneiro George Méliès, oficialmente o primeiro filme de terror da História do Cinema. Mas, apesar deste antecedentes o género não se tornou moda e foi preciso esperar mais de uma década para voltar a ver sinais de alguma ousadia estética e temática nas obras de autores como Abel Gance, Louis Feuillade ou Luís Buñuel e o seu Un Chien Andalou. Originalidade só a voltamos a encontrar em 1955, com a obra-prima de Henri-Georges Clouzot, o maior rival de Alfred Hitchock ao título de “Mestre do suspense”, Les Diaboliques. Simone Signoret e Vera Clouzot assassinam o amante da primeira e marido da segunda, para mais tarde, numa sequência antológica, descobrirem que não foram bem sucedidas. No entanto, este filmes resvala mais para o território do thriller policial do que para o terror. Mais cinco anos, e podemos falar do primeiro e verdadeiro filme de terror francês, Les Yeux sans Visage realizado por Georges Franjú, co-fundador da Cinemateca Francesa com Henri Langlois. O filme conta a história de um médico em busca de vítimas com o rosto perfeito que substitua o de sua filha, desfigurada num acidente. De referir também a obra de Jean Rollin, cujo estilo gótico-erótico aproxima o seu trabalho ao do espanhol Jess Franco. As décadas de 70 e 80 foram praticamente inexistentes, a eclosão da Nouvelle Vague ditou o afastamento de códigos cinematográficos restritos provenientes do cinema clássico norte-americano. Durante este tempo, com implantação do vídeo doméstico, os jovens franceses foram consumindo vorazmente as obras dos cineastas pós-clássicos americanos como Carpenter, Romero, Craven ou Hooper e à explosão do Gore italiano através dos filmes de Argento e Fulci. Mas, foi neste período que Luc Besson começou a trabalhar num meio-termo entre o cinema de autor francês e os géneros de Hollywood. O seu trabalho enquanto realizador, argumentista e produtor é determinante para o ressurgimento do cinema de género em França. No entanto, a geração de cineastas que lhe segue evita de imediato o compromisso a um género específico preferindo incorporar elementos do filme de terror em algo radicalmente novo, o thriller social. Alguns exemplos desta tendência: Seule contre Tous (1998) de Gaspar Noé, Harry, un Ami qui Vous Veut du Bien (2000) de Dominik Moll, L’Emploi du Temps (2001) de Laurent Cantet, Trouble Every Day (2001) de Claire Denis, Dans ma Peau (2002) de Marina de Van, Qui a Tué Bambi? (2003) de Gilles Marchand, Twentynine Palms (2003) de Bruno Dumont. Até que um belo dia surgiu no maior festival de cinema fantástico e terror do mundo, Sitges, um filme chamado Haute Tension, realizado por um rapaz de 25 anos de nome Alexandre Aja. Passaria despercebido se não ganhasse praticamente todos os prémios menos o principal, tornando-se num dia para o outro num clássico de terror para o novo milénio. Tratava-se de um filme de terror brutal no qual Philippe Nahon personifica o papão que persegue com uma lâmina de barbear as jovens Cécile de France e Maïwenn Le Besco pelo campo fora. Um brilhante exercício de tensão cinematográfica pontuado com uma violência gráfica até então rara no cinema gaulês. A explicação para este fenómeno de deslocamento prende-se com as influências confessadas pelo próprio Aja e pelo argumentista Grégory Levasseur, ou seja, os survival movies norte-americanos dos anos 70, nomeadamente The Texas Chainsaw Massacre e Deliverance, filmes marcados por uma representação crua e realista da violência resultado de situações limite perante as quais os personagens são colocados. Assim desde 2003, ano de estreia de Haute Tension, surgiram produções como Calvaire (2004) de Fabrice Du Welz (exibido no IFP pelo CTLX), Saint Ange (2004) de Pascal Laugier, Ils (2006) de David Moreau e Xavier Palud, Sheitan (2006) de kim Chapiron, Frontiére(s) (2006) de Xavier Gens e À L’Intérieur (2007) de Julien Maury e Alexandre Bustillo. O que distingue esta vanguarda francesa da congénere americana que continua a dominar o mercado das estreias de terror? Enquanto Hollywood continua a despejar no grande ecrã releituras dos velhos clássicos do terror norte-americano de acordo com o vocabulário visual dos espectadores do novo milénio ou adaptando para inglês filmes asiáticos, esta geração de cineastas franceses nos seus trinta tem recuperado uma estética da violência que, ao contrário dos seus conterrâneos americanos, actualiza o perigo, a coragem e o poder do cinema de terror politizado dos anos 70, a época de Dawn of the Dead, The Texas Chainsaw Massacre, The Last House on the Left, Shivers, Cannibal Holocaust, entre outros. Há uma certa ironia no facto de ser em França que habita esta vanguarda do terror, principalmente se atendermos ao facto de alguns jornalistas chocados por filmes como Saw ou Hostel, se referirem a este movimento como Torture Porn. Mas se é verdade que estes são mais violentos que os seus antecessores, também é verdade que autores como James Wan, Rob Zombie ou Eli Roth têm plena noção do seu público, maioritariamente adolescente, dotando os seus filmes de um forte carácter referencial mas na sua essência, lúdico, defendendo o excesso gráfico como uma reacção natural aos acontecimentos pós-11/09. Os franceses, por sua vez, não fazem filmes para adolescentes e recuperaram o conceito de “terror adulto”, colocando o espectador perante o questionar permanente da sua própria condição, transformando a sessão de cinema numa experiência “traumatizante”, que fica impressa no subconsciente. O cinema de terror não é suposto ser agradável, aliás é um género, tal como foi definido por Lovecraft, contra o público. |
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