| By Malcolm Miles,
on 31-08-2008 23:08
|
"A Arte… não produz conceitos, ainda que proponha problemas e provocações. Mas gera sensações, afectos e intensidades. Esse é o seu modo de propor problemas, que por vezes se alinham com… conceitos…" Grosz, E. Chaos, Territory, Art: Deleuze and the framing of the earth, New York, Columbia University Press, 2008, p. 1 Elizabeth Grosz, recorrendo às reflexões de Gilles Deleuze e de Luce Irigaray, articula a arte à intensidade: uma sensação de experiência de elevação (somática) através de impressões dos sentidos – em contraste com as histórias da arte convencionais nas quais a arte representa estruturas de valor em evolução e os conceitos que informam e são re-informados por tais estruturas.
A natureza mútua desta suposta relação da arte com as estruturas de valor subscreve o modelo do materialismo dialéctico: o sujeito económico-político (o cidadão, nas histórias liberais) é moldado pelas (mas também intervém nas) condições de existência. Uma tal postura ecoa a relação biunívoca entre o uso das palavras (parole) e as regras da linguagem verbal (langue) na teoria de Saussure: usando as palavras de novas maneiras, re-inflecte a compreensão comum das regras da linguagem. A introdução de novos termos em novas formações sociais muda o terreno mais vasto dos conceitos e valores, mesmo se marginalmente. Este era o entendimento da história da arte moderna. Para o crítico Clement Greenberg, por exemplo, é suposto que a arte deve manter a arte a mover-se, numa sucessão de movimentos de vanguarda em que cada um deles renuncia (mas inevitavelmente recorre) ao movimento antecedente. Um tal modelo do desenvolvimento da arte mostra-se incompatível com a compreensão proposta por Grosz, onde a arte traduz uma erupção, uma ruptura emergente, uma emergência. Esta posição tem precedentes na poesia de Baudelaire e Rimbaud, bem como no Dada, no Surrealismo e no Situacionismo. Ora, na ideia de Walter Benjamin (nas suas Teses sobre a História) de que o estado de emergência se tornou a norma, e no seu conceito do ‘tempo-agora’ (Jetztzeit): ‘um tempo intensivo, qualitativo que se torna visível em “estados de emergência” […] ‘como uma história dos anónimos opositores do historicismo dos governantes (Buci-Gluksman, C. Baroque Reason: the aesthetics of modernity, London, Sage, 1994, p. 44). O discernimento de uma relação entre cultura emergente e um estado de emergência articula, igualmente, a novos trabalhos na geografia humana. Nigel Thrift, por exemplo, em Non-Representational Theory: Space, politics, affect (London, Routledge, 2007) sugere a necessidade de geografias da sensação, propondo uma ‘micro-bio-política’ de momentos de mudança incremental e rizomática. Assim sendo, entre o modelo modernista de uma vanguarda e uma arte de momentos emergentes, existe um eixo potencial de compreensões incompatíveis quanto à produção e à recepção artísticas – como a arte acontece. A arte efémera nos anos 60, como os happenings e a arte auto-destrutiva, anuncia a recusa de uma continuidade, recusa essa baseada no distanciamento de uma corrente principal. Hoje, a arte relacional e dialógica, desde os anos 90, oferece uma recusa adicional simultaneamente do moderno e da perspectiva protagonista. Mas trata-se de mais do que um outro desvio por parte da arte, uma aparência do novo? Ou um corte radical? No entanto, tentar responder a tais questões retóricas não é o ponto central. Revela-se mais interessante interrogar o hiato entre o moderno e o pós-moderno, ou seja entre, de um lado, a continuidade moderna da partida e, de outro lado, a fractura, o quiasma ou o vislumbre do caos. As polaridades deste eixo são constituídas não apenas pelas histórias de arte incompatíveis mas igualmente pelas compreensões discretas operadas na filosofia. Como escreve Grosz, ‘A arte, como a própria natureza, é sempre um estranho acasalamento, uma simultaneidade de duas ordens das coisas, uma delas caótica, a outra ordenada, uma dobrando e a outra desdobrando, uma sendo contração e a outra dilação’ (Grosz, Chaos, territory, art, p. 9). Prof. Malcolm Miles Universidade de Plymouth, Reino Unido Trad. Pedro Andrade |
|
|
By: filipeN () on 02-09-2008 19:16