plataforma virtual para a comunidade das artes plásticas e visuais
1ª Página arrow Opinião/Crítica arrow Alexandra do Carmo: a procura da própria prática do artista | entrevista  
05-Fev-2012
Alexandra do Carmo: a procura da própria prática do artista | entrevista PDF Imprimir e-mail

By Nuno Cunha*, on 18-09-2008 14:42


 Em Brooklyn (Nova Iorque) Alexandra do Carmo visitou e filmou edifícios de manufacturas que estão a ser transformados em ateliers de artistas. Com isso produziu um vídeo onde reflecte as questões de especial interesse para si: a própria prática do artista.

Vive e trabalha entre Lisboa e Nova Iorque e inaugura uma exposição, no próximo dia 17 de Setembro, na Galeria Carlos Carvalho, em Lisboa.

 Porque usa uma tão grande diversidade de meios de expressão?

Conceptualmente o meu interesse principal tem a ver com assuntos relacionados com a própria prática do artista: o processo de trabalho, a postura do artista na sociedade, incluindo aspectos económicos e sociais, o artista integrado no meio.

O início de um projecto resulta sempre de uma situação que me desperta mais interesse, sobre o qual investigo, exploro, recolho informação. A par dessa investigação há um trabalho de desenho.

Nesse meio envolvente do artista, o que lhe interessa mais? O quotidiano? Coisas da vida ou da cidade? Questões sociais?

Sim, são questões de carácter social e económico. Coisas da vida do artista em ligação directa com o espectador e em que essa ligação é feita na rua, fora do atelier e da galeria. Interessa-me perceber como o artista pode activar ou destruir determinadas relações, colocar questões, como pode criar fricção em certos momentos.

Dê-me um exemplo concreto.

Posso falar-lhe do meu último trabalho. Eu tenho usado o vídeo e a performance, porque permite-me criar uma situação de fricção com os outros. Fiz uma procura de locais de  produção artística para alugar em Nova Iorque, como pretensamente interessada, e fui visitar espaços de manufacturas, em Brooklyn, onde muitos desses edifícios estão a ser transformados em ateliers de artistas. Tinha um pretenso assistente que fazia os telefonemas por mim, apresentando-me como uma artista de Lisboa pretensamente interessada num espaço de 10 mil pés quadrados pagos pela galeria para o desenvolvimento de um grande projecto de museu.

O assistente vai comigo, com uma câmara de filmar, que só peço para usar quando lá estou, e sou levada pelo agente imobiliário até ao dono do edifício. Tento apurar o historial do edifício e o modo como está a ser transformado em ateliers para artistas. Eles normalmente deixam filmar, desde que não se filme os trabalhadores porque a maior parte deles são ilegais.

Fiz isto durante seis meses, tratei a informação toda e produzi um vídeo com esse material, de acordo com o que me interessa transmirtir e revelar: como se processou a evolução do espaço até se transformar em ateliers, como é um atelier de 10 mil pés quadrados, como se pode pagar 10 mil dólares por mês para fazer produção artística, como é visto pelos agentes imobiliários, os modos como atraem os artistas.

Os seus desenhos também reflectem os mesmos tipos de questões?

Os meus desenhos reflectem as preocupações dos projectos. São séries muito grandes de desenhos, repetitivos (eu desenho todos os dias) e são como anotações mas, claro, são mais elaborados. Nesta exposição, há mesmo uma narrativa em desenho que acompanha a narrativa do vídeo. Há portanto um paralelismo entre o vídeo e o trabalho de desenho. Eu gosto de ver essa ligação e a maneira como o espectador reage a essas duas expressões.

Falou dos aspectos narrativos do seu trabalho. Interessa-lhe também a poética?

Não me preocupo com isso objectivamente, mas penso que isso acontece. Eu recorro à metáfora no desenho e dou ao espactador espaços vazios, para o espectador poder entrar.

Nuno Cunha

* Publicado na revista NS (suplemento do DN e do JN de Sabado) 


   

Users' Comments  
 

Average user rating

 


Add your comment
Only registered users can comment an article. Please login or register.

No comment posted



mXcomment 1.0.5 © 2007-2012 - visualclinic.fr
License Creative Commons - Some rights reserved
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >