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09-Fev-2012
Graham Gussin em Vila do Conde PDF Imprimir e-mail

By Miguel von Hafe Pérez, on 27-09-2008 17:20


 “Your time my space, film space time, your space my time” é o título da exposição de Graham Gussin, patente de 27 de Setembro a 16 de Novembro na Solar Galeria em Vila do Conde. Sobre a mostra publica-se o texto do comissário Miguel von Hafe Pérez.

O interesse de Graham Gussin na imagem cinematográfica reside essencialmente no modo como esta preenche fisicamente o espaço da recepção e como também acaba por ocupar o nosso inconsciente.

Ao referenciar um universo culturalmente estabelecido, como sejam as imagens e os conteúdos narrativos do universo da ficção científica ou dos filmes de terror, este artista vai acentuar o seu carácter ambíguo ao sobrepor, cortar, inverter ou descontextualizar os seus elementos mais ou menos tipificados. Isto é, ao criar mobiles com imagens de cenas de filmes de terror, por exemplo, está a associar ideias de leveza, transparência e do sublime – que seriam características nas obras de Calder -, com um contexto de uma violência que no seu caso é sempre mais sugerida do que explícita: na verdade, as imagens que utiliza são sempre imagens in-decisivas que tanto podem mostrar paisagens anónimas, como locais que sabemos vir a constituir-se como palco das acções mais violentas.

 As peças de texto tanto podem criar sucessões mais ou menos aleatórias de frases retiradas do universo cinematográfico, onde normalmente aparecem num contexto de definição de espaço ou tempo (por exemplo: “há cinco anos atrás”, ou “numa terra distante”), como jogar criativamente com títulos literários ou filmes para a construção de meta-narrativas que jogam com a estranheza como factor primordial de confronto com o espectador.

Nos seus filmes e vídeos Graham Gussin tanto manipula imagens da história do cinema, como em Ambient Horror (Day of the Fifteen Dead Layers), de 2006, que é um loop de cem minutos que torna o écran numa espécie de membrana fatídica para imagens hiper-transparentes de personagens que se vão aproximando e desvanecendo de forma fantasmática, como pode criar armadilhas visuais de extrema eficácia: em Spill (primeira versão em 1999), um nevoeiro falso criado com gelo seco invade ameaçadoramente uma paisagem semi-industrial e abandonada; tal como em muitas situações de filmes de terror, passando pelos vídeoclips e a publicidade, este elemento torna-se numa espécie de personagem com vida própria. No entanto, o modo como o autor monta o filme, em longos travellings, pode, ainda que paradoxalmente, sugerir um ambiente hipnótico ao espectador, o que acaba por sublinhar a importância que este artista dá à capacidade das imagens se afirmarem ambiguamente no momento da sua recepção, condicionada por factores tão díspares quanto subjectivos.

Assim, a exposição de Graham Gussin no Solar – Galeria de Arte Cinemática vem acentuar e dar visibilidade, a partir de um exemplo de extremo rigor conceptual e sedimentado em obras de grande eficácia visual, ao modo como na contemporaneidade os artistas cada vez mais se aproximam do cinema e das linguagens cinemáticas, num processo em que também se deve referir o percurso inverso, ou seja, aquele que tem aproximado muita da produção cinematográfica coeva ao experimentalismo das artes visuais no domínio da imagem em movimento.

 

Miguel von Hafe Pérez

 

Graham Gussin é um artista que tem vindo a ancorar a sua prática num espectro diversificado de meios, onde se inclui o texto, o desenho, o filme, o vídeo, o som e a instalação para explorar a percepção do tempo, do espaço e da escala enquanto relação orgânica entre a obra, o receptor e o contexto expositivo. A sua obra recorre frequentemente à apropriação de imagens ou narrativas literárias e cinematográficas, onde através de subtis deslocações se cria um território de estranheza visual e conceptual. O espectador joga um papel determinante no envolvimento com a obra, sendo que esta frequentemente requer que projectemos as nossas experiências e informação naquilo que vemos e ouvimos.

As operações desconstrutivas relativamente ao material cinemático de que se apropria revelam um interesse particular pelo sedimento estrutural da linguagem cinematográfica em detrimento da sua articulação narrativa. Por outro lado, a ambiguidade daí resultante aponta para um outro tipo de desconstrução: o da noção de sublime, que assim se vê interrogada mediante um contínuo trânsito entre o aparentemente próximo (a transparência da imagem) e o efectivamente distante (a descodificação dos seus nexos narrativos).

Graham Gussin nasceu em Londres em 1960, onde vive e trabalha. Estudou no Middlesex Polytechnic entre 1981 e 1985 e terminou o Mestrado na Chelsea School of Art em1990. De entre as exposições individuais que o artista realizou merecem destaque: em 2006, “llumination Rig” (obra de arte pública, Newcastle City Center); Spill, (Ikon 2, Birmingham); em 2004, Centre d’Art Santa Mónica (Barcelona, Spain); em 2003, Lisson Gallery (London); em 2002, Ikon Gallery (Birmingham); “Something Else" (Primo Piano, Rome, Italy); em 2001, Galerie Chantal Crousel (Paris); States of Mind (New Media Space, New Museum of Contemporary Art, New York); Goldie Paley Gallery / Moore College of Art and Design (Philadelphia, USA); e, em 2000, SPILL (Imperial College, London).
   

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