| By Luís Pinheiro,
on 07-10-2008 21:19
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A vontade de saber conduz à pesquisa e à interpretação. A interpretação conduz à recriação e, quando nada mais se acrescenta, à cópia. Há, apesar disso, os que aprendem ou apreendem e dão algo de si à Obra, que reinterpretam ou revivificam. Contudo, só os Compositores alcançam as alterações profundas de linguagem e a Criação.
“E encontramos na origem dessa divina fonte, não um deus, mas, o que é muito mais extraordinário – um homem! Um homem que interpreta em canções humanas os pensamentos de Deus. É essa força interpretativa do grande compositor lhe eleva a personalidade a um plano imortal. Sem dúvida que a simples capacidade de interpretação não basta para imortalizar o compositor. (…) O grande compositor é possuído também da vontade de interpretar essa perseverança obstinada, instintiva e sublime em doar os seus sonhos, a despeito de todas as dificuldades, a um mundo mal agradecido, desdenhoso e muitas vezes antagónico.” (Henry Thomas e Dana Lee Thomas, “Vidas de Grandes Compositores”) O maestro, quando não o solista, substitui com frequência a primeira figura de um qualquer concerto, o compositor, aos olhos de um público mais emotivo do que esclarecido. Ao glorificar-se a execução – e o evento em si – secundariza-se muitas vezes o compositor e, o que é fundamental, a Obra que nos legou. Quando o autor é impossibilitado de concluir um trabalho – por ter falecido, por ter iniciado e desenvolvido outros tarefas, pela falta dos meios envolvidos ou de domínio de uma técnica específica –, há a necessidade de recorrer a terceiros, que terão de interpretar e traduzir as intenções, sentimentos e pensamentos do criador. Este processo pode conduzir a variações criadoras ou a reproduções de todo vazias. O papel e valor da composição e da interpretação dependem, também, das especificidades criativas de cada arte, a que os meios de execução não são indiferentes. Tradicionalmente o Teatro, a Dança e a Música, por existirem no tempo, distinguiam de forma evidente a autoria da interpretação. Outras, como a Pintura e a Escultura, ao fundirem numa mesma pessoa “compositor” e executante, não faziam tal distinção. Na Literatura, valorizou-se integralmente o autor no processo de fruição do leitor.
As questões tornaram-se mais complexas ao longo do século XX, nomeadamente com o surgimento das práticas performativas, os espectáculos interactivos e as intervenções conceptuais na realidade quotidiana, utilizando os meios de comunicação ou os espaços de convívio público. Qual é, então, o valor daquele que concebe e o do que executa? E porque é que, na actualidade, se valoriza tanto a interpretação? A resposta à segunda pergunta é directa: a visibilidade e a quantificação, implicadas na avaliação que o sistema faz, conferem valor à execução; enquanto que a concepção, quando não é empolada intencionalmente, é como se não existisse. Já a resposta à primeira questão é mais difícil. O que importa reter é que o intérprete, para além do domínio técnico que tem que possuir para realizar um trabalho criativo é obrigado a desenvolver um novo trabalho que reformula o anterior. A composição, dotada de uma nova vida, reproduz não só o espírito do criador como o do executante que o assimilou. Há, em ambos os casos, práticas artísticas criativas. A “interpretação” e a “composição” correspondem, de certa forma, à execução técnica e à concepção da obra, ambas importantes. Por serem muitas vezes separadas, conduzem à criação da mentira institucionalizada. A apropriação revela muitas vezes – quase sempre quando é directa – a ausência de qualquer capacidade expressiva. O conceptualismo permite resguardar a incompetência do “artista” quando é outro que executa a obra por si. Muitos destes artistas agem como os curadores, de que não se diferenciam. Preferem a organização “mecânica” do evento ao esforço do trabalho criativo na Obra. A quem pertence o valor incorporado no trabalho? A que teve a ideia de tirar uma determinada fotografia num dado tempo e lugar – onde se reconhece a importância que lhes confere – ou àquele que interpretou as suas ideias e as concretizou, transferindo não só os seus conhecimentos técnicos mas, muitas vezes, o seu próprio sentir e pensar para o trabalho realizado: enquadramento, iluminação, ângulo, disposição dos elementos…a “visão” da obra. Quem é afinal o compositor? Existem, também, os que estudam os mestres do passado – e do presente – com o objectivo de conhecer um “segredo” a utilizar em glorificação pessoal. As obras realizadas reproduzem os “ensinamentos” do mestre – embora sempre a um nível inferior. Raramente alguns destes “copistas”, após a consagração pretendida, encontram a sua própria voz.
Sabe-se, contudo, que o trabalho do artista, enquanto estudante-aprendiz, passa muitas vezes por esse estudo de obras-primas ou de trabalhos valorizados pelo sistema no momento – permanecendo as restantes ignoradas. Assim, no artista que inicia a sua actividade logo se revelam, nos seus primeiros trabalhos, as influências que recebeu. Os exemplos são inúmeros – quase todos partem daí. Convém, contudo, fazer algumas distinções. Se a obra de Alfred Hitchcock tem antecessores no cinema soviético e de Lang e Murnau, o realizador inglês conseguiu desenvolver a sua própria linguagem. Contudo, quase todos os que perfilharam às ideias do “mestre do suspense” se limitaram a imitá-lo. Apesar de alguns raros “pesquisadores” – nem sempre reconhecidos – que se aventuram, a efervescência criativa e criadora do início do século passado têm-se esgotado nas repetições. Os novos movimentos, embustes, nada introduzem que não estivesse nos anteriores. O próprio sistema reconhece a importância do papel desempenhado pelas vanguardas dos princípios do século XX: organizam-se exposições retrospectivas, conferências e estudos. No mundo da Arte anseie-se por uma renovação, pois o nível geral das obras expostas/exibidas desceu muito “baixo”. No passado, valorizou-se conjuntamente execução e concepção. As composições são vivas e permitem recriações. Na Música, é inegável a importância dos intérpretes, pois sem eles perder-se-ia a “voz” dos compositores. O principal, no entanto, será a descoberta, na execução, do seu próprio som, pois só assim se pode falar de acto criativo. É a diferença entre a secura matemática de Sequeira Costa e a exuberância cromática de Maria João Pires. O sistema económico utiliza a doutrinação como estratégia para a sua perpetuação. Os “artistas Sim, Senhor” colaboram nesta situação. Imitam. Tornam-se seguidores. Engrandecem a obra de outros e nunca descobrirão o seu próprio caminho.
Nos meios de comunicação, pela manipulação psicológica, criam-se emoções e pensamentos. A desinformação, a repetição, a ansiedade e o pânico alimentam a má qualidade editorial que tem por objectivo a conquista de audiências mesmo através da manutenção da estupidez humana. Ou talvez seja esse, afinal, o objectivo e a questão das audiências a sua máscara. O sistema fomenta o consumo para escoar o que produz, incluindo a produção artística ou intelectual. Cria as suas vedetas, que faz reconhecer como mestres e a quem faz dedicar inúmeros estudos, publicações e documentários. Os colaboradores, tal como os seus antepassados – os defensores do governo de Vichy – contribuem para a prolificação de um panorama de idiotice geral, quer seja o consumidor inconsciente bem intencionado – que recolhe tampinhas de garrafas –, quer seja a “jovem estrela” que submete a sua vontade à de terceiros. As “vedetas” gritam por atenção. Todos têm de lhes satisfazer as vontades. Mas não crescem. São eternas crianças mimadas com ideias distorcidas sobre si próprias. Os seus “escravos” – comparativamente – evoluem mais do que elas. E os “mandões” de trazer por casa, os pequenos chefes que aspiram a grandes ditadores? Esses não sabem o que querem, nem sabem que não sabem, apenas executam e fazem executar, na esperança vã de manterem eternamente uma situação vantajosa em que têm outros em quem delegar funções e em quem possam mandar. Deixam de fazer o seu trabalho, para se instalarem confortavelmente na “vida”. Estes seres são invejosos. Odeiam a “beleza” alheia e anseiam tornar-se verdadeiros príncipes pelo que recorrem aos cosméticos, às cirurgias plásticas e até ao transplante e comércio de órgãos – que se mantém oculto. Dá jeito existirem os sem-abrigo.
A realidade criada corresponde a uma falsidade que nos querem impingir. Pela repetição, o sistema faz a sua doutrinação e não dá espaço, nem tempo, para que as pessoas “respirem”. Esta metodologia corresponde a uma descoberta nazi, que revelou que as pessoas se tornam mais produtivas quando estão sob pressão. Os fascismos e o nazismo metamorfosearam-se, permaneceram e evoluíram para as ditas “democracias”. Hoje, o mesmo poder autocrático nem necessita de fomentar os extremismos, à direita e à esquerda: a globalização, a “Grande Ditadura”, ao mesmo tempo que é contestada, leva ao ressurgimento de grupos radicais que extremam os nacionalismos, a identidade cultural e religiosa. No ensino promove-se o isolamento das crianças e o nivelar por cada vez mais baixo. Introduzem-se, “louvavelmente”, as novas tecnologias e impossibilitam-se cada vez mais os momentos de convívio através de uma ocupação constante. Os pais e encarregados de educação pensam estar a agir correctamente ao alinhar com estas politicas, que surgem disfarçadas sob a aparência de evolução tecnológica, responsabilização e ocupações de enriquecimento. Pelo nível que assumem estas últimas, apenas entretêm e não permitem o desenvolvimento das capacidades individuais, intelectuais, físicas e técnicas, de cada aluno. Apenas cria massas de executantes estupidificados. Impedidos de pensar e de ter uma participação social crítica e sem esperança de libertação, a maioria dos seres humanos serão controlados, vigiados, e encaminhados pelos seus “senhores”. A formatação é completa. A descoberta da “verdade” conduz, geralmente, a um de dois tipos de comportamento: ou induz a necessidade de libertar os outros – de forma progressiva e de acordo com o estado evolutivo de cada um –, ou à vontade de os controlar. Hoje, parece imperar o último comportamento. O ensino diz-se igualitário para controlar toda a população. É necessário emancipar o homem. O Saber que produz Compositores não se encontra num sistema educativo centralizado, único, mas sim num outro, diversificado, onde cada ser humano possa desenvolver as suas qualidades e capacidades, sem os condicionamentos que os interesses económicos ditam à sua formação.
A doença da humanidade está a atingir proporções inusitadas. Divinizou-se a afirmação individual a todo o custo. Pervertem-se os valores, que deixam de fazer sentido e se tornam vícios a fomentar, na arte, na saúde, na higiene, na espiritualidade, na ecologia e no trabalho. Promovem-se os géneros literários e fílmicos (muitas vezes em conjunto) em que o mau é bom e o bom é pura palermice, expandindo-se a zona cinzenta da anti-ética. A moda, padrão de comportamento, está institucionalizada na sociedade “democrática”. A atenção é intencionalmente desviada para um grande número de actividades simultâneas – e o ser humano, por não aprofundar nenhuma delas, é mantido num nível superficial de consciência. Está a perder-se a capacidade de leitura. Reduz-se intencionalmente o vocabulário. Pegue-se num jornal desportivo de há 20 anos, não mais, e vejam-se nele quantas palavras então normais, populares, “caíram em desuso”. Ao confiar a outros a sua sorte, o seu destino, a sua vida, a sua Obra, o artista erra o maior de todos os erros: suicida-se. Na sua actividade o processo de descoberta é essencial e o sistema nada de novo irá criar, só integra o que se produz. O futuro e a evolução não passam, certamente, pela repetição de fórmulas gastas e que se perpetuam ao serviço dos interesses de um pequeno grupo. Creio ser urgente que esta mensagem passe, mesmo que os seus suportes e canais se destruam – tal como aconteceu à personagem interpretada por Jack Nicholson em “Voando sobre um Ninho de Cucos”. Antes que chegue a lobotomia global, aqui a repito e repito e volto a repetir: há urgência no aparecimento de novos compositores. Mesmo que não sejam tão brilhantes como os do início do Século XX. <!--[if !supportFootnotes]-->
<!--[endif]--> Os escravos do sistema estão a trabalhar de borla para o sistema quando praticam a ecologia institucional. Uma solução, dentro do sistema, seria no processo de produção: regresso da tara e fim do excesso de produção e de consumo.
Será uma das razões mais tenebrosas porque se fomenta o crescimento das camadas populacionais mais miseráveis nos países ocidentais, se fomenta parte da imigração e a manutenção controlada da miséria, da guerra e da fome em países do terceiro mundo. Por um lado fomenta-se a pornografia, por outro impede-se o controlo da taxa de natalidade (chegando-se a considerar “imoral” o próprio preservativo). O terrorismo, por exemplo, está a ser intencionalmente mal contextualizado pelos meios de comunicação. Empolam-se as situações. Cria-se o pânico e inventam-se inimigos. Transmitem-se meras visões “partidárias”. Se o movimento está de acordo com os ideais do sistema é denominado “movimento libertador” ou algo do género; se é contra é “grupo terrorista”. É evidente que todas as práticas de violência devem ser criticadas, prevenidas e, quando não é possível evitá-las, reprimidas. Mas quantas vezes os que perseguem deveriam também ser perseguidos? |
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