| By Rui Algarvio,
on 07-10-2008 22:59
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Rui Algarvio expõe “Holz Boulevard” até 27 de Outubro na Zoom-Carlos Carvalho Arte Contemporânea em Lisboa. Sobre a mostra publica-se um texto do artista.
Holz Boulevard “Holz [madeira, lenha] é um nome antigo para Wald [floresta]. Na floresta [Holz] há caminhos que, o mais das vezes sinuosos, terminam perdendo-se, subitamente, no não-trilhado. Chamam-se caminhos de floresta [Holzwege]. Cada um segue separado, mas na mesma floresta [Wald]. Parece, muitas vezes, que é um igual ao outro. Porém, apenas parece assim. Lenhadores e guardas-florestais conhecem os caminhos. Sabem o que significa estar metido num caminho de floresta”.[1] No decurso da minha actividade artística mais recente, a prática da expressão do essencial, através do referente “paisagem”, tem vindo a inquietar-me e a ser de tal forma importante que o pretexto formal apresentado é mostrado como uma convocatória ou provocação ao espectador, obrigando-o a contemplar. Não será, embora possa parecer, uma ilustração do parágrafo de Heidegger. Que óbvio seria! Constata-se que alguns dos artistas que têm na paisagem o seu pretexto pictórico evocam a paisagem através de malabarismos visuais, eliminando “traços” que são característicos deste género da pintura. Eu, nesta mostra, apresento-os e evidencio-os sem qualquer constragimento como se de uma simples representação se tratasse. No início da minha actividade criadora, depois de terminados os estudos em Lisboa, elaborei um grande conjunto de obras que incorporavam uma silhueta humana; esta era o seu fundamento formal e plástico. Tinha como principal inquietação a minha posição na massa humana. Resultado de uma vivência, esta problemática continha uma preocupação de fundo do foro ontológico. Problematizar a minha concepção de indivíduo através de um grande número de indivíduos, perdendo a minha identidade, encontrando-a noutra situação, inserido naquilo a que chamamos multidão. A par das resoluções plásticas que fazem parte desta actividade, segue-me a inquietação de questionar o porquê de ser assim. Fruto desta problematização, dentro deste percurso criador, surge outro vector que nos levará para a relação entre o indivíduo e o seu contexto vivencial, ou seja, a relação Homem/Natureza. Nesta dicotomia, constatamos a impossibilidade de perceber qual a melhor forma de lidar com a mesma. A par da omnipresença tecnológica – que supostamente nos libertaria para a busca de um estádio de desenvolvimento superior do indivíduo –, distanciamo-nos frequentemente do que é essencial. Com isto, descarto qualquer juízo de valor acerca do que está certo ou errado; aquilo que interessa é perceber de que forma o indivíduo se manifesta nesta etapa civilizacional. A questão de fundo mantém-se. Chegamos a esta exposição. Na continuação deste caminho artístico, esta mostra detém-se sobre o óbvio formal. Paisagens e mais paisagens. Eliminação completa do individuo. Passamos da saturação para a extinção deste elemento. Como anteriormente referi, tão pobre seria a representação pela representação, embora, o conforto de identificar o familiar seja um limbo desafiador e ingrato. Paisagens e caminhos surgem-nos como pretexto para “caminharmos”. Ao confrontarmo-nos com uma ausência constrangedora, com o horror de apenas saber que temos que avançar, de percebermos que apenas nos resta caminhar sem saber bem para onde, emerge também o desejo de imobilização, como acontece quando somos crianças, com medo do escuro, e paramos com receio de avançar. Mas ao mesmo tempo um sentimento de deslumbramento, como acontecia com os artistas do Romantismo, empurra-nos a progredir sem receio e com vontade de encontrar o não-lugar. Resta-nos, pois, a inevitabilidade de prosseguir. Não há volta a dar, avancemos! Surge-nos então a questão: qual o objectivo de tal “caminhada”? Será chegar à meta? Será que existe alguma meta? É este o caminho certo? Mais do que tentar encontrar objectivos concretos, o prazer de desfrutar será o motor desta nossa incursão, para a partir daí encontrar o sentido da “caminhada”. Como refere Heidegger, “estamos longe de pretender deslindar o enigma. A nossa tarefa consiste em ver o enigma.”[2] Rui Algarvio, 2008 |
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