plataforma virtual para a comunidade das artes plásticas e visuais
1ª Página arrow Opinião/Crítica arrow Alexandra do Carmo: O olhar do macaco  
09-Fev-2012
Alexandra do Carmo: O olhar do macaco PDF Imprimir e-mail

By Jonathan Goodman, on 10-10-2008 22:17


 A exposição “Office/Commercial” de Alexandra do Carmo está patente até 25 de Outubro na galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea, em Lisboa. Sobre a mostra publica-se o texto “Alexandra do Carmo: O olhar do macaco” de Jonathan Goodman.

A artista Alexandra do Carmo (uma portuguesa radicada em Nova Iorque) criou uma nova série de desenhos. Inspirada por uma fotografia de chimpanzés que viu num museu de história natural, Alexandra do Carmo desenhou uma série de cabeças de chimpanzés cujo olhar segue claramente o estúdio no interior do qual a artista esboçou as suas imagens; o que o animal vê é directamente visível nos olhos dos símios, desenhados sobre papel, em geral um por página, de forma muito ténue mas também muito definitiva. Alexandra do Carmo chama a atenção para uma série anterior de obras - imagens de dinossauros, em particular do Tyrannosaurus Rex, baseadas numa ilustração original encontrada num livro para crianças - que de igual modo sujeita o observador a uma imaginação capaz de, pelas suas implicações, nos render a uma estética militante. Tal como as ferozes mandíbulas do predador, desenhadas com infinita minúcia e subtileza, desafiam nos seus delicados contornos os limites daquilo que conseguimos ver e em que conseguimos crer, também nós, à semelhança do público de Alexandra do Carmo, somos instados a imaginar o esforço do macaco para assimilar a realidade do estúdio, o local de trabalho e transformação da artista. O chimpanzé, a criatura geneticamente mais próxima dos humanos, oferece o seu olhar, em essência um assunto privado, ao público, que o observa com os privilégios decorrentes do facto de pertencer a uma espécie superior.

 Poderá contudo dar-se o caso de este privilégio ser um tema em debate; a história que decorre nos olhos do chimpanzé desmente qualquer enfatuada pressuposição que possamos ter a respeito das hierarquias sociais ou genéticas. Lembremos que, nos primeiros quinze a dezoito exemplos da série de Alexandra do Carmo, o macaco fita o estúdio, registando emoções relacionadas com as características específicas do local ou, mais precisamente, do espaço de criatividade. Mais do que uma censura, o olhar do animal é uma pergunta: como comunica a artista com um público que supomos ser capaz de ver mas não de verdadeiramente entender? No estúdio encontra-se uma cadeira, reflectida no olhar do macaco; essa cadeira é um substituto não só da presença da artista mas também do observador humano, que avalia o olhar do animal através do seu próprio olhar. Não é justo classificar Alexandra do Carmo como uma artista puramente simbólica - a sua inteligência é demasiado penetrante, e demasiado pública, para só na esfera privada ser significante; o seu olhar não é apenas o seu próprio mas também o do chimpanzé porque ela é a autora de uma imagem que veicula uma certa independência de espírito. Ocorrem alusões de toda a espécie, no âmbito de uma série que pode com segurança ser designada como narrativa e alegórica, no sentido em que os desenhos representam uma realidade que se estende da artista para a imagem e desta para aqueles que vêem essa imagem, cujo significado é elaborado pelo grupo de desenhos actuando no tempo.

Nos desenhos que imediatamente se seguem (imagens 18 a 26), a cadeira desapareceu e o estúdio está mais ou menos vazio. À medida que a série prossegue, o macaco começa a mesclar-se com os elementos arquitectónicos do espaço - as paredes, o tecto, as janelas -, de tal modo que o seu corpo abarca não só o interior mas também o exterior desse espaço. À medida que o macaco se confunde com aquilo que vê - esta é sem dúvida uma potente metáfora da criatividade -, a desconstrução do animal é reiterada na aparente decomposição do próprio desenho. A imaginação anda aqui à deriva e o caos daí resultante torna-se uma metáfora de uma identidade perdida, uma visão vulnerável do mundo que rodeia a mais importante faculdade que o macaco e a sua autora partilham: a capacidade de ver, a um tempo a partir de uma perspectiva pessoal e de uma perspectiva abstracta. Uma vez transposto o desenho 28, a janela torna-se o principal foco não só da atenção do observador como da do chimpanzé. A janela reflectida nos olhos deste adquire uma tonalidade verde-vivo e os olhos assemelham-se a um grande plano da janela. No desenho seguinte, os olhos tornam-se verdes e o macaco fugiu do estúdio, encontrando-se já no exterior. Nos dois desenhos subsequentes vêem-se três pequenos macacos no interior dos olhos, ao passo que no seguinte dois chimpanzés diferentes se encontram num campo verde, fitando dois outros.

 A complexidade visual destes desenhos funciona como metáfora da atenção criativa - da do chimpanzé e da nossa. A natureza intrincada do que o chimpanzé vê prende-se com a visão da artista, a criadora da situação. Por vezes, o meio envolvente abarca o mundo exterior; outras vezes, o macaco vê versões de si mesmo - por outras palavras, enfrenta o seu próprio duplo ao mesmo tempo que representa a inventiva da artista. A questão da alteridade está também aqui presente; os macacos encarnam a sua criadora, funcionando a um tempo como índices do eu da criadora e como tema por direito próprio. Nos desenhos 38-43, aparecem quatro chimpanzés, todos diferentes. Contudo, vendo os olhos deles, o observador apercebe-se do lugar onde estão. Na mesa que integra o meio envolvente dos macacos vêem-se quatro rolos de papel - o que indicia o facto de os chimpanzés estarem em conjunto a arquitectar um projecto, marcado por "erros" que diferenciam o desenho da fotografia original; linhas, setas, círculos, quadrados devolvem o público à natureza construída do desenho e realçam o papel crucial que o conceito de desenho e as suas visíveis incorrecções assumem para o processo que é desenhar.

Nos desenhos 43-50, os chimpanzés abandonam o espaço do estúdio e a mesa é deslocada para o exterior, aparecendo sobre a relva, rodeada de quatro cadeiras; nesta sequência, os macacos - tornados figuras humanas - estão sentados. Nos desenhos 45-50, figuras inacabadas regressam à ficção metafísica dos desenhos e do respectivo conteúdo, deixando ao mesmo tempo vagas as cadeiras nos olhos dos macacos. Fazendo-o, as figuras começam a aparecer no próprio desenho, embora no último a artista regresse aos olhos dos macacos, no interior do qual se vê a silhueta de numerosas pessoas que parecem aproximar-se deles e também do observador. Através da sequência, Alexandra do Carmo relata uma história de erros visíveis que reconhece as dificuldades do desenho enquanto processo; os macacos são encarnações da criatividade mas também a exercem, de forma que o fosso entre criador e criatura é sumariamente eliminado. O aparecimento de visitantes no último desenho alude à presença de um público, o último acontecimento na construção da realidade imaginada em arte. Os macacos e o que eles vêem são prova evidente da imaginação, por natureza etérea e efémera: eles proporcionam a Alexandra do Carmo a substância de um tema. Justamente porque os chimpanzés deliberadamente desenvolvem o tópico da artista - a criatividade encarnada e a sua inevitável tendência para a imperfeição -, há lugar para o erro humano; os erros são uma parte natural do processo de desenhar e devem ser incorporados em qualquer teoria sobre um acto imaginado. Nesta série de obras, Alexandra do Carmo propõe um conceito que passa pela identificação da sua pessoa com o seu tema, numa noção autoconsciente e sagazmente elaborada sobre as responsabilidades que assume ao desenhar. As fusões ocorridas durante a série aglutinam objecto e sujeito, gerando uma estimulante ambiguidade que abrange a artista e o seu mundo. A criatividade tipicamente subtil e aparentemente modesta de Alexandra do Carmo sugere um idioma da perda; contudo, essa perda é percebida não como uma negação mas como o reconhecimento honesto do erro enquanto parte integrante do processo que é desenhar. Sem ele, tornamo-nos perfeitos e perdemos a dimensão meramente humana, tal como os chimpanzés perdem a visão de um campo unificado, que apenas existe enquanto tema utópico inerente à criatividade; sabemos que a sua natureza utópica não pode ser nunca realizada. Nestas circunstâncias, Alexandra do Carmo dirigiu muito realisticamente a sua atenção para a arte enquanto processo absorvente, e não como um produto de digestão fácil. A sua obra torna-se um exemplo da imaginação em acção, digerindo matérias na esperança de se tornar verdadeira e exacta em relação à originalidade criativa.

Jonathan Goodman
   

Users' Comments  
 

Average user rating

 


Add your comment
Only registered users can comment an article. Please login or register.

No comment posted



mXcomment 1.0.5 © 2007-2012 - visualclinic.fr
License Creative Commons - Some rights reserved
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >