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09-Fev-2012
Janelas de paisagens de Rui Algarvio| Entrevista PDF Imprimir e-mail

By Luís Pinheiro, on 13-10-2008 17:59


 Em “Holz Boulevard”, exposição patente até dia 25 de Outubro na galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea, em Lisboa –, Rui Algarvio procura novas veredas no seu percurso de anulação da figuração, que se traduz na descoberta da paisagem.

Um trabalho que recorre à pintura de paisagem demonstra, na contemporaneidade da arte, uma atitude de coragem. Porque é que o faz?

 

Por uma afinidade com a paisagem como assunto pictórico. É preciso um pouco de coragem, mas no fundo há outros artistas que também o fazem, como o Herbert Brandl ou o português João Queiroz. Tem a ver com uma inquietação minha. Tem a ver com a memória, com qualquer coisa que se está a perder.

 

No título da exposição há duas palavras estrangeiras… Não seria possível encontrar palavras portuguesas que traduzissem o sentido da exposição?

 

Não é coisa que me preocupe em particular. Tem a ver com as minhas leituras, com um texto do Heidegger e, se calhar, por achar palavra “boulevard” muito bonita. Não tem a ver com discriminação em relação ao Português.

 

Há alguma intenção, com o seu trabalho, em efectuar através dele um regresso à Natureza?

 

Sim, também… É uma das minhas inquietações ou motivação, esse percurso pela Natureza. No assunto pictórico que é a paisagem é claro que existe esse referente, e tem a ver com as exposições que fiz anteriormente. Tem a ver com um percurso. Realmente a relação Homem/Natureza, para mim, é muito importante.

 

Como é que desenvolveu o seu trabalho para esta exposição? Foi ao encontro dos locais que pintou?

 

Não. Os trabalhos surgem das minhas inquietações, motivações e reflexões acerca do mundo que me rodeia, o mundo em que vivemos. As imagens tem como referentes outras que vou buscar a net, fotografias tiradas por pessoas que eu não conheço e que publicam essas imagens. Selecciono algumas e partir delas começo a trabalhar, mas a meio do processo abandono-as e é do diálogo com a obra que faz com que o resultado final seja o que se vê na exposição.

 

 Qual a importância da escala do trabalho para si?

 

A escala tem importância no processo de execução da própria pintura. Gosto de pintar uma tela de 10 por 10 e no dia a seguir pintar outra de 200 por 200, portanto tem mais a ver com um gozo, um desfrutar do acto de pintar, do que propriamente com a exposição que vou fazer. Ou seja, vou trabalhando… Depois de ter uma boa série de trabalhos, selecciono alguns e imagino a montagem da exposição.

Nesta, tenho cinco grupos de pinturas muito pequenas que funcionam como janelas. Aí existe essa preocupação, a montagem é feita com um propósito – a janela. No fundo é como se fosse uma moldura para o vazio, em que a paisagem funciona como moldura.

Gosto de oscilar entre o micro e o macro. Gosto de ter este tipo de situações.

 

Correspondem certamente a sentimentos ou estados de espírito diferentes?

 

Só pego nos pincéis quando sinto necessidade de pintar. Não me forço. Nesse sentido sim, tem a ver com a predisposição para o acto em si.

 

Falou sobre os conjuntos de pequenas telas quadradas a funcionarem como janelas…

 

Sim, são cinco grupos.

 

Quando visitei a exposição associei a sua disposição ao zero. Há também essa intenção?

 

Não, não há. O ponto de partida é mesmo a questão da moldura e da janela. É como uma margem para o vazio – o vazio do branco da parede – em que aquilo que interessa é o que está à volta, as paisagens. Funciona um pouco como uma memória.

O ponto de partida é aquele, as ilações que se possam tirar, cada um as fará…

 

 No contexto da exposição onde coloca o vídeo? A imagem também é importante? Um registo áudio não teria o mesmo efeito?

 

Não há grande preocupação ao nível de imagem, há mais preocupação ao nível da estrutura conceptual do trabalho. Parto de uma ideia e ,com um amigo, fez-se uma gravação, mas não houve grande preocupação formal, ao nível de tratamento de imagem de vídeo. É mais uma preocupação estrutural a nível conceptual da exposição.

 

Falou há pouco nalguns pintores que trabalham a paisagem. Nas pinturas que tem nesta exposição notam-se também influências de fases anteriores da história da arte, quer do expressionismo ou pré-expressionismo, de autores como Van Gogh ou Strindberg…

 

Sim. Há três nomes que são mesmo referência para mim: Turner,  Van Gogh e  Herbert Brandl. O último, contemporâneo e austríaco, os outros pertencem à história da arte. Em Portugal gosto também do trabalho do João Queiroz, que acompanho sempre que posso.

Há influências sim, mas não me preocupo com essas afinidades.

 

No seu texto fala do Romantismo. Onde se coloca face a este movimento? Procura renovar algumas das suas características?

 

Renovar… não sei, mas nalguns aspectos… No deslumbramento que a paisagem pode ter sobre nós há um ponto de contacto.

Renovar não é uma preocupação minha. O meu processo criativo tem a ver com um questionamento, tem uma base ontológica – como eu digo no texto –, e, no fundo, a paisagem aparece como um pretexto, o resquício de todo um sistema operativo que eu vou desenvolvendo conceptualmente.

Pode haver um ou outro ponto em comum, mas não tenho essa preocupação de querer renovar o romantismo.

 

Sendo a Natureza é para si tão importante, sente alguma proximidade com movimentos como a Land Art e as intervenções que esse tipo de movimentos tem na natureza?

 

Sim, também existe. Lembro-me particularmente de há alguns anos ter ido ver uma exposição de Richard Long à Galeria Mário Sequeira.

Há uma preocupação política, no fundo, ao utilizar a natureza e a paisagem, mas, por outro lado, há também um grande prazer ao executar este motivo pictórico, ao pintar a paisagem. Se calhar há uma aqui uma mistura entre a parte conceptual e a execução do próprio trabalho, daí as ligações ao expressionismo na maneira como pinto as paisagens.

 

 Na sua pesquisa artística vê-se que existe a experiência do vazio. Procura transpor a busca do vazio, de uma natureza plena de espiritualidade, para as suas pinturas e no “vento” que “recria”?

 

Entendo o vazio mais como uma ausência. No início, o meu trabalho começou por utilizar a multidão, a massa humana, como referente pictórico. Havia uma separação de elementos, no fundo eram pessoas, silhuetas pessoas. Agora, retirei tudo isso e tento situar-me nesse vazio que é o confronto com a paisagem, com o caminho que nos aparece e que está à nossa frente. Não tanto o vazio como conceito, mas o da ausência, da ausência pictórica, porque a pouco e pouco fui retirando elementos até chegar à paisagem. Daí falar também na simplicidade pictórica, no óbvio pictórico.

Quero confrontar o espectador com aquilo que ali está – que não é mais nada do que aquilo –, mas essa simplicidade não quer dizer que seja simples. Essa simplicidade pode ser muito complexa....

 

Estava a referir-me à experiência do vazio mais no contexto do que poderia designar-se como “acto artístico” de meditação.

 

Gosto mais de reflexão… Também tem muito a ver com as minhas inquietações, com questões ontológicas, questões de fundo, que são sempre as mesmas. Será que isto é uma obra de arte? Qual é o sentido de fazer isto? Qual é o nosso papel no mundo? Que papel é que podemos ter nesta sociedade ou neste mundo? Tem a ver com isso.

 

Rui Algarvio (n 1973, Barreiro) licenciado em Artes Plásticas-Pintura, pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, bolseiro Erasmus na Universidade Politécnica de Valência (Espanha) e com mestrado em Artes Visuais-Pintura, Universidade Nacional Autónoma do México. Bolseiro da Secretaria de Relações Exteriores do México e do Instituto Camões.

Para além da presente exposição o artista expôs individualmente na Sala do Conclave, Palais Rihour, Lille (2007), na Galeria MCO Arte Contemporânea no Porto (2006), na Galeria Arte Periférica em Lisboa (2004, 2002 e 2000), no Centro Cultural Português do Instituto Camões em Vigo (2001). Rui Algarvio participou ainda em colectivas no Porto, Lisboa, Madrid, Salamanca, Funchal, Cidade do México e Oeiras.
   

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