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09-Fev-2012
Cristina Ataíde: incorporar o outro no trabalho | Entrevista PDF Imprimir e-mail

By Nuno Cunha*, on 14-10-2008 21:21


 Cristina Ataíde está a desenvolver uma nova vertente no seu trabalho, integrando o espectador. Não há obra sem a sua participação.

As exposições programadas para Almancil, no Centro Cultural São Lourenço, que inaugura no dia 11, e Coimbra, na Quinta das Lágrimas, dia 18, reflectem esta sua nova preocupação: incorporar o outro no trabalho.

Nesta altura, qual o tipo de trabalho que está a desenvolver?

Os últimos trabalhos que tenho estado a desenvolver, de que fiz duas exposições em Lisboa, são sobre a problemática da montanha. Fiz uma lista hipotética com todas as montanhas do mundo. Aquelas onde já tinha ido, mudei-lhes a côr para vermelho e fiz uns desenhos de grandes dimensões. Eram desenhos relativamente figurativos da grande massa destas montanhas que eu tinha subido.

Paralelamente com esse trabalho e em contraponto com esses desenhos enormes, com cerca de cinco metros de comprimento, fiz umas pequeninas montanhas em bronze que tinham muito a ver com a intimidade e com o vazio.

 A respeito desse trabalho, Luís Pinheiro referia num artigo a experiência interior da obra. O que é para si essa experiência?

É uma pergunta difícil. Com aquelas obras tento representar as sensações que sinto quando estou na montanha, provocadas por aquela massa avassaladora que entra por nós dentro. É essa matéria que está muito para além de nós, esse contacto muito forte, que quero transpor.

Além disso, aquela lista imensa vai-nos reduzir à nossa quase insignificância. O mundo é tão grande e nós somos tão pequeninos.

Em simultâneo, está a desenvolver um projecto relacionado com os nossos desejos.

Exacto. Isso é outra componente onde me quero desenvolver, é nesse sentido que quero cada vez mais encaminhar-me, fazendo com que os outros sejam intervenientes nas minhas peças, pedindo às pessoas que participem, incorporar o outro no que faço.

 Isso já aconteceu na exposição da Carlos Carvalho, onde havia um pó pretensamente cósmico, que era um pigmento que se depositava em cima das montanhas, e pedia-se às pessoas que interviem-se  mudando a côr do pigmento.

Por um lado, dessacraliza a ideia de obra de arte como coisa intocável, torna-a mais próxima de todos nós, e por outro faz com que as pessoas se apoderem delas ao intervirem.

Com os desejos pretendo que as pessoas me dêem os seus desejos e os incorporem na lista. Os desejos, quando se formalizam, se escrevem, se põem em movimento, eu penso que se realizam. Esta é uma forma de fazer com que as pessoas pensem nos seus desejos, mexam nessa área muito íntima, e tragam isso para dentro do meu trabalho.

O vermelho é uma constante em quase toda a sua obra, aparecendo quase como uma obsessão. Porquê essa presença permanente do vermelho?

O vermelho marcou decisivamente uma mudança no meu percurso, porque as primeiras peças eram todas pretas, cinzentas ou brancas. Ao assumir o vermelho, não o quis largar mais, porque tem tantos significados, em número quase infindável.

 Tem também a ver com opostos, quer sempre dizer duas coisas opostas, e os meus projectos têm também muito presentes esses opostos: pode ser vida, mas pode ser morte; o sangue dentro do corpo é vida e fora dele é morte; pode ser amor, paixão, mas também ódio; por um lado aproxima as coisas de nós, mas em excesso é violenta.

Além disso tem cargas simbólicas noutras culturas. Na indiana, por exemplo, é a energia feminina, na chinesa é felicidade, ...

E depois é uma côr com que me identifico.

Em todo o seu trabalho, ou na sua maior parte, há presença do belo. Procura o belo, conscientemente, na obra?

Não é uma procura. A questão não está aí.

Interessa-me, com o meu trabalho, chegar ao outro, tocar as pessoas.

Não faz uma procura consciente?

Não, de todo.

Não quero, de maneira nenhuma, que as minhas obras sejam agressivas e, talvez, por evitar esse aspecto, seja mais fácil eles aproximarem-se do belo.

 E a poética, é uma questão importante no seu trabalho?

É fundamental.

Há uma presença constante do efémero. Como é que o pensa?

Ele é muito corporizado pelo pigmento, que está ali, mas pode não estar. Essa presença do estar e do não estar é muito importante para mim.

O efémero permite tornar conscientes questões. Esta passagem por aqui é uma passagem efémera e é importante prepararmo-nos para esta viagem que estamos a fazer. NUNO CUNHA

 

Cristina Ataíde, “Inward”

Centro Cultural São Lourenço, Almancil

De 11 de  Outubro a 11 de Dezembro

Terça a Domingo das 10h às 19h

 

Cristina Ataíde, “Desejos”

Quinta das Lágrimas

Rua António Augusto Gonçalves, Coimbra

Inaugura a 18 de Outubro

 

*Texto publicado no DN e JN
   

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