| By José Manuel Fernandes,
on 17-10-2008 14:42
|
Moradia 361 – Entre Arte, Arquitectura e Cidade
Sobre a mostra de Cláudia Conduto, “moradia 361”, patente na Galeria de Exposições Temporárias do Governo Civil de Lisboa até 28 de Dezembro, publica-se o texto do arquitecto José Manuel Fernandes.
Esta proposta de instalação por Cláudia Conduto liberta (e convoca) muitas ideias sobre arte, arquitectura e cidade – todas a um tempo. Por isso, sendo uma obra feita com simplicidade, encerra nesses âmbitos um forte potencial de significado e de reflexão. Trata-se de certo modo de uma evocação do espaço-de-habitar, através da expressão plástica e a partir do tema dos “vazios urbanos” – aplicado ao corpo de intimidade que uma casa sempre é, ou foi. É um evocação de memórias pessoais e familiares, através da reconstrução, de algum modo abstracta (porque depurada de pormenores), refeita a uma outra escala e num diferente contexto, dentro de um amplo claustro conventual - das três “paredes mestras” que entre si encerram um vazio.
Esse vazio em tempos vivido, definido agora por uma pele contentora (superfícies brancas, de cenário, rasgadas apenas pelas aberturas onde estavam as janelas e portas) que será preenchida pelas imagens projectadas de móveis, portas ou passagens, fragmentos dos interiores antes habitados desta “casa da avó” de Claudia - e por silenciosas imagens familiares. Representa-se num dispositivo simples, a recordar um pouco os trabalhos de Rachel Whiteread sobre o “negativo” dos espaços, dos objectos e dos edifícios. O trabalho, que se constitui com um work in progress, tira bom partido da sua base concreta: a existência de uma moradia geminada, no bairro da Madre de Deus, aliás em si mesma uma parte de construção maior, um terço (correspondendo a uma família) de um bloco unitário característico da “casinha portuguesa” como ela foi reinventada pelo salazarismo corporativo para as classes mais modestas de Lisboa - e inserida num conjunto urbano de bairro social de rígido e simétrico desenho. O bairro da Madre de Deus foi projectado pelo arquitecto Luís Benavente, nos iniciais anos 1940, numa zona de tradicional tecido industrial (firmado já desde o século XIX), onde os seus habitantes seriam naturalmente os operários que por ali trabalhavam.
A casa, como a vemos no projecto original (significativamente datado do “ano duro” de 1943), é de uma austeridade uniformizante, quase assustadora, pela escala, pela forma, pelas dimensões e proporções: pertence à “Classe A, do Tipo 2 e é a Casa n.361”. Só depois se humanizou um pouco, na vida da cidade: é hoje a casa n.40 da rua Luís Cadote... Na sua estreita fachada, coberta por três águas, abrem-se uma porta e uma janela (directamente para a sala); na traseira ficam a porta da cozinha e a minúscula janela da casa-de-banho. É tudo aquilo a que se tem direito, no rés-do-chão. No andar de cima, só mais duas janelas, uma para cada quarto. Pelo meio, a escada interna, minimal. Tectos baixos, acanhados, num pé-direito total de dois metros e pouco, por piso. Apenas a mais-valia de uma modesta floreira é representada no projecto, exterior, suspensa sob a janela do quarto da frente. Repare-se que no projecto nem se concede o direito a quaisquer aberturas sobre o jardim próprio, situado ao lado da entrada – a separá-lo da casa está uma alta parede cega, que a artista, na sua actual recriação, trabalha de um modo especial, com estreitos rasgos verticais (uma reentrância negra?), ligados ao rasgo horizontal, onde as paredes recebiam o pavimento separador dos dois pisos. Tão rígido e disciplinador como a casa em si, é o bairro onde se insere - e dentro dele, a sua implantação de minúsculo habitat na cabeça de uma rua alinhada, recta, falanstérica – risco-ao-meio num bairro aberto cenograficamente “em leque” sobre o rio e a cidade oriental.
Este trabalho de Claudia Conduto representa um caso exemplar de articulação aberta entre os dispositivos das artes plásticas e os da arquitectura: esta “casa” é aqui tanto uma intervenção de artista, ou uma instalação, como um fragmento arquitectónico, recontextualizado e tratado - e objecto de uma releitura. Reporta-se à cidade, mais como fragmento reflectido, do que como caso concreto; mas não deixa de respirar o espírito do lugar, e uma historicidade que se não nega, tão cara aos arquitectos (o mundo e o estigma do bairro social, com toda a sua pequenez-de-vida salazarenta). Não tem que haver fronteiras (paredes) entre o mundo das artes, o da arquitectónica, e a cidade. Destaco para terminar dois valores de espaço-tempo (uma variável dupla, aliás muito arquitectónica), que me parecem fortes neste trabalho: A revolta contra a escala mesquinha – ou, de outro modo dito, a procura de um Espaço de liberdade. Esta parece-me ser a força maior da obra, que nítida e conscientemente se quer opor a uma dimensão real que é (e foi sentida, ao longo de décadas) insatisfatória – e que fazia dos seus utentes quase deficientes motores, presos num mecanismo espacial diminuto demais para ser humanamente adequado. É a revolta contra as dimensões convencionais e limitativas do espaço do habitar – a nossa projecção em altura. A celebração do Eixo Vertical da vida. A casa-instalação projecta-se agora para o Céu, ou para a Terra, finalmente liberta de tectos, de chãos ou de tabiques - num vislumbre poético do infinito... E a revisitação do tempo, ou dos Tempos, que fizeram, ou que deram um sentido a este espaço ao longo de gerações. Revisitamos esse Tempo, por via das imagens, dos diversos espaços internos da antiga habitação, agora vazia, vendo os sinais dos pormenores da extinta vida familiar e do seu quotidiano: a porta com bandeira de vidro, a caixa do fio eléctrico no remate da parede com o tecto, o pináculo da cama de madeira, o puxador do armário... Através do sistema unificador que é a reconstrução das paredes mestras - de alto a baixo sem interrupções - da habitação memorizada, vamos reconstituindo, inventariando, e vamos fazendo uma síntese de um tempo longo - o das três ou quatro gerações que por ali passaram. E descerrando, “abrindo a casa”, nos vamos libertando quiçá dos fantasmas respectivos... Reinventado o Espaço, sacudido o Tempo, é possível avançar... José Manuel Fernandes Arquitecto Oeiras, 3 Julho 2007 |
|
|