plataforma virtual para a comunidade das artes plásticas e visuais
1ª Página  
18-Mai-2012
Arte na oposição | copy/paste PDF Imprimir e-mail

By Luís Pinheiro, on 30-10-2008 22:08


 Duas posturas, ou vias, se apresentam ao ser humano que procura aperfeiçoar-se: a emotiva e a racional, ou a do coração e a da cabeça. Antes de se atingir o objectivo, ambas terão de confluir. Na arte contemporânea e nas obras que se produziram durante o século passado, estes caminhos manifestaram-se em desenvolvimentos intuitivos. Em diálogo permanente com a matéria, reconfigurando a poética – os denominados artistas expressionistas; e os conceptualistas, em confronto, a desenvolverem pesquisas e raciocínios dedutivos, questionando e expandindo conceitos estabelecidos. Estas e outras oposições permanecem, pois os seus partidários, numa posição inflexível, cristalizaram as formas de expressão e castraram posteriores desenvolvimentos da Arte. A aproximação e a síntese destes grupos, antagónicos mas complementares, conduzirá por certo, à resolução e ao tão desejado aparecimento de novas estruturas na representação.

“Ora, quando não pensamos que nos falta uma coisa, não a procuramos adquirir.” (“O Banquete”, Platão)

 

A antítese assume hoje inúmeras formas na manifestação artística. Surge no processo de concepção, execução e fruição da obra e na estrutura interna da composição. Assenta na dualidade e cria a relatividade. Essencialmente racional, necessita do outro, do seu oposto para existir: o bem e o mal, o alto e o baixo, o magro e o gordo, o feminino e o masculino, a loira e a moreno, o herói e o vilão, o branco e o preto, o interior e o exterior, o observador e o observado, o céu e a terra, o profano e o sagrado, o inferior e o superior…

 Como em tudo o que diz respeito à arte, também quando se trabalha por contraste de opostos, o que importa na obra são os níveis de expressão conseguidos através da intenção, técnica e poética do seu autor, quer ele tenha ou não consciência do “processo”. Estamos perante um mero jogo de formas ou ideias? Ou de algo interessante? Ou existe um entendimento claro na intervenção do artista na obra que se apresenta?

Ou, indo mais além neste questionamento e levando-o às suas últimas consequências: A antítese tem ainda razão de ser na arte? Qual o seu papel num novo e desejável renascimento, no aparecimento de uma nova síntese?

O oposto, o antagónico e o simétrico são fórmulas tão recorrentes que, muitas vezes, se limitam a constatações superficiais. As assimetrias podem e devem reformar a expressão artística institucionalizada, formatada pelo minimalismo e conceptualismo. A simetria e a translação modular de formas idênticas, uma “norma”, têm de ser eliminadas ou refundidas nas novas formas a encontrar ou redescobrir.

Ao lidarem com as tensões e os anseios dos seres humanos e suas motivações para o crescimento individual e colectivo, as obras deste agora apelam cada vez mais à conclusão, pela participação interactiva do observador, como forma de resolver os antagonismos que extremam e traduzem, ao mesmo tempo que afastam os criadores do público e conduzem à incompreensão das obras executadas.

Na existência apercebida pela consciência outros antagonismos se deparam. Ao percepcionar um mundo exterior o homem concebe a realidade como distinta de si: a primeira oposição. Se a representar interior e exteriormente a si, produz a segunda oposição: a representação e ele próprio. Ao conferir-lhe uma forma, um espaço, um tempo ou outra via, provoca a terceira oposição nas percepções a que dá origem. Por fim, as próprias estruturas de composição têm as suas próprias oposições internas.

 A simetria, que o homem percepciona, através dos sentidos e consciência da realidade que tem, deriva da Criação, surge com a manifestação, onde o interior e o exterior se ocultam e espelham mutuamente. Na natureza que o homem apercebe fora de si encontra também a simetria, que exprime o equilíbrio, funda e edifica a arquitectura, e daí se transporta para as artes visuais enquanto cânone de representação. O equilíbrio patente na simetria centra o ser humano em Si, expressa o símbolo e, ao corresponder a um arquétipo, permite a interiorização e o acesso aos mundos internos – tal como acontece com as mandalas.

Durante a concepção e execução da obra e apesar das inúmeras possibilidades de metodologias de trabalho que se apresentam aos artistas há aspectos que são incontornáveis. Uma forma implica outra que a completa pois, na composição, o peso de cada uma cria uma tensão e implica a resolução pela obtenção de um só equilíbrio. A narrativa, na concepção clássica, estrutura-se no conflito e nas contradições internas das personagens. A representação bidimensional ou o “quadro” que se apresenta ao espectador num palco ou numa projecção cinematográfica introduzem em cada manifestação – mesmo que se faça pela ausência, onde esta adquire significado – a oposição entre o fundo e a forma, o cenário e a personagem. O traço, ao limitar, define zonas, lados, fronteiras, o interior e o exterior. A assimetria cria a tensão e o dinamismo.

O equilíbrio continua a ser, na composição, para muitos artistas, uma questão central. Implícito no jogo de forças internas da obra. expressa-se ainda, na contemporaneidade, através de dípticos ou nos trípticos, onde os painéis laterais equilibram, muitas vezes por simetria de opostos, a composição global.

Artistas como Constantin Brancusi criaram formas fechadas sobre si próprias. No abstraccionismo e, em particular, no minimalismo, permanecem as necessidades de equilíbrio e de simetria, como regras de composição. Na Op arte, mero efeito visual, ainda é mais predominante. A “ideia” – o conceito – expressa-se, tal como o símbolo, de forma clara, pelo jogo de opostos, como o redescobriram e bem, pelo menos como o testemunha o seu “sucesso”, os conceptualistas. A palavra expressa visualmente na obra contradiz, muitas vezes a composição, tal como o próprio título se pode opor ao trabalho. Acentuam-se, a exemplo do passado, as oposições entre a matriz – o molde – e as cópias ou “negativos” do “original”. Os exemplos são incontáveis.

 A obra de arte, ao cumprir a comunicação que lhe compete, implica após ou durante a sua execução a percepção de um observador, um “opositor” em potência, explorado intencionalmente pelo criador. A nível interno, a oposição surge – como não poderia deixar de ser – numa configuração dual e provoca a tensão caso não gere a harmonia, pela simetria. Assim, na composição, os artistas quebram muitas vezes o equilíbrio do conjunto e introduzem na experiência da obra um dinamismo que transporta e agita o observador pelas tensões que cria.

A obra, dotada de vida, duplica-se, reproduz-se e renova-se a cada leitura. O interior espelha o exterior, tal como o último é reflexo e expressão do primeiro. A concepção, a execução e a participação correspondem a vectores que a apreensão da Ideia e a sua manifestação assumem.

A arte contemporânea exprime-se cada vez mais pela anulação das oposições entre a realidade e o espaço de representação, ou pelo seu questionamento. Muitos artistas elegeram o mundo como o seu campo de intervenção. Os espaços expositivos institucionalizados primam, muitas vezes, pela neutralidade e simetria que as intervenções podem acentuar ou anular (como quando toda a atenção é transferida para a obra exibida). A performance, quando interage directamente com o público, também elimina a oposição criador/observador e destrói as características específicas do espaço de representação.

Tradicionalmente, muitas das composições implicavam a representação figurativa de um casal, de um par, de dois grupos em oposição ou o estabelecimento de hierarquias de representação. Hoje, tal como no passado, isso continua a existir quando a Arte existe, embora o equilíbrio destes e outros opostos, simétricos ou o quantitativamente “idênticos” sejam, muitas vezes, meros exercícios formais ou constrangimentos próprios das necessidades mercantis do sistema.

A resolução da dualidade original, na Arte como na Vida, é uma questão central enquanto processo de transformação e aperfeiçoamento. Tanto o artista que se limita à percepção exterior como o que apenas expressa conceitos estão longe do “casamento” necessário. Sem ele, as raízes da oposição mantêm-se pelo êxtase inocente e contemplativo do mundo ou pela arrogância intelectual, ambos causadores de cegueira.

Não deve caber à antítese a perpetuação da diferença, mas sim a sua resolução e entendimento da sua razão de ser. O artista e a sua obra e o observador deixarão alguma vez de ser espelhos em frente de espelhos, ou concretizarão as núpcias a que estão destinados?


   

Users' Comments  
 

Average user rating

 


Add your comment
Only registered users can comment an article. Please login or register.

No comment posted



mXcomment 1.0.5 © 2007-2012 - visualclinic.fr
License Creative Commons - Some rights reserved
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >