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09-Fev-2012
Escrever sem palavras PDF Imprimir e-mail

By Albano Silva Pereira, on 31-10-2008 22:45


 “A Part of my Life” de Marianne Müller apresenta fotografias da artista e está patente no Centro de Artes Visuais (CAV) em Coimbra até 1 de Janeiro de 2009. Sobre a mostra publica-se um texto de João Miguel Fernandes Jorge e a seguir o texto “Escrever sem palavras” de Albano Silva Pereira.

Há dez anos, Marianne Müller publicou A Part of My Life. Dez anos mais tarde, o CAV volta a mostrar as imagens que constituíam esse livro. A pertinência do retomar deste trabalho é, por um lado, demonstrar a intemporalidade desta obra, e, por outro, constitui parte de uma estratégia do CAV trazer a público alguns dos tesouros que perfazem a sua colecção.

A Part of My Life parece ser um diário íntimo de uma mulher, mas é, na verdade, ficcional.

Neste sentido, ao procurarmos um (auto) retrato da artista nestas imagens, encontramos uma história, ou várias histórias que começam e acabam nas próprias imagens. Fica em aberto a sua correspondência quer com uma possível verdade, quer com possíveis fantasias da autora.

Não deixa, no entanto, de representar um retrato intimista que investiga o quotidiano de uma mulher de forma intrusiva e violenta. Na banalidade dos gestos do quotidiano, Müller explora as condições e constrições do ser, e em particular do ser-se mulher. A par da crueza marcada em cada imagem, sobressai simultaneamente uma enorme vulnerabilidade.

Para Müller, as suas fotografias tentam responder à questão que assoma a sua obra: “o que é que acontece às coisas, às sombras das árvores na parede, às bandeirolas que flutuam no parque de estacionamento, ao som dos pombos que batem as suas asas sobre o meu telhado - todos esses milagres, esses momentos serenos - o que é que lhes acontece quando eu os fotografo, quando eu os isolo para reforçar a sua forma a para criar um espaço para cada um? Não estarei eu simplesmente a privá-los de um contexto e assim de uma substância?

Esta série reflecte também sobre a relação entre o corpo e a roupa (e pensar até se a própria pele pode ser considerada como uma peça de vestuário). Esta pode ser vista tanto como uma protecção, ou mesmo uma casa onde vivemos, mas pode também ser uma prisão. As imagens de Müller exploram essa dicotomia entre o dentro e o fora, o livre e o enclausurado que se pode traduzir, filosoficamente, numa dualidade entre corpo e alma.

Há algo de emotivo e de profundo e ao mesmo tempo casuístico em cada imagem. E se cada uma pode ser pensada enquanto um universo em si mesmo, o conjunto afigura-se como um possível arquivo desses pequenos gestos íntimos que podem ser agrupados em sequências, blocos, mini-narrativas.

A fotografia é a forma com que Marianne Müller escreve a sua poesia. Densa, sensual.

Onde a vida e a obra se imprimem nas imagens que cria.

Marianne Müller (n. 1966, Zurique) vive e trabalha em Zurique e Londres.

Entre 1986 e 1991, estudou Fotografia na Escola de Artes e Design de Zurique.

Actualmente, é docente na Universidade de Artes de Zurique. A artista expôs individualmente em Zurique, Basel, Genebra, Kreuzlingen, Braga, Paris, Lisboa, Sion, Bruxelas, Roterdão, Fachhochschule Bielefeld.

Marianne Müller recebeu inúmeras bolsas e prémios e está representada em colecções públicas internacionais.
   

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