plataforma virtual para a comunidade das artes plásticas e visuais
1ª Página arrow Maldizer arrow Feiras e coisas foleiras | Maldizer  
06-Jan-2009
Feiras e coisas foleiras | Maldizer PDF Imprimir e-mail

By Vera Chi Lo Sa, on 14-11-2008 00:30

Oh meus amigos, que se mate o peru para a consoada ou se esfrangalhe um frango porque só tem duas coxas isso ainda eu entendo, mas fazer o mesmo a um livro? Abri-lo, cortá-lo ao meio, fatiá-lo? E vender os pedaços a quem der mais? Pensando bem, a ideia até é brilhante, acho eu, que sou loura. A vida está caríssima para todos, menos para os “happy fews” em que me incluo, e assim sempre se podia ter um pouco de muito, “táver?”, o prefácio da “História de Portugal” do Circulo de Leitores, o segundo capítulo de “A Morgadinha dos Canaviais” e mesmo a bandeira da capa da tradução de “Powershift” (“Os Novos Poderes”) do Toffler, que fica sempre bem mostrar aos amigos e citar: “…concentra-se no advento de um novo sistema de poder que substitui o do passado industrial”. Ainda estamos nesse advento. E não convém confundir “shifft” com uma palavra quase homónima enquanto não se advém de todo, embora já se cheire a diluvial chuvada trazida pela monção da mudança – ai tão propoética keu tou hoje!

Enfim, desmembrar livros sempre é melhor do que transformá-los em combustível para as imperiais fogueiras de tempos ditos passados. E quem é que se propõe desmembrar a leitura, a literatura e a paciência de quem ainda faz força para pensar um bocadinho antes do advento se concretizar, quem é? Se sabe, ponha o dedo no ar!

Eu sei! É a Galeria P4, mais 8 e eram 12, olarilolé quem sabe o que é? Uma galeria não é uma galera (o brasileirismo, não a náutica significância, tá?). Que aposta na cultura e tudo. E dirigida por gente prafrentex à ufa. E de ideias bué da largas e tudo. Vejam só: foi a leilão, quinta feira, a contracapa do livro "As Doutrinas Anarquistas", de Paul Ezerbacher, traduzido por Manuel Ribeiro, que pertenceu a Fernando Pessoa. Sublinho: em leilão só está a contracapa. Mais nada. Uma contracapa em que se conclui texto em Inglês, do punho do Poeta, iniciado na página anterior e final. Quer dizer, um texto sem princípio, sem cabeça, mutilado também ele. O resto do livro, que fazia parte da biblioteca pessoana e contém outras anotações, pertence à Casa Fernando Pessoa. E a Casa Fernando Pessoa diz que se o livro lhe pertence, o mesmo acontece à contracapa. E vai impugnar e venda em leilão desse “produto”. Quem acha bem ponha o dedo no ar!

Eu só espero que no fim de tudo isto a contracapa termine com o livro e o livro com a capa toda, um final feliz como nos filmes. E que ninguém fique na contra-mão, o que já me parece mais difícil.

E que ponha o dedo no ar quem ainda se lembra do que foi o 1º Fórum de Arte Contemporânea, em 1988, no fórum Picoas!

Era um nome bem piroso, medíocre e provinciano e alguém deve ter reparado nisso e então lá se mudou para Feira de Arte Lisboa, melhorzinho, e agora é só Arte Lisboa, minimalista logo mais chique. O que vinha mesmo a calhar era desancar nesta 8ª edição da Arte Lisboa, mas desenganem-se já se estão à espera que eu o faça.

Muito haverá para se dizer mal, está claro. Por mim, digo que a coitadinha também tem alguns méritos. O bilhete de ingresso é só de 8€, o catálogo fica por 20€ e ainda se pode dar um passeio à beira rio, antes ou depois de ver a feira, que decorre no Pavilhão 4 do recinto da FIL, no Parque das Nações, em Lisboa. Tá a ver? Razões de sobra para ir dar uma voltinha até lá, em vez de passar mais uma tarde de sábado num qualquer megacentro comercial.

Já se sabe que em tarde familiar em centro comercial se gasta bem mais que isso… São aquelas botas fabulérrimas e mais não sei o quê para calar a birra da criança… E eu vos garanto: ao preço a que estão as obras expostas nesta Arte Lisboa não vai dar para comprar nada. Os quadros de Miró encontrados no cofre-forte do BPN nacionalizado nosso terão alguma coisa a ver com isso? Não sei, só sei que só oiço falar em crise e em offshores e em indemnizações. E eu? Quando me indemnizam? A crise só abre os cofres do Estado a alguns dos “happy fews”? Andava a pensar nestas tristezas e resolvi: às 18 de 19 lá tou eu caidinha na Arte Lisboa. Além de ver como se passa uma tarde chiquérrima e sempre a poupar ainda vejo a Micas, que perdeu horrores nas acções, sair dali contentíssima, em vez de toda roída por não ter comprado aquela Prada que ficava a matar com as botas.

E não quero ser mazinha, mas repararam que a nossa Cristininha, sempre muitíssimo bem platinada, não vai estar na feira? É verdade, a galeria Cristina Guerra, ou melhor, a Cristina Guerra Contemporary Art, não vai à feira de arte de Lisboa, deste ano. E não é por lhe faltar verba. Pois, a nossa feirinha até vai mudando de nome e de sítio, mas isso não lhe chega para quem está interessado em voos mais altos.

Pensando bem, se fizer o frio que faz hoje, vou é fazer como a minha amiga Cristininha. Deixo-me ficar quieta em casa e em Dezembro vou para Miami.

Sim porque a Art Miami, essa, a Cristininha não perde. Nem eu!

   

Users' Comments  
 

Average user rating

 


Add your comment
Only registered users can comment an article. Please login or register.

No comment posted



mXcomment 1.0.5 © 2007-2009 - visualclinic.fr
License Creative Commons - Some rights reserved
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >