| By João Pinharanda,
on 14-11-2008 01:43
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Adriana Molder expõe “V” na Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva, em Lisboa até 29 de Março, em simultâneo com "Au Fil Du Temps - Percurso Fotobiográfico de Vieira da Silva". Sobre aquela mostra de pintura publica-se o texto “Vê” do comissário João Pinharanda.
Vê "Vê" Assim se lê, em português, a letra que assinala o nome de Vieira (1). E ao dizê-la, transformando a letra lida e escrita em som e palavra, percebemos o poder mágico de fundir som, forma e significado. É disto que trata aqui Adriana Molder: da magia que preside à fusão das matérias, das técnicas, dos olhares, dos sentidos. Maria Helena Vieira da Silva, no seu vestido aos quadrados, como os labirintos que pintou, o pano enfunado movendo-se num papel demasiado molhado de tintas negras; e sem cabeça. Maria Helena, a cabeça apenas, de olhos alucinados de ver não sabemos para além de que plano do real: uma imagem nascida quase sem matéria; e de um fundo ainda negro. Arpad, esse, vendo-a, branco sobre brancos, como pérolas e marfins, e os seus olhos abertos: para dentro, dela. No verso e reverso destes excessos de luz e escuridão somos nós quem vê: positivo e negativo. A mão de Adriana configurando o mundo enlaçado, comum a A. e V., numa vertigem de perspectivas em cujos pontos de fuga encontramos Vieira. Adriana indicando-nos que alguém vê alguma coisa; ou ordenando a outrem que veja alguma coisa – e se esse alguém são os outros, esse outrem é cada um de nós, individualmente submetido ao imperativo Ver.
Neste labor de fusão Adriana Molder indica-nos, por um código (V de Vieira), o assunto da série. E a visualidade dominante e a metáfora primordial da obra e da artista Vieira são atravessadas e recuperadas num simulacro de formas e espaços e sentidos que nem os espelhos conseguem capturar e reflectir; que apenas as teias de uma ficção, onde as personagens são imagens de si mesmas, nos pode devolver. João Pinharanda (1) Em inglês esqueçamos a impossível homofonia entre a letra V e o verbo português. Poderemos, no entanto, recuperar o S de Silva para abreviar um See infinitivo; ou tão indicativo e imperativo, como o Vê português. A exposição resulta da política de parceria da Fundação EDP com a Fundação Arpad Szenes- Vieira da Silva e acontece em simultâneo a uma outra, a Au Fil Du Temps - Percurso Fotobiográfico de Vieira da Silva, de quem se comemoram este ano o centenário. Esta exposição, organizada pela equipa do Museu e objecto de publicação de um livro, deu o mote ao trabalho de Adriana Molder que vai apresentar um conjunto de retratos da artista homenageada e das suas relações de amizade e trabalho, nomeadamente do seu marido Arpad Szenes. Adriana Molder trabalha habitualmente em desenho criando ou recriando personagens com as quais compõe verdadeiras narrativas visuais. Essa figuras articulam a forte raíz literária da sua inspiração com uma inequívoca vocação visual. Nesta série a fonte é imediatamente plástica pelo que a fusão entre o visual e o literário surge mais evidente. Note-se que a exposição apresentará também exemplos das suas mais recentes pesquisas no campo da pintura a óleo. Recorde-se, finalmente que, no âmbito das referidas comemorações do Centenário de Vieira da Silva a Fundação EDP co-produziu este ano com a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva duas exposições ("Correspondências", realizada no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva; e "Vieira da Silva, Arpad Szenes e o Castelo Surrealista", que teve lugar no Museu de Electricidade) e respectivos catálogos e ainda um livro, com edição Assírio & Alvim, onde se reúnem e comentam as cartas trocadas entre Mário de Cesariny, a artista e o seu marido. |
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