| By Luís Pinheiro,
on 20-11-2008 07:25
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Marta Caldas tem, em Faro, uma exposição que começa e acaba e logo recomeça no próximo ano. Chama-se “Queda”, mas depende de quem lê dizer se é assim que se chama, ou outra coisa, quase homófona mas tão desesperantemente diferente. Há texto, mas não título. E três desenhos e um objecto condicionado. A ver até 15 de Dezembro e posteriormente de 20 a 31 de Janeiro para admirar como Marta Caldas reenquadra o papel do “texto” na obra, incorporando-a sem ser título, explicação ou mera referência poética.
“Associado constitutivamente à escrita, o texto (etimologicamente, textus, ou teia, tecido) possui uma natureza ambivalente, devido à sua relativa autonomia em relação à comunicação oral: à sua função de conservação, na medida em que resiste à fragilidade e à imprecisão da memória ao permitir releituras sucessivas ao longo do tempo, acrescenta-se a sua potencialidade de transformação, na medida em que reflecte a capacidade humana de configurar e refigurar interpretações alternativas na vida histórica do sistema cultural.” (“Texto” in Rolland Barthes, Logos – Enciclopédia Luso -Brasileira de Filosofia) Na presente exposição qual o conjunto de trabalhos que expõe? São três desenhos e uma peça que foi pensada e elaborada de propósito para o espaço da galeria. Os três desenhos funcionam como uma espécie de conjunto, sem ser muito óbvio, mas para mim faz sentido falar deles como conjunto. Os desenhos são em que suporte? São todos sobre papel. Há dois que são a esferográfica “bic” e outro é em carvão. Quanto à peça que foi feita propositadamente para a galeria é uma rampa feita com o mesmo material daquele chão – “parket” industrial de carvalho. O ponto de partida para os desenhos é a palavra “queda”? Não, não foi. Os três desenhos têm um texto que os acompanha, uma frase, que está exposta também, e a outra peça tem também uma frase que a acompanha. Não funciona como título, funciona como mais um objecto que está exposto. Esses são os pontos de partida. A palavra “queda”, no fundo são duas. Ou seja, só é uma palavra enquanto escrita. Enquanto dita podem ser duas, e duas que indicam coisas opostas, “queda” ou “quêda”, quieta. Foi mais um acerto final, quando tive de dar um nome à exposição pareceu-me o mais acertado para o conjunto do que iria ser exposto. Não foi exactamente um ponto de partida, foi mais um ponto de chegada – uma relação entre as peças que estão expostas. Essa é uma decisão de quem lê. Se quiser ler tem de escolher, tem de optar, ou então chega às duas conclusões, “quêda” ou “queda”, o mais normal é que a maior parte das pessoas diga “queda” porque é o que estão mais habituadas provavelmente, mas tem este duplo sentido quando dita. Considera que o texto faz parte integrante de cada trabalho? Sim. O texto não funciona como um título, ele funciona integrado no trabalho. Ele existe no decorrer da prática do desenho e acompanha-o até ao momento da exposição. Integra a obra e apesar de não estar na superfície do desenho faz parte desse espaço, e é exposto enquanto tal ao lado, mas não como um título. Geralmente está numa folha A4, o que não é normal num título. Estes trabalhos foram numerados apenas por uma questão de contabilização. O texto não funciona como título dos trabalhos, funciona como parte dos trabalhos, apesar dos textos não estarem numerados. No processo de concepção e realização dos trabalhos, as peças evoluíram paralelamente em termos formais e literários? Há um trabalho que foi integrado no conjunto embora seja mais antigo. Nunca tinha sido exposto e quando eu o reencontrei, enquanto estava a fazer os outros, achei que fazia parte deste conjunto. Não foi feito ao mesmo tempo, mas no fundo foi integrado neste conjunto de trabalhos. E foram desenvolvidos não em paralelo – não foram desenvolvidos em simultâneo, não estive a cozinhar os dois restantes ao mesmo tempo – mas em sequência: um primeiro e outro depois, mas sempre com a mesma “frase” a acompanhá-los. Os três funcionam com o mesmo texto que está exposto. Mas não em termos de processo de trabalho, cada um foi feito no seu tempo, sem sobreposições. A pergunta tinha também a ver com os aspectos literários presentes no seu processo de trabalho e como estes interagem com os formais. Faz uma pesquisa formal e uma outra literária? Como é que o desenho surge? Primeiro, normalmente, surge o texto, embora isso não seja uma regra geral. Há o escolher de um texto que pode já ter sido escrito por mim – mas que não tem de ser obrigatoriamente escrito por mim –, quase sempre uma frase ou pouco mais do que isso. Depois, em relação ao desenho, há uma espécie de uma primeira descoberta de uma superfície e de um riscador, que produzem determinada reacção quando estão juntos. Por exemplo, no de carvão houve primeiro um preenchimento da folha. É feito por subtracção, vai-se apagando e vai-se acumulando outra parte. Vai nascendo daí, é uma coisa que se constrói no fazer, não há uma imagem prévia. Não há uma previsualização de qualquer coisa. O que há é um encontro, que me serve, sem ser visível propriamente. Percebo que é aquela a escolha mais acertada e é a partir daí que ele se constrói, mas ele nasce de dentro dele, não há uma imagem prévia que eu elabore, nem uma pesquisa formal no sentido de fazer um esboço ou... Não, isso não há. Ele parte daquela superfície e daquele riscador em contacto com aquela superfície. No desenho a carvão interessava-me o pôr e o retirar. Em relação aos outros dois, de esferográfica, já trabalhei algumas vezes com caneta bic e sei que a reacção é completamente diferente quando [a tinta] é absorvida ou não pelo papel. Quando é um papel com mais cola absorve menos, fica uma “coisa” mais superficial. Sei mais ou menos qual é a reacção dos dois materiais juntos e isso pode-me interessar visualmente – isto é, pode servir àquilo que eu preciso. Mas também nascem da mesma maneira, nascem de dentro, nunca há uma imagem prévia, há um adivinhar de para onde é que a coisa vai, mas isso não é necessariamente uma imagem. Acontece no fazer, não acontece antes. Os trabalhos não se podem considerar ilustrações pois, pelo que está a dizer, há todo um processo de desenvolvimento formal posterior ao texto, não é assim? Sim. Ele normalmente surge depois do texto. Também pode acontecer é que eu tenha já escrito alguma coisa e que vou desenhar, não necessariamente a pensar nesse texto mas que serve, que é isso. Ou seja, possa não “chegar lá” de uma forma não muito lógica, racional, mas apercebo-me de que as coisas casam, servem uma na outra, e o que são juntas. Quando o texto é de outros, normalmente há uma procura, e [tinha] de escolher e de eleger algumas frases que me serviam. Quando é feito por mim é mais normal que a coisa possa surgir paralelamente, mas que haja uma relação qualquer que eu até só descubra quando estou a desenhar. Neste caso não, neste caso as frases já existiam e só depois é que aconteceu o desenho. Nos textos que começa por fazer no seu processo normal de trabalho quais são os motivos que a levam a escrever? São memórias, são coisas que vê no dia a dia... Não. Não... É um bocadinho complicado estar-lhe agora a descrever... Não são de todo memórias. Não tem de todo a ver comigo, acontecem-me mas não... São reflexões... Não é uma coisa assim tão fácil de lhe explicar que se consiga publicar num jornal e ser legível. Não é um caderno de memórias, um livro de viagens... Não é nada disso, nem sequer é literatura... Acha que tem mais a ver com raciocínio ou um registo? Não sei... Não sei em que sentido é que podem ser lidas e vistas, eu acho que não tem nada a ver com raciocínio, pelo menos o raciocínio transversal a que toda a gente pode mais ou menos aceder. Acho que pode ter um certo tipo de lógica mas que é necessário aceder a ela. É outro registo, que pode ter uma gramática própria... Não é uma coisa muito fácil de explicar, estar a dizer logo que não é racional ou que não é... é logo estar a... Limitar? Não digo que seja limitar, mas é logo dar um sentido que se calhar não é exactamente esse como depois se lê. É perigoso estar a falar disso desta maneira, sem contextualizar outras coisas, sem por outras questões... é um bocadinho complicado estar a usar determinados termos quando eu não sei exactamente aonde é que eles vão levar. Preferia não falar. Vi um trabalho seu há pouco tempo no Espaço Avenida a que julgo pertence a imagem do “press release” da exposição, não é assim? Sim, um deles acho que sim, o de uma peça de chão. Foi o de uma pessoa a circular não foi? Sim. Esse trabalho apresenta uma performance em que a relação se estabelece com o observador num nível puramente conceptual, totalmente abstracto, não é? Sim, esse trabalho é um bocadinho diferente do registo do desenho sobre papel. É uma coisa talvez próxima, ou seja, é uma intervenção no espaço que eu concebo como desenho, mas que tem um comportamento um bocadinho diferente em relação aos meus desenhos sobre papel. Não era uma performance, foi só uma intervenção que eu fiz no chão e depois foi fotografada com uma pessoa a circular. Usei uma sala que tem uma forma de leque nesse espaço e que dava para a Rua Rosa Araújo e a Avenida da Liberdade, onde circula muita gente. A peça – o percurso – consistia em 50 cm decapados no chão. O chão era envernizado e tinha cera e foi decapado até chegar à madeira. Tinha um texto que, no fundo, era uma instrução ou um convite a fazer. Chama-se “Confirmação da lição de francês”. É preciso perceber com o texto. É uma peça que só funciona – para mim – com o texto, que só faz sentido com o texto. O texto é uma espécie de convite ou de instrução de utilização daquele espaço. É um bocadinho distinto da relação que eu tenho com desenho sobre papel. Estudou Música, Teatro e Cinema, para além de Artes Visuais e História da Arte. Nos presentes trabalhos considera que existem características dessas várias áreas? Musicais por exemplo? Não. Aquilo que eu posso aproveitar de um sitio para os outros aproveito, ou que me serve para aproveitar de umas coisas para as outras aproveito, mas não há assim uma coisa muito nítida que se possa dizer que de facto a música influenciou ou o teatro influenciou. Assim de caras, não é uma coisa a que eu tenha recorrido porque me servia para alguma coisa. Essas áreas fazem parte da minha formação e, portanto, estão sempre lá, mas não as usei, não as fui buscar por algum motivo específico, porque a música me dava jeito para algum tipo de coisa, ou o teatro... Não, não fui buscar isso. É normal que essas coisas possam ser colocadas mesmo de outras formas, mas eu não encontro assim. Não me é óbvio esse tipo de recurso. A pergunta tinha mais a ver com intenções inconscientes. Consegue ver lá essas influências? Não sei, e não acho que seja preciso ir lá pesquisar pensando nisso. Não adianta muito… Dos trabalhos que tem vindo a desenvolver valoriza mais os aspectos conceptuais ou dá importância ao diálogo com a matéria? Acho que deve haver dos dois. Parece-me que há duas fases distintas nos trabalhos de que me tem falado, uma mais literária e depois uma mais plástica. Não terá, também, por detrás, um tipo de relação com a obra diferente, em que numa valoriza mais aspectos conceptuais e noutra aspectos mais expressionistas? Se está a tentar ligar o texto à parte conceptual e o desenho à parte material, não, não é verdade. Não é de todo verdade, mesmo. Eu acho que mexo com o material, seja ele palavras, seja ele papel, seja ele o que for. Eu acho que mexo sempre com o material. Agora, é normal que isso possa atirar para outras coisas, para outros lados e, se calhar, até para conceitos, mas não quero apresentá-las agora dessa maneira. Não há essa relação entre conceito texto e matéria desenho. Não é assim. Não é essa a ordem. A poética é importante para si? Considera que se encontra presente nestes trabalhos? Poética? A metáfora... Não, a metáfora não. De vez em quando posso gostar de metáforas mas... A expansão de sentidos da obra, não a trabalha directamente? Não, de certeza. |